A propósito do comentário do Luís ao post anterior
Não sei, Luís, a quem te referes quando alguém imagina (só pode) um cérebro isolado, «com identidade própria, por oposição à realidade». Não serei eu, de certeza, mas quem sou eu para falar com autoridade dessas matérias. Para uma autoridade que vou conhecendo cada vez melhor, A.Damásio, essa de um cérebro separado e autónomo do corpo de que faz parte, não tem cabimento.
O que tem sido estabelecido como doutrina de teologias e filosofias é algo bem diferente e, a meu ver, aí é que entra o que eu chamaria de «pensamento desincarnado», quando se considera a existência de uma mente ou alma ou espírito, autónomos da realidade física. É a tal «res cogitans» de que fala Descartes.
No Livro da Consciência, A.Damásio faz remontar as "raízes" do cérebro humano, com as capacidades de que beneficiamos, às estruturas celulares e aos fundamentos de onde estas estruturas emergiram.
Mais «continuum» não podia ser.
Ninguém inventa fronteiras para as estrelas ou para os planetas do sistema solar. Ninguém inventa fronteiras para a organização dos electrões e protões em interacção com o núcleo atómico, nem com a organização molecular, celular e dos tecidos, para dar origem aos organismos. Se duas moléculas de hidrogénio e uma de oxigénio se combinam para me encher um copo de água fresca, ninguém ficcionou coisa alguma. Se um dia a nossa brilhante capacidade cerebral reproduzir um cérebro igual a este, como hoje já pode reproduzir um copo de água fresca, continuamos no mundo da realidade que vamos conseguindo compreender, transformar, reproduzir e até criar.
Quando o magnifico Aristóteles, há cerca de 2500 anos, coleccionava centenas de plantas e animais, para compreender a vida, o que ele "via" nas espécies vivas que recolhia não tem comparação com aquilo que um biólogo actual "vê" nessas mesmas espécies. Isto quer dizer que nem Aristóteles nem os actuais biólogos manipulam ficções, antes realidades com fronteiras e nós estamos conscientes dessas fronteiras, que não são mais que os limites do nosso conhecimento. Estou convencido que os biólogos do próximo século hão-de sorrir condescendentes, ao ler o que hoje escrevemos sobre as espécies vivas e o que “apenas” conseguimos perceber nelas.
A consciência dos nossos limites e os enganos a que estamos expostos são a prova mais eficaz de que lidamos com a realidade e não com a ficção. Mas também somos fantásticos ficcionistas.
Desde meninos aprendemos a brincar ao «faz-de-conta», treinando-nos para distinguir entre ficção e realidade.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
"essa de um cérebro separado e autónomo do corpo de que faz parte, não tem cabimento"
ResponderEliminarPois não. Mas vou mais longe. Essa de um todo "cérebro + corpo", chamemos-lhe "eu" para abreviar, separado do universo de que faz parte, não tem cabimento. Essa de um "protão", separado do universo de que faz parte, não tem cabimento. Essa de uma "estrela", separada do universo de que faz parte, não tem cabimento. E assim por diante.
Tudo existe, e nada existe. Para compreendermos o tudo, que existe, organizamo-lo em padrões perceptíveis, formando agregações que não existem: são pontos de vista, condicionados designadamente pelos nossos sentidos (a água é líquida para nós, viscosa para as formigas, etc.).
Cada objecto que identifico na realidade que (efectivamente!) me rodeia é insubstancial e só existe na minha mente, enquanto correspondência entre um padrão mental e a tal realidade (note-se que a matéria que eu convenciono constituir o objecto existe mesmo!... ou ao menos nisto acredito...). O giro é que a "minha mente" tem a mesma característica: é também ela insubstancial, e só existe na "mente" de outros (e em si mesma!!!) enquanto correspondência entre um padrão mental e a tal realidade, correspondência essa que é parte da tal realidade!
Umas constelações pensantes reconhecem outras constelações, mas na verdade não há constelações, só há estrelas e se calhar nem essas, mas o gás que as forma... qual gás?!, as moleculas que formam o gás são feitas de átomos!... átomos qual quê?!, são mas é quarks e mais não sei quê... e apetece chamar o Zenão e dizer-lhe: "ó pá, afinal, tinhas razão".
Naturalmente que isto dá algumas dores de cabeça. É do chamado feedback...
