domingo, 28 de novembro de 2010

Um Homem Dois destinos?

Da carta a um querido amigo padre e teólogo católico


…Desde que fui para Balugães (da Primavera até ao Outono) habituei-me a conviver com a realidade da morte, porque é raro o ano em que não participe em meia dúzia de funerais de gente da minha aldeia, quase sempre os mais velhos e exactamente aqueles que conheci na minha infância. Em Balugães há muitos reformados e todos acompanham as cerimónias fúnebres. Há solidariedade na morte, como, infelizmente, nunca existiu em vida. De facto, enquanto vivos, mesmo na família, é «cada um por si e Deus por todos». Chega a ser chocante o muro entre «irmãos na fé» e simples «concidadãos-conterrâneos», na laicidade da vida do dia-a-dia. De mil e uma maneiras muitos cristãos bem intencionados tentaram vencer este muro e erguer nas paróquias uma verdadeira fraternidade ou comunidade. Penso que o … tentou isso mesmo, aí na comunidade onde vive. E nunca se interrogou porque tais tentativas não vão longe? Eu tenho algumas ideias sobre o assunto. Avanço-lhe apenas este pensamento: os homens, todos, querem ser felizes (ressalvo as patologias ainda irremediáveis); só não sabem como lá chegar; e os caminhos assinalados pelos "pregadores" estão mais desacreditados que nunca, muito por força de uma ciência de investigação persistente que vai abrindo perspectivas nunca sonhadas. Já não se trata de um vago sonho de um céu no além nem da ilusão de que o podemos ter aqui e agora. Mas o sonho vai, cada vez mais, nesta direcção e, para o realizar, a validade da investigação científica começa a levar vantagem sobre a pregação de iluminados.
Ouço dizer (aos pregadores) que o caminho faz-se caminhando. Mas eu pergunto: saberão o que estão a dizer? Penso bem que não, porque estou cansado de os ver insistir num pensamento (platonismo, primeiro e cartesianismo, depois) que dividiu o homem em duas partes irreconciliáveis, duas substâncias autónomas: a «res extensa» (o corpo) e a «res cogitans» (a alma). Explicita ou implicitamente a "pregação" assenta neste pressuposto dualista. Ora, em algum momento da vida, as pessoas acabam por sentir, mais do que pensar, que algo não bate certo nas práticas da vida e, sobretudo, porque acabam por aperceber-se que vão morrer, uma a uma, sem resposta às perguntas mais fundamentais e a dizer, como a minha avó Ana Rosa «que “de lá” (do além) não vêm cartas».
Resta-lhes a nebulosa e o consolo da fé que vem com a pregação, porque a verdade da ciência estará sempre num futuro inatingível, enquanto indivíduos.
Mas voltemos às práticas, porque é nestas que se concretiza o caminho que se faz. Se aceitamos o pressuposto dualista de Platão ou Descartes, é lógico que teremos de desligar o destino do «homem corporal» do destino do «homem espiritual». E de pouco valeu, ao longo dos séculos, a belíssima fé da ressurreição cristã do homem como um todo, porque os crentes e a "teologia prática" fizeram tábua rasa desse ensinamento fundamental e chegaram ao cúmulo de introduzir a ideia de limbos e purgatórios que, por si mesmos, afirmam o dualismo do homem. Instalou-se, desse modo, a confusão, aliás muito proveitosa para a Igreja, que à custa de sufragar as almas encheu e enche os cofres. E, com isso, abjurou a sua verdadeira e antiga fé da morte e ressurreição do homem uno e integral.
Diga-me, como se pode estruturar uma comunidade (e fraterna!) quando nos propomos amar «almas» e não seres humanos, únicos e irrepetíveis, na sua unidade essencial «corpo-espirito» e com um mesmo destino final?
Simplesmente não pode e o que se faz é reduzir a extraordinária mensagem do AMOR à «caridadezinha» inconsequente. Quando se acode às necessidades corporais, tal é feito em função da alma. Tratar do corpo de alguém é apenas o pretexto para salvar-lhe a alma, com o inconfessado propósito de salvar a própria.
É por isso que vemos o cristão aceitar, tranquilamente, viver na abundância, ao lado da degradação humana. As casas de caridade que constrói, os hospitais que põe a funcionar, as diversas organizações humanitárias que levanta ou apoia parecem sempre "cheirar" a «esmola aos pobres e desgraçados». E eu pergunto se algum namorado ou namorada aceita ser "amado" por compaixão! E, no entanto, o cristianismo tem como mandamento primeiro o AMOR. E estava tudo tão certinho e perfeitamente compreendido, a ponto de, primitivamente, os cristãos partilharem tudo e entre todos. É claro que isto era demasiado exigente e a saída airosa foi inventar um homem diferente, o homem da «res extensa» (o corpo) e o homem da «res cogitans» (a alma). E só este último, era verdadeiramente digno de ser amado. E assim tornou-se tão fácil “amar” os pobrezinhos reduzidos a «almas».
Esqueceu-se que um homem sem pão é um homem com alma a prazo, tanto quanto um corpo a prazo. Um prazo curtíssimo se o pão não chegar amanhã. Mas persiste a desastrada ideia de que morre o corpo mas a alma sobrevive. E, deste modo, o cristão predispõe-se adiar, uma vez e outra e mais outra, o amor ou solidariedade ao verdadeiro homem uno e integral. No silêncio da oração, no templo e na casa dos crentes cuida-se da salvação da alma que o corpo é para os bichos da terra, no cemitério da paróquia.
Infelizmente, a sociedade cristã ocidental está estruturada sobre o dualismo do homem. A pregação cristã actual, e não só, assenta-lhe que nem uma luva e é o espelho da sua doutrina.
Os senhores pregadores nem fazem ideia (ou fazem?) do que se perde por terem posto de lado a velhinha fé na morte e ressurreição do homem integral.
Os avanços da neurociência, no sentido de demonstrar a unicidade do homem, são a luz ao fundo do túnel. Sem impáfia, antes com grande humildade, os neurocientistas reconhecem que não conseguem compreender como o universo, primeiro, e o nosso corpo, depois, geraram a nossa mente consciente, numa alma que parece ter vida própria e bastar-se a si própria. É um mistério que persiste e se adensa e desafia o homem. Porque, até ver, somos a consciência do universo que ascendeu, em grau único, ao pensamento consciente.

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