Mais uma vez o meu comentário ao Luís virou "homilia" e tive de o puxar para uma postagem. O que vale é que estou em minha casa...
Voltando ao teu comentário anterior, quando dizes que os actores humanos sofrem menos ao tomarem consciência (iluminação) de que são actores e espectadores da sua própria vida, a mim parece-me que é precisamente o contrário. A iluminação da consciência é fonte de inquietação e tornou-se um autentico motor de criatividade. Um animal apavora-se ao «pressentir» o ataque iminente do predador. Nós conservamos intactos os automatismos de reacção perante o perigo, herdados dos nossos longínquos antepassados. A consciência humana que desenvolvemos, amplia e antecipa perigos. E o perigo maior é a consciência da inevitabilidade da morte. O contrapeso desta carga negativa é a memória das alegrias e a consciência da felicidade presente e da felicidade perspectivada.
Os antigos estavam "iluminados" acerca deste seu destino e de que muito pouco poderiam fazer para lhe escapar. "Não pensar nisso" , num desapego-desinteresse crescente, poderia ser uma das "saídas". Não terá ido por aqui o Budismo? Outra escapatória, tão radical quanto fantasiosa, foi a fé numa vida depois da vida, quer fosse para recuperar a felicidade não conseguida nesta primeira passagem pela Terra, quer fosse para tomar posse da felicidade eterna, como prémio de "bom comportamento". Em parte se explica, assim, o nascimento da ética e da moral.
É extraordinário verificar como Damásio mantém intacto o historial completo do processo evolutivo que conduziu à emergência da mente consciente no cérebro, desde as primitivas formas de vida. Todos os mecanismo da «regulação da vida» subsistem no homem da mente consciente e são componente essencial na criação das emoções, sentimentos e pensamentos. Leiam e meditem o seu Livro da Consciência.
De uma maneira simplista poderíamos dizer que as práticas budistas e a fé dos homens não são mais que a homeóstase sublimada.
Fim de conversa?
Penso bem que não. Apenas o principio de uma nova era. A era da ciência. Ainda é uma criança, alguns séculos apenas. Mas já deu para perceber que a «regulação da vida» vai estar cada vez menos dependente dos primitivos automatismos, que eficazmente preservaram a vida que hoje somos. À medida que formos compreendendo e reproduzindo os mecanismos da vida, estaremos aptos a regular a vida de uma forma consciente, preservando o ser humano de acontecimentos e memórias atentatórias da vida e garantindo, para amanhã, uma vida sem percalços. Definitivamente teremos a ciência a cuidar da regulação da nossa vida, aqui neste paraíso onde fomos semeados.
Está-se mesmo a ver que, paulatinamente, a ciência vai tomar o papel da ética e da moral, que foram até agora os «reguladores» estabelecidos e aceites da vida dos homens.
Muita gente vai ainda espernear, até se convencer que é inútil lutar contra os factos.
Mesmo que sejam precisos cem anos para aprovar o uso de um preservativo. As «igrejas» vão acabar por compreender que não podem excomungar a própria Humanidade.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
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Vista assim globalmente, como um desejo natural de ver a humanidade a caminhar para um futuro melhor, a tua projecção, Mario, pode ter forma e fundo. No entanto eu não seria tão optimista. Bem sabes que a ciência, como todas as formas de cultura, de uma maneira geral, são apenas acessíveis a um punhado de “privilegiados”, mesmo se nos últimos tempos esse número não cessa de aumentar. A realidade, é que a grande maioria da humanidade, continua na idade média da sua história, num completo obscurantismo, ignorando todos os progressos que os cientistas, filósofos e outras elites do conhecimento se esforçam por consolidar e difundir. Se bem que, a respeito de difundir, muita coisa haveria para dizer, porque as ditas elites têm a irritante tendência de agir em circuito fechado e em linguagem inacessível para os não iniciados. O mal, porém, o grande mal do homem é e continuará a ser a malfadada ignorância. Lembro-me ainda, desta frase tão verdadeira, nas minhas primeiras traduções de latim, (velhos tempos!), que dizia: “A ociosidade é a mãe de todos os vícios”. Eu, hoje diria: A ignorância é a mãe de todos os males. Onde houver ignorância há sofrimento, incompreensão, desordem.
ResponderEliminarAcho este tema digno de uma reflexão honesta e séria.
Aqui deixo a ideia.
Bem, na verdade eu abusei do significado da sua frase. Estar em palco versus na plateia significa, para mim, considerar-se a si próprio como forma independente num mundo convencionado, versus considerar a realidade absoluta como ela (realmente) é, sem fronteiras, sem divisões, sem classificações. Estar consciente, ou seja, vivenciar ambas as ópticas em simultâneo potencia a liberação do apego e, consequentemente, do sofrimento.
ResponderEliminarFora o abuso e as minhas divagações, certamente que a sua conclusão sobre os efeitos da felicidade e infelicidade que advêm da (tomada de ) consciência são correctos. Está aliás, muito próximoda opinião de Buda.