Nós somos uma realidade estruturada em formas e o facto de sermos estruturas e captarmos estruturas, em vez de nos afastar da verdadeira realidade, antes evidencia a riqueza das suas potencialidades. Não sei porque a combinação atómica que resulta na estrutura maravilhosa da água há-de "falar-nos" menos da realidade, que as particulas das particulas das particulas das particulas das particulas...E se não for o nosso intelecto a perceber o continuum entre essas particulas das particulas das particulas e a estruturação actual nesta panóplia infindável de formas, quem será? Não precisaremos, como Descartes precisou, de Deus, para garantir que não estamos enganados na nossa "apreciação" da realidade porque, ao combinar particulas das particulas dsa particulas, vamos reproduzindo o universo.
ResponderEliminarO algodão não engana...
Eh! as coisas complicam-se. Tenho a impressão que “as realidades” do Mário chocam com as do Luis! Não sou perito nestas questões, mas o Mário parece-me mais “acessível”. Será que o Luis complica mesmo ou sou eu que não chego lá?
ResponderEliminarDe qualquer modo, para já prefiro ficar em espectador/leitor atento.
Continuem!
Sejas bem aparecido, Lima, que eu já estava a pensar que tinhas ficado retido na neve...
ResponderEliminarOlha que eu também estou à rasca, não tanto para compreender o Luis, mas para o fazer sair do «buraco negro» que o sugou. E ele diz que o «sugado» sou eu, mas por um tão luminoso quanto ficticio mundo de «formas».
Passando do pensamento à prática, o Luis pensa que partindo os átomos e depois as particluas e as particulas da particulas, acabaremos (por enquanto isto é apenas uma hipótese) por descobrir que emergimos do nada e, consequentemente, nada somos, porque do nada, nada procede.
Deve ser este o raciocinio do Luis, mas ele que me corrija se falhei no julgamento.
Mas eu não me sinto nada vitorioso por pensar que sou uma riquissima e brilhante estrutura, formada a partir de realissimas particulas de particulas de particulas. É que a minha alegria, e só no caso de tudo correr pelo melhor, dura o tempo de uma vida e antevejo-me a regressar ao universo informe de triliões de particulas.
Bem, eu não vou tão longe. Já vi afirmar isso. Eu cá acredito na existência de uma realidade última, subjacente a tudo. Ou seja, que no fim há algo "duro" e não o absoluto "vazio". A verdadeira vacuidade, essa é a das formas. Ou seja, as formas não têm existência *em si mesmas*, mas são a relação entre o observador e a realidade, em que, paradoxalmente, o observador é a própria realidade (ou parte dela, se nestes termos fizesse sentido dizê-lo, o que não me parece...).
ResponderEliminarO ganho aqui é a questão do apego: a compreensão de que nenhuma coisa especificamente identificada por nós tem existência intrínseca, tem separação intrínseca - intrínseca! - da restante realidade, conduz à redução do apego e à compaixão. E, espera-se, a uma redução do sofrimento global, pois sem apego não há sofrimento, nem mesmo perante a morte.
NAturalmente, esta visão procura reflectir a realidade última das coisas. Toda a gente, a começar pelo próprio Buda, estava bem consciente de que a vida das pessoas gira à volta da realidade convencionada, em que as formas percepcionadas (que em geral partilhamos, a natureza é pragmática e económica) são essenciais para a compreensão e manipulação do mundo. Mais: sem a verdade convencionada, a verdade última seria insuspeita. A convenção ilusiva permite criar o pensamento racional (entra o Damásio), que permite a intuição da verdade: a Natureza de Buda.
Para um cego que procura o caminho, as indicações de um daltónico ou de uma pessoa com visão normal são igualmente boas.
ResponderEliminarQualquer coisa me diz que será mais fácil convencer o Pe Mario de Macieira da Lixa da ingenuidade da sua pregação “do renascer menino”, do que desviar o Luis das suas “verdades búdicas”!
ResponderEliminarAs nossas mentes são mesmo assim, cada uma tem as suas verdades sejam elas impermanentes ou não.
Não é teimosia, é convicção. Buda (quem mais?!) disse:
ResponderEliminarNão acredite em algo simplesmente porque o ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam sobre isso. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito nos seus livros religiosos. Não acredite em algo só por causa da autoridade dos seus professores e mestres. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas se, após análise e observação, vir que algo concorda com a Razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, então aceite-o e viva em conformidade com isso.