Há dias dei uma pequena palestra subordinada ao tema em título, integrado num pequeno grupo de conferencistas, aqui na minha pequena aldeia de Balugães. O tema foi proposto pela organizadora, baluganense como eu e amiga de infância, a Dra Aparecida. Fomos quatro conferencistas e cada um discorreu sobre "direitos e valores" de acordo com sua "sensibilidade académica" de jurista, de médico, de psicólogo e de filósofo. Para surpresa de todos, a sala da junta de freguesia estava praticamente lotada. Gente com vontade de saber mais. Ao preparar a minha intervenção tive a preocupação de adequar a forma do discurso e a linguagem à audiência, conhecendo eu quase toda a gente na plateia. Assim, imaginei uma parábola e contei-a, para que todos entendessem perfeitamente a diferença, na grande diversidade que consideramos serem valores e direitos humanos. E, antes de entrar na parábola, propus, como principio fundador dos valores e direitos humanos, a própria vida humana. Nada mais que o "valor da vida" e o decorrente "direito à vida". Queria deixar a mensagem de que tudo, mesmo tudo, estará subordinado ao "valor da vida". O tempo era curto e fiquei longe de explanar o meu pensamento. Por exemplo, de que estamos a falar quando evocamos a "vida" como o valor dos valores e o direito dos direitos. Mas a parábola fez grande parte do "trabalho". Como a imagem, vale por mil palavras.
...
Um viajante do deserto, a certa altura, ficou sem água para beber, debaixo do sol abrasador e ainda longe da cidade destino. Quando o desespero já o dominava quase por completo e via a morte próxima e inevitável, surge diante si, vindo não sabe donde, uma figura misteriosa de homem. À sua esquerda, sobre a areia escaldante, está uma arca entreaberta, a transbordar de ouro, prata e pedras preciosas; na mão direita segurava um garrafão de água cristalina. O viajante olhou de relance a fabulosa arca mas os seus olhos cravaram-se, esperançosos, no garrafão da água. O homem misterioso apontou-lhe as duas "preciosidades" e disse-lhe que só poderia escolher uma delas. O viajante, apesar do seu estado desesperado, estava no seu juízo perfeito e escolheu a água, pensando sensatamente:
-Que me adianta a arca da fortuna se perder a minha vida neste deserto?
...
O tempo não permitiu tecer muitas considerações, mas creio que todos compreenderam onde eu queria chegar. Mais adiante voltei à mesma parábola para lhe acrescentar mais um episódio.
...
O viajante retomou a viagem e, um pouco à frente, encontrou outro caminhante na mesma situação desesperada. Este suplicou-lhe que partilhasse um pouco da preciosas água.
-Que acham que fez o nosso viajante agraciado?
Respondeu-lhe que "sim, senhor", mas tinha de lha pagar.
-Não tenho dinheiro, senhor!Responde o pobre homem.
-Então nada feito, meu caro senhor. E seguiu viagem, deixando-o agonizar à sede.
Quis vender o que recebera de graça.
Conclui a minha breve palestra assinalando que nós modelamos uma sociedade baseada no "negócio" e não na solidariedade, como seria de esperar de quem recebeu graciosamente tudo o que é fundamental à vida: a vida em si mesma, ou mais ou menos bem dotada, o ar, as florestas, os mares, os céus. Apropriamo-nos de tudo, a começar pelos dons que recebemos à nascença, fizemos a divisão das terras, dos mares e dos céus e convertemos tudo num imenso negócio de usura. Não há nada que a gente não venda e compre, obedecendo a leis que há muito deixaram de considerar que o valor da vida, além de ser o fundamental é também uma dádiva e que amor com amor se retribui. Olhando a parábola, à luz do direito nacional ou internacional, o viajante é dono da água que só cederá a troco de dinheiro. Vai morrer alguém à sede? A lei, todas as leis, permitem que sigamos adiante como honestos cumpridores da lei. Foi nesta base que criamos as sociedades actuais. Mas está a chegar a hora, e já chegou, em que a nossa consciência humana ou simples sensatez está a obrigar-nos a rever a obra feita. No limite, é criminosa. Não estou a falar de "culpa" mas, sem dúvida, a denunciar o crime que passa despercebido, encoberto por uma miríade de leis e práticas, que não consideram o valor fundamental da vida e do direito à vida que todos recebemos graciosamente. Literalmente, uns chafurdam na fartura e outros morrem ao abandono. Direitos adquiridos? Alguém adquiriu a própria vida? Alguém escolheu ser filho de quem é? Alguém escolheu nascer onde nasceu? Alguém adquiriu a sua inteligencia, capacidade de trabalho, caracter, sensibilidade, tendência afectiva, equilibrio neurológico? Etc etc etc.
