domingo, 20 de junho de 2010

O Budismo e o Sonho

Alonguei-me no comentário ao comentário do Luis sobre o post anterior e achei melhor fazer nova postagem. Aqui vai.


Curiosamente, a imagem que eu tenho de um «buda» é de uma figura masculina anafada, sentada sobre os calcanhares, meditabunda, ensimesmada, distante e inerte, parada mesmo, alheada do espaço que ocupa e do tempo que passa.
Mas nunca imaginei o «buda» um sonhador.
Porque do sonho de um homem segue-se a aventura de uma vida, com a sua natural carga de realizações, de alegrias, decepções e sofrimentos. E mais sonhos, e novos sonhos. Sonhamos descer ao fundo mar e mergulhar por entre galáxias, à velocidade da luz; erguer pontes, escavar túneis, construir torres de chegar ao céu; dissecar os corpos, as células, o próprio genoma; já partimos também os "indivisiveis" átomos e agora perseguimos o «santo graal» da «particula de Deus», sonhando espreitar para lá desse profundissimo horizonte...
E, apesar de tudo, conservando a lucidez de de quem sabe que escavando até à raíz do nosso ser, nunca perdemos a visão de conjunto que dá sentido ao que somos e fazemos. É como empreender uma caminhada, em que cada passo ganha sentido tanto pela história do caminho percorrido, como pelo sonho do caminho a percorrer.
Por isso a Humanidade não desiste...
Consciência do passado vivido e do futuro sonhado, será este o «despertar do teu «buda», Luis?
Se é, como se explica que Ricard Matthieu tenha abandonado a «investigação cientifica» e se sente o «homem mais feliz do mundo» acompanhando a pregação itinerante de Dalai Lama, deixando para os dedicados milhões de investigadores a tarefa de viajar até ao coração da vida?
AH! Já sei! Tavez o «homem feliz» de «buda» seja apenas um espirito incarnado na matéria... Para quê perder tempo, nos laboratórios, a fossar na matéria que, no fim de contas, não tem nada a ver com o homem-espirito que somos e muito menos com a nossa felicidade?
É isso?
Acredito que o homem será cada vez mais um «ser espiritual», mas sê-lo-á através desta coisa que chamamos «matéria», que nós sonhamos transformar à medida dos sonhos que vamos sonhando. Porque se esta «matéria» nos fez o que já somos e conhecemos, que maiores segredos não terá para nós descobrirmos?
E, como sempre aconteceu desde que começamos a trabalhar a pedra, o conhecimento e a descoberta implicam a transformação da «matéria».
Do Mundo, quero eu dizer.
Porque será, Luis, que se agarrou a mim a ideia de que o budismo se fica pelo «conhecimento», pelo «despertar», agarrado, ele sim, à jangada (do pensamento) que o transporta?
Tivesse Alexander Fleming, depois da guerra, abandonado a medicina para se juntar a um Dalai Lama no Tibete e não sei quantos milhões de seres humanos teriam continuado a sucumbir às infecções que os seus antibióticos vieram debelar.
Concluo: despertar é essencial e nisso bendito seja o budismo. Mas despertar para quê, se ainda vemos apenas um pouquinho do caminho a percorrer? Por isso compreendo mal como se pode trocar a investigação pela meditação, quando as duas são essenciais e complementares. Parece-me que o problema, embora os budistas não o admitam claramente, é que o budismo assenta no dualismo "ontológico" espirito e matéria.

5 comentários:

  1. Acerca da constituição física do Buda (o príncipe Siddhartha), esta não deve ser confundida com a imagem amplamente divulgada do monge Budai...
    http://en.wikipedia.org/wiki/Budai
    ( em espanhol: http://es.wikipedia.org/wiki/Hotei )
    Aqui está uma das primeiras representações do Buda: http://en.wikipedia.org/wiki/File:GandharaBuddha%28Trimmed%29.JPG

    O Mário começa por fazer uma descrição do lufa-lufa da vida, com os seus encantos e desencantos. O Buda estava plenamente consciente disso.

    Quando diz "[...] conservando a lucidez de de quem sabe que escavando até à raíz do nosso ser, nunca perdemos a visão de conjunto que dá sentido ao que somos e fazemos [...]", tenho de o contestar. Situando-me entre os Absurdistas, não reconheço sentido nem no que somos, nem no que fazemos (sobretudo porque nem somos, nem fazemos, na minha perspectiva, mas adiante).

    Quando diz "Consciência do passado vivido e do futuro sonhado, será este o «despertar do teu «buda», Luis?", tenho de responder claramente não. O despertar não é isso. Embora a consciência da transitoriedade de todos os fenómenos seja um passo pertinente para o despertar, só se dá um verdadeiro passo quando se dá ênfase ao facto de que NADA efectivamente permanece e que NADA tem existência intrínseca. Note-se, não se nega a existência em si, nega-se a existência intrínseca de cada coisa, poque ela depende da nossa percepção, que é subjectiva. Uma amalgama de peças do lego para mim pode ser um homem montado num cavalo para o meu filho. Os números feitos de bolinhas coloridas que vislumbramos nos testes de daltonismo não existem: a sua existência é um produto dependente da nossa percepção (e, como tal, não existem para os daltónicos). Ora uma coisa não pode, ao mesmo tempo, existir e não existir. É, portanto, uma ilusão para alguém.

    Pergunta "como se explica que Ricard Matthieu tenha abandonado a «investigação cientifica» e se sente o «homem mais feliz do mundo» acompanhando a pregação itinerante de Dalai Lama, deixando para os dedicados milhões de investigadores a tarefa de viajar até ao coração da vida?".
    - Não posso falar por ele. O que ele diz acerca disso (http://www.takingcharge.csh.umn.edu/interviews/interview-matthieu-ricard-0) é que conheceu pessoas extraordinárias na sua juventude, por intermédio da sua família. Almoçou com Igor Stravinsky, por exemplo. Mas não havia correlação visível entre o brilho intelectual dessas pessoas e as suas qualidades pessoais. Quando contactou com determinados mestres espirituais, encontrou essa correlação. Viu nas qualidades humanas de determinadas pessoas uma inspiração para a vida e decidiu seguir esse caminho.

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  2. Prossegue com "AH! Já sei! Tavez o «homem feliz» de «buda» seja apenas um espirito incarnado na matéria... Para quê perder tempo, nos laboratórios, a fossar na matéria que, no fim de contas, não tem nada a ver com o homem-espirito que somos e muito menos com a nossa felicidade? É isso?".
    - Mas não, não é isso, eh eh eh. É justamente basilar ao budismo que nós não somos mais do que a matéria que nos compõe e, assim sendo, se NADA mais somos do que isso, não há um EU a que nos agarrarmos. Ele só pode ser uma construção subjectiva. Logo, não tem realidade intrínseca. Intrínseca. "Intrínseca"! Não é "não tem realidade". É "não tem realidade intrínseca". Logo, existimos "por simplificação". A construção do "eu" é uma construção eminentemente prática. Conduz a uma determinada intervenção sobre a realidade vantajosa sob o ponto de vista da sobrevivência de determinados padrões que chamamos "vida", em particular "vida humana". Mas se se partir uma pessoa em pedacinhos, à procura de um "eu" que não esteja na matéria, nada será encontrado. Logo não existe.

    É pertinente a questão... "Porque será, Luis, que se agarrou a mim a ideia de que o budismo se fica pelo «conhecimento», pelo «despertar», agarrado, ele sim, à jangada (do pensamento) que o transporta? Tivesse Alexander Fleming, depois da guerra, abandonado a medicina para se juntar a um Dalai Lama no Tibete e não sei quantos milhões de seres humanos teriam continuado a sucumbir às infecções que os seus antibióticos vieram debelar."
    - Mas o Budismo não diz para parar amorfamente de fazer o que quer que se faça. Budismo e justamente " se tens fome, come; se tens sede, bebe; se tens sono, dorme". Fazer o que se tem de fazer, mas sem apego. Já agora, note-se que a descoberta científica raramente parte das aplicações que se antevêem. A ciência avança muito frequentemente com a busca desassombrada da realidade. E assim se descobriu a Física Nuclear, para o bem e para o mal (quantos seres humanos teria Alexander Fleming curado se não tivessem morrido em Hiroxima e Nagasaki?). Também eu encaro assim a busca da Verdade: de forma desassombrada e não utilitária. Assim, se a análise fria da Realidade me diz que nada tem exitência intrínseca, tenho de me aguentar à bronca com isso.

    Tenho de adiar o comentário à sua conclusão... :-D

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  3. Vou acabar doutorado em budismo...e sem pagar propinas. Venha o resto, Luis, que estou a gostar.

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  4. «...escavando até à raiz do nosso ser nunca perdemos a visão do conjunto...».
    Como não sou apologista do absurdo da existencia é lógico que assim fale. Mas reconhecço, Luis, que esta minha atitude perante a vida e o universo está envolvida num tremendo paradoxo. O exacto paradoxo que tu mesmo disseste que vivias quando afirmaste, bem à nascença deste blog, que fazias caminho com «um olho no finito e outro no infinito». O sentido pleno de ver uma semente germinar e transformar-se em caule com folhas,flores e frutos, para depois mergulhar num novo ciclo de existencia é confrontado com a minha lucidez sobre a existencia de um misterio global em que não são perceptiveis nem os primeiros nem os últimos desenvolvimentos. O sentido do "pormenor" faz-me acreditar/sonhar com o sentido do "todo" que não vislumbro. Não há razão nenhuma que me obrigue a este sonho metafísico. Muito menos vejo motivo para achar absurdo correr atrás do infinito.
    E homem não tem feito outra coisa senão correr atrás do impossivel.
    Um olho na semente que germina e outro num futuro "impossivel".
    Ainda vais dizer, Luis, que és absurdista?
    Então explica-te melhor...

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  5. «Almoçou (Ricard Matthieu) com Igor Stravinsky, por exemplo. Mas não havia correlação visível entre o brilho intelectual dessas pessoas e as suas qualidades pessoais».

    E acrescentas, Luis, que, decepcionado, procurou os monges budistas em quem descobriu a correlação harmoniosa entre o pensamento e a vida.
    Os antigos gregos também se deram contam da contradição inaceitável que era um espirito lúcido e brilhante brotar de um corpo decrépito, infestado de doenças e parasitas. Algo não batia certo e começaram a pensar o homem como duas entidades justapostas: um espiriro imortal dentro de um corpo mortal.
    Os gregos abandonaram a «unidade» do ser humano e Ricard Matthieu abandonou o homem que cresce, necessáriamente, em sofrimento e em permanente contradição, porque o caminho da perfeição não pode ser vencido no decurso de uma curta existencia.
    Não foi por acaso que abandonou a sua carreira de investigador. No seu íntimo convenceu-se de que o objectivo de uma vida é recuar até não sentir nem um desejo nem ter um único sonho. Vivemos, pensará ele, para nos deixarmos apagar, sem sofrimento, calmamente, esperando que se esgote o azeite na candeia e se extinga a chama da vida.
    O fatalismo budista afastou-o da investigação científica. Tornou-se um perfeito monge, até no sentido etimológico do termo «monacus» -solitário.
    Nos antípodas do «homem-amor-solidário».

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