É esta harmonia
Entre forma e fundo
É esta harmonia
Entre forma e fundo
Que eu desejaria
Ver florir no mundo
Ver florir no mundo
Ver florir no mundo
São os versos de uma canção de Manuel Freire, que encantavam a minha juventude há quase cinquenta anos.
Foram escritos e cantados quando tu, Luís, ainda não eras nascido. Agora vens dizer-me que as «formas» são a «absoluta vacuidade». E dizes mais, que as formas estão na origem do «apego» da alma (?) do eu (?) a essa mesma vacuidade, impedindo o encontro com a verdadeira realidade, que designarei como o «fundo» da cantiga do Manuel Freire. Será, este «fundo», o correspondente da tua «realidade última, subjacente a tudo, como escreveste no comentário ao post anterior?
«Eu cá acredito na existência de uma realidade última, subjacente a tudo. Ou seja, que no fim há algo "duro" e não o absoluto "vazio".
Eu confrontei-te com a radical «desmontagem» das formas, quando a estrutura espantosa de um ser vivo como o homem se reduz a um punhado de cinzas e, mais ainda, a um informe aglomerado de partículas subatómicas, que se irão subdividindo até ao ...nada. Aqui, atalhaste o meu raciocínio e fizeste a profissão de fé que transcrevi do teu comentário. Mal te li, imaginei-te abraçado ao Pe Mário Oliveira ou ao Dalai Lama, três crentes que por caminhos diferentes encontraram a realidade primeira, «subjacente a tudo».
Eu não me importava nada de me juntar ao grupo nesse abraço. E só não vos caio no colo porque a minha fé segue outra direcção.
Vocês três recusam o absurdo do aniquilamento da realidade que somos (para além da fase da forma). Eu também. Acontece é que vocês ficam-se pela profissão de fé numa hipotética «realidade última», enquanto que eu junto-me aos operários da ciência que querem dar «forma» a essa realidade última e para o efeito pesquisam em todas as direcções e, mais espantoso de tudo, andam a estilhaçar as partículas das partículas, destruindo formas atrás de formas (subatómicas), como que continuando ou reproduzindo o papel da morte, para lhe descobrir os segredos. A esperança destes operários da ciência é, precisamente, aprender como criar formas a partir da realidade última (ou primeira?).
Esmagar um átomo no acelerador de partículas é abater uma forma no limiar do vazio ou do nada, para começar a estruturar a realidade a partir de um «quase nada».
A diversidade impressionantes de formas em que a realidade se estruturou não desvia o homem da "verdade" ou da verdadeira realidade. Mas eu compreendo que é muito difícil aceitar acontecimentos que nos parecem existir e não existir, ao mesmo tempo. O Luís tem uma percepção aguda deste facto e eu compreendo-o. Realmente nós somos um ser muito estranho. Somos actores e espectadores do teatro da nossa própria vida. Se estou no palco, não posso existir, simultâneamente, como espectador na plateia; se estou na plateia, não posso existir como actor no palco. No entanto é isso que acontece, como está a acontecer neste momento em que me observo a escrever este texto. Se houvesse, nem que fosse uma fracção de segundo, a separar os dois actos, teria tempo de sair de mim e contemplar-me "de fora". Mas não acontece nada disso, nem pode, porque sou uma unidade indissociável. E então acabo por perceber que a mente consciente me dá uma espécie de dom da ubiquidade! A coisa é tão estranha que o Luís diz que é tudo uma ilusão: a minha consciência, o palco onde desempenho o meu papel e todo o cenário envolvente. Real mesmo, só a «realidade última», seja lá o que isso for.
Não sei se lhe dê razão, se aceite esta espécie de ubiquidade. O pior é que isto não vai lá com voluntarismos, de modo que vou aceitar o meu dom da ubiquidade. E acabo por dar razão ao Luís, quando diz que as formas atrapalham, porque nos limitam a um determinado tempo e espaço.
Os «inimigos» das formas têm que reconsiderar a sua atitude e acabarão por descobrir que não há "forma" sem "fundo" e que o "fundo" sempre se trans-forma. Ao jeito da plasticina...
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
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Muito bem apanhado, o poema. Na mouche.
ResponderEliminarEntretanto, se calhar não anda a ficar muito claro que eu sou um partidário inveterado da ciência, do espírito científico. É justamente no altar do rigor científico que sacrifico a minha pretensão à existência intrínseca, o meu tão precioso olhar condicionado, os meus tentadores preconceitos gravados nos genes. A humildade a que a ciência necessariamente nos conduz é que me revela a irrelevância, em termos absolutos, da minha própria forma, a despeito do grande interesse relativo para mim e para outros. Atenção: sem desprezo do interessantíssimo estudo das "formas", sem o qual nenhum conhecimento seria possível.
"Se estou no palco, não posso existir, simultâneamente, como espectador na plateia; se estou na plateia, não posso existir como actor no palco."
Esta frase (não sei se era suposto ser coisa simples) para mim é muito bela. A minha concepção do estado "iluminado" é estar consciente de que o palco e a plateia são a mesma coisa, e tudo o que isso acarreta. Estou convencido de que, nessa altura, a plateia e os actores sofrem menos, e que se representa bem melhor.
Agora lanço eu uma dúvida: Mário, as fronteiras das tuas formas não são demasiado estanques? Não resvalas um pouco para o antropocentrismo?
Apetecia-me ter-me lembrado, ontem, de dizer que "O eu permite o vislumbre da mente, mas produz uma visão enevoada. Os aspectos do eu que nos permitem formular interpretações quanto à nossa existência e quanto ao Universo continuam a evoluir, com toda a certeza ao nível cultura, e provavelmente também a nível biológico. [...] Em resumo, a nossa única visão directa da mente depende de uma parte dessa mesma mente, um processo individual que temos bons motivos para crer não ser capaz de nos providenciar uma descrição abrangente e fidedigna daquilo que está a acontecer. [...] À parte a janela directa que o eu abre para os nossos prazeres e sofrimentos, a informação que nos dá tem de ser posta em causa, especialmente quando essa informação tem a ver com a proópria natureza do eu. Contudo, foi também o eu que tornou possível a razão e a observação científica, e a razão e a ciência, por seu lado, têm vindo a corrigir as intuições enganadoras a que o eu, por si só, nos pode levar.". Mas, realmente, só cheguei a esta parte d'"O Livro da Consciência" de António Damásio esta manhã, no comboio. ;-)
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