O desapego não é desinteresse. Calibrar isso é que é difícil. O caminho do Buda não é o do ascetismo, nem o da luxúria. É o Caminho do Meio. Rejeitar as privações e os excessos. O apego é excesso. Jogar um joguinho é bom, mas ter mau perder não é bom. A diferença está no apego. O egoísmo, o orgulho, o desejo desmedido, resultam duma sobrevalorização do eu, que é absolutamente absurdo para quem compreende e vivencia que as formas não têm existência intrínseca.
Faço notar que isto não é uma fuga, é um caminho de grande exigência, não necessariamente atraente (pelo menos não para todos). E resulta de uma análise absolutamente racional d arealidade. E é conforme com a ciência.
Lendo o Limabar, partilho do seu cepticismo. "Há problemas que a tecnologia não resolve", aprende-se no mundo da informática.
E concordo que a ignorância é um dos principais factores de sofrimento. Por curiosidade, e lembrando-me que a ignorância assume papel fundamental no ensinamento do Buda, fiz uma pesquisazita, e a ignorância é pimeira das Doze Causas do Eterno Retorno, que transcreverei como mera curiosidade, chamando já a atenção para o facto de o significado de certos termos poder não ser o óbvio (designadamante, o de "renascimento", totalmente corrompido e incompreendido pela maioria das pessoas, na minha opinião).
1. Há ignorância.
2. A ignorância condiciona as formações mentais.
3. As formações mentais condicionam a consciência.
4. A consciência condiciona a mente e o corpo.
5. A mente e o corpo condicionam os sentidos.
6. Os sentidos condicionam o contato.
7. O contato condiciona a sensação.
8. O sentimento condiciona o desejo.
9. A ânsia condiciona o apego.
10. O apego condiciona o processo de chegar a Ser.
11. O processo de chegar a ser condiciona o renascimento.
12. renascimento condiciona a decadência e a morte, e também a pena, lamentação, dor e desespero.
A ciência segue o ritmo da História, Lima. A ciência também é um processo evolutivo e nós podemos imaginar quantos milhares de anos de evolução foram necessários para nós deixarmos cair a cauda. E é plausivel que nem todos os nossos antepassados a tenham perdido no tempo de uma vida!
ResponderEliminarAqueles a quem eu chamo de «pregadores» pensam que podem fazer-nos perder a cauda da ignorancia em "tres tempos". São os ilumidados apressados. Uns creem na revoluçaõo, outros na magia dos discursos, outros na «mão de Deus» que virá mudar tudo num «fim de mundo» regenerador.
Nós podemos «apressar» a evolução, mas não tanto que dê para deitar os foguetes e ainda ir apanhar as canas.
Quanto ao Buda do Luis, por hoje vou trocá-lo pelo Natal do Menino Jesus. A árvore já está iluminada, o presépio no sitio do costume e as prendas à espera de ser abertas.
Porque é noite de Natal.
Comam as filhoses, mas sem apego!!!! Sem apego!!!!
ResponderEliminarPalavra de honra que não comi filhoses.Aqui em casa fugimos dos fritos. Mas fiz umas rabanadas à moda do Minho que nem queiras saber. O vinho era verde tinto, daquele que pinta a malguinha por onde é bebido. Os ingredientes para o "ensopado" de "pão da avó", além do vinho tinto, são açucar e canela. O vinho é aquecido, adoçado e perfumado com canela. Não consigo perceber se me sabe tão bem pela nostalgia do passado se pela "preciosidade" culinário.
ResponderEliminarPrendas? Adorei o «Dedo de Galileu», de Peter Atkins. Não sei como a minha filhota mais velha adivinhou que eu queria mesmo este livro...
Mário, não me diga que ainda acredita que os filhos descobrem essas coisas (raio de espírito científico!...) Desculpe quebrar-lhe o encanto, mas... FOI O PAI NATAL!!!!!!!!
ResponderEliminar(fui espreitar, e parece bom)
Vinho não bebo (nem sei o que perco)... quanto a canela, 5 estrelas! Só não roo paus de canela, mas um dia destes ainda lá chego.
Voto na nostalgia do passado. Que outra razão para eu preferir o pão-de-ló "estragado" da minha mãe, que fica estaladiço em cima, uns pedaços crocantes e mais doces, e que ela diz que é problema da receita? Há anos que não o "estragava". Estragou-o ontem: sou feliz.
Sem o minimo sintoma de ressaca, atirei-me à «roupa-velha», regadinha com um espumante bruto daqui da região. E desforrei-me nas iguarias que já não consegui despachar ontem, depois de um bacalhau divino «com todos», receita do namorado da minha filha mais nova.
ResponderEliminarFoi um Natal cheio de surpresas, nem todas boas, e uma das boas foi comentar, quase em directo, com o Luis, aqui na Lage Negra, as "emoções" gastronómicas da consoada à portuguesa.