Não e não! Mas fizemos leis de apropriação de tudo isto e de tudo o que conseguimos obter a partir dos dons recebidos.
Era bem metido, aqui, o "desapego" budista". A verdade, porém, é que passa tão ao lado da vida real quanto o "desprendimento evangélico" cristão, transformado em "esmola aos pobres". Um e outro acomodaram-se à sociedade que tudo vende e compra em vez de um real empenhamento na sua transformação estrutural para a solidariedade de vida, dando a impressão de que estão, sobretudo, empenhados na "salvação" individual. Mas a transformação vai acontecendo, paulatinamente, mudando-se constantemente as leis do generalizado negócio, porque a Humanidade é inteligente, sensata e acabará solidária. Ou morrerá de vez.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
quarta-feira, 18 de abril de 2012
A Triplice Dimensão de Mim
Retornando à pequena história do Pe Anselmo que eu trouxe noutra postagem mais atrás, claramente ela sugere-nos todo o poder intrigante da mente humana que nos "decompõe" numa tríplice realidade: eu-corpo, eu-personalidade e eu-contemplação (ou reflexão). Esta "decomposição" não é mais que uma simulação da realidade pela nossa mente consciente, um "não-facto", pois a decomposição efectiva do conjunto solidário daquela trilogia seria a morte. De facto, no acontecimento da morte dissolve-se o eu-corpo, o eu-personalidade e o eu-contemplativo (reflexivo). Ou não será assim?
Alimenta-se a dúvida, desde há milénios. Talvez, mais do que uma dúvida, seja a expressão do inconformismo de quem (o eu-contemplativo) se viu nascer, crescer e tornar-se alguém (personalidade). Como pode, pergunta o eu-contemplativo, "tudo" acabar em "nada"? E o "tudo" é o corpo, a personalidade, o próprio acto de reflectir.
Como nunca tivemos resposta conclusiva, considerando o enigma do universo que somos, pensou-se, sonhou-se ou simplesmente imaginou-se uma solução para preservar a identidade individual: a imortalidade, a ressurreição, a reencarnação.
Numa época pre-cientifica estas respostas eram suficientes e chegavam a arrebatar a mente humana. Com o advento da era científica persistiu a esperança de escapar à dissolução da pessoa humana, invocando-se a capacidade misteriosa da mente em contemplar o nascimento, a vida experienciada e a pre-visão da própria morte. Mas acontece que a neurociência demonstra cada vez melhor que o processo mental que nos permite recuar a um "antes da vida" e avançar até um "depois da morte", resulta da actividade essencial e indissociável do corpo e da mente, condicionando-se mutuamente. É um enigma por desvendar, a forma como este processo se desenrola "de baixo", "para cima", ou seja, da não-vida para a vida, até à contemplação e à reflexão.
Mas por ser enigmático, nada justifica afirmar categoricamente a autonomia de um "eu-contemplativo" em relação à sua "humilde" origem.
Estou convencido que, por muitos anos ainda, os homens não consigam viver sem a expectativa da imortalidade, da ressurreiçâo e da reencarnação. Elas vão continuar a garantir, pela fé, cada uma a seu modo, a preservação bem sucedida da identidade.
Haverá alguma vantagem em colocar em causa estas expectativas felizes, desassossegando as pessoas?
Respondendo de uma forma simples eu diria que não foi menor o desassossego quando a ciência revolucionou o mundo geocêntrico, criacionista e antropocentrico.
Dói, mas passa, acabando-se sempre por descobrir que amamos tanto a verdade, quanto o sonho e a esperança. De modo que a humanidade, como um todo, vai continuar a sonhar e a procurar a verdade.
E depois, aqueles que consideram como falaciosas as respostas "tradicionais" da pre-ciência, que solução propõem para a preservação da identidade como garante da felicidade?
Em definitivo, nenhuma, na verdade. Digamos que, até hoje, o máximo que podem oferecer é uma maior e mais sadia longevidade, vivida no sonho possível e na esperança possível.
O facto de tantos, quase todos, se agarrarem, até hoje, a uma transcendencia que preserve, de algum modo, a sua identidade, significa que o homem da era científica também não aceita ter o mesmo destino de uma estrela, de uma planta ou de um animal. Apesar disso, e dando mostras de um "homem de pouca fé", no dia a dia investe "tudo", como sabe e pode, para preservar a integridade do seu corpo, da sua personalidade, da sua mente reflexiva.
Não admira, pois, que a mais verdadeira das orações é aquela que todos rezamos nos momentos críticos: "enquanto há vida, há esperança". E, naturalmente, estamos a falar da única vida que conhecemos e experienciamos.
Alimenta-se a dúvida, desde há milénios. Talvez, mais do que uma dúvida, seja a expressão do inconformismo de quem (o eu-contemplativo) se viu nascer, crescer e tornar-se alguém (personalidade). Como pode, pergunta o eu-contemplativo, "tudo" acabar em "nada"? E o "tudo" é o corpo, a personalidade, o próprio acto de reflectir.
Como nunca tivemos resposta conclusiva, considerando o enigma do universo que somos, pensou-se, sonhou-se ou simplesmente imaginou-se uma solução para preservar a identidade individual: a imortalidade, a ressurreição, a reencarnação.
Numa época pre-cientifica estas respostas eram suficientes e chegavam a arrebatar a mente humana. Com o advento da era científica persistiu a esperança de escapar à dissolução da pessoa humana, invocando-se a capacidade misteriosa da mente em contemplar o nascimento, a vida experienciada e a pre-visão da própria morte. Mas acontece que a neurociência demonstra cada vez melhor que o processo mental que nos permite recuar a um "antes da vida" e avançar até um "depois da morte", resulta da actividade essencial e indissociável do corpo e da mente, condicionando-se mutuamente. É um enigma por desvendar, a forma como este processo se desenrola "de baixo", "para cima", ou seja, da não-vida para a vida, até à contemplação e à reflexão.
Mas por ser enigmático, nada justifica afirmar categoricamente a autonomia de um "eu-contemplativo" em relação à sua "humilde" origem.
Estou convencido que, por muitos anos ainda, os homens não consigam viver sem a expectativa da imortalidade, da ressurreiçâo e da reencarnação. Elas vão continuar a garantir, pela fé, cada uma a seu modo, a preservação bem sucedida da identidade.
Haverá alguma vantagem em colocar em causa estas expectativas felizes, desassossegando as pessoas?
Respondendo de uma forma simples eu diria que não foi menor o desassossego quando a ciência revolucionou o mundo geocêntrico, criacionista e antropocentrico.
Dói, mas passa, acabando-se sempre por descobrir que amamos tanto a verdade, quanto o sonho e a esperança. De modo que a humanidade, como um todo, vai continuar a sonhar e a procurar a verdade.
E depois, aqueles que consideram como falaciosas as respostas "tradicionais" da pre-ciência, que solução propõem para a preservação da identidade como garante da felicidade?
Em definitivo, nenhuma, na verdade. Digamos que, até hoje, o máximo que podem oferecer é uma maior e mais sadia longevidade, vivida no sonho possível e na esperança possível.
O facto de tantos, quase todos, se agarrarem, até hoje, a uma transcendencia que preserve, de algum modo, a sua identidade, significa que o homem da era científica também não aceita ter o mesmo destino de uma estrela, de uma planta ou de um animal. Apesar disso, e dando mostras de um "homem de pouca fé", no dia a dia investe "tudo", como sabe e pode, para preservar a integridade do seu corpo, da sua personalidade, da sua mente reflexiva.
Não admira, pois, que a mais verdadeira das orações é aquela que todos rezamos nos momentos críticos: "enquanto há vida, há esperança". E, naturalmente, estamos a falar da única vida que conhecemos e experienciamos.
sábado, 7 de abril de 2012
Palavras Malditas
Quando me deu para poeta....
As palavras são
Todas
Para ser ditas
E não há malditas
No vocabulário
Do nosso rosário
Da vida que passa
Em vale de lágrimas
E em montes de riso
Nascido
Crescido
Do nosso juizo
Da gente que somos
Amamos
E rimos
Brincamos
Falhamos
E vamos
Com os cornos
De encontro ao muro
Que separa
O malhado
Do branco mais puro
Nos lábios
Nas ventas
E nas águas bentas
Da pia da igreja
Que o padre despeja
Na cabeça beata
De uma velha
Rata
Que assim
Lavadinha
E a olhar
De esguelha
A pensar
Que ganhou
Vida eterna
Barata
E São Pedro enganou
As palavras são
Todas
Para ser ditas
E não há malditas
No vocabulário
Do nosso rosário
Da vida que passa
Em vale de lágrimas
E em montes de riso
Nascido
Crescido
Do nosso juizo
Da gente que somos
Amamos
E rimos
Brincamos
Falhamos
E vamos
Com os cornos
De encontro ao muro
Que separa
O malhado
Do branco mais puro
Nos lábios
Nas ventas
E nas águas bentas
Da pia da igreja
Que o padre despeja
Na cabeça beata
De uma velha
Rata
Que assim
Lavadinha
E a olhar
De esguelha
A pensar
Que ganhou
Vida eterna
Barata
E São Pedro enganou
sábado, 31 de março de 2012
Arte E Inovação
"(...)Também penso que a arte não serve para nada. Pelo menos, se pensamos em coisas úteis ou práticas. A sua função não se coloca ao nível funcional, mas cognitivo. A arte serve para explorar a imaginação e a inteligência para além daquilo que é tido como razoável. Serve para fazer as experiências loucas e as combinações impossíveis.
Ora, esse processo é fundamental quando se pensa na tão propalada inovação. O próprio conceito é claro. Inovar é fazer algo que nunca se fez. O que implica muita ousadia não só ao nível do pensamento como no terreno da experimentação. Cada inovação é resultado de milhares de fracassos. Mas são estes que informam os mecanismos de geração do novo. Ou seja, são os erros e os fracassos que criam o campo a partir do qual a inovação pode emergir.
Daí que, por todo o mundo, mesmo as escolas de ciências e engenharias se vão abrindo ao contacto com as práticas artísticas, de modo a entenderem e aproveitarem os seus mecanismos de criatividade, fundamentalmente experimentais, sem objetivo claro e, em suma, inúteis.
Vem isto a propósito das recentes mudanças promovidas por Nuno Crato no nosso ensino secundário. Choca-me em particular que se termine com as aulas de Educação Visual e Tecnológica, já que estas apontavam precisamente para a tão necessária aproximação entre artes e tecnologias. O regresso à velha separação das duas culturas terá como resultado que aqueles que seguirem a via tecnológica não terão conhecimentos no campo do artístico e, por isso, terão menos capacidade de inovação, enquanto os que seguirem para as artes estarão limitados a reproduzir velhas e conservadoras formas de realização da arte alheias do mundo em que vivemos. Quando por toda a parte se promove o encontro, por cá decreta-se o afastamento. É um erro que as gerações futuras pagarão caro.
Tanto mais que, perante a avalanche asiática, à Europa pouco mais resta, como vantagem competitiva, do que a sua cultura de liberdade e rebeldia, assente numa mistura de saberes e práticas que provaram ser o motor de uma constante capacidade de inovação. Apesar da impressionante e muito qualificada produção de cérebros, na Índia e na China, os níveis de inovação ainda são bastante baixos quando comparados com a Europa e os Estados Unidos. E isso deve-se exatamente à qualidade de um ensino que, mais do que produzir reprodutores, promove a singularidade dos criadores.
É por isso lamentável que em Portugal o preconceito ideológico e a visão conservadora de uma escola "à antiga", com as suas disciplinas nucleares (conceito obsoleto), um claro retrocesso ao aluno papagaio e essa reacionária separação entre bons e maus alunos, atirem o nosso ensino e os seus alunos para uma crescente irrelevância. Limitando, desse modo, e muito a sua capacidade de serem fazedores no mundo que aí vem.» [Jornal de Negócios]
Autor:
Leonel Moura.
Ora, esse processo é fundamental quando se pensa na tão propalada inovação. O próprio conceito é claro. Inovar é fazer algo que nunca se fez. O que implica muita ousadia não só ao nível do pensamento como no terreno da experimentação. Cada inovação é resultado de milhares de fracassos. Mas são estes que informam os mecanismos de geração do novo. Ou seja, são os erros e os fracassos que criam o campo a partir do qual a inovação pode emergir.
Daí que, por todo o mundo, mesmo as escolas de ciências e engenharias se vão abrindo ao contacto com as práticas artísticas, de modo a entenderem e aproveitarem os seus mecanismos de criatividade, fundamentalmente experimentais, sem objetivo claro e, em suma, inúteis.
Vem isto a propósito das recentes mudanças promovidas por Nuno Crato no nosso ensino secundário. Choca-me em particular que se termine com as aulas de Educação Visual e Tecnológica, já que estas apontavam precisamente para a tão necessária aproximação entre artes e tecnologias. O regresso à velha separação das duas culturas terá como resultado que aqueles que seguirem a via tecnológica não terão conhecimentos no campo do artístico e, por isso, terão menos capacidade de inovação, enquanto os que seguirem para as artes estarão limitados a reproduzir velhas e conservadoras formas de realização da arte alheias do mundo em que vivemos. Quando por toda a parte se promove o encontro, por cá decreta-se o afastamento. É um erro que as gerações futuras pagarão caro.
Tanto mais que, perante a avalanche asiática, à Europa pouco mais resta, como vantagem competitiva, do que a sua cultura de liberdade e rebeldia, assente numa mistura de saberes e práticas que provaram ser o motor de uma constante capacidade de inovação. Apesar da impressionante e muito qualificada produção de cérebros, na Índia e na China, os níveis de inovação ainda são bastante baixos quando comparados com a Europa e os Estados Unidos. E isso deve-se exatamente à qualidade de um ensino que, mais do que produzir reprodutores, promove a singularidade dos criadores.
É por isso lamentável que em Portugal o preconceito ideológico e a visão conservadora de uma escola "à antiga", com as suas disciplinas nucleares (conceito obsoleto), um claro retrocesso ao aluno papagaio e essa reacionária separação entre bons e maus alunos, atirem o nosso ensino e os seus alunos para uma crescente irrelevância. Limitando, desse modo, e muito a sua capacidade de serem fazedores no mundo que aí vem.» [Jornal de Negócios]
Autor:
Leonel Moura.
Arte E Inovação
"(...)Também penso que a arte não serve para nada. Pelo menos, se pensamos em coisas úteis ou práticas. A sua função não se coloca ao nível funcional, mas cognitivo. A arte serve para explorar a imaginação e a inteligência para além daquilo que é tido como razoável. Serve para fazer as experiências loucas e as combinações impossíveis.
Ora, esse processo é fundamental quando se pensa na tão propalada inovação. O próprio conceito é claro. Inovar é fazer algo que nunca se fez. O que implica muita ousadia não só ao nível do pensamento como no terreno da experimentação. Cada inovação é resultado de milhares de fracassos. Mas são estes que informam os mecanismos de geração do novo. Ou seja, são os erros e os fracassos que criam o campo a partir do qual a inovação pode emergir.
Daí que, por todo o mundo, mesmo as escolas de ciências e engenharias se vão abrindo ao contacto com as práticas artísticas, de modo a entenderem e aproveitarem os seus mecanismos de criatividade, fundamentalmente experimentais, sem objetivo claro e, em suma, inúteis.
Vem isto a propósito das recentes mudanças promovidas por Nuno Crato no nosso ensino secundário. Choca-me em particular que se termine com as aulas de Educação Visual e Tecnológica, já que estas apontavam precisamente para a tão necessária aproximação entre artes e tecnologias. O regresso à velha separação das duas culturas terá como resultado que aqueles que seguirem a via tecnológica não terão conhecimentos no campo do artístico e, por isso, terão menos capacidade de inovação, enquanto os que seguirem para as artes estarão limitados a reproduzir velhas e conservadoras formas de realização da arte alheias do mundo em que vivemos. Quando por toda a parte se promove o encontro, por cá decreta-se o afastamento. É um erro que as gerações futuras pagarão caro.
Tanto mais que, perante a avalanche asiática, à Europa pouco mais resta, como vantagem competitiva, do que a sua cultura de liberdade e rebeldia, assente numa mistura de saberes e práticas que provaram ser o motor de uma constante capacidade de inovação. Apesar da impressionante e muito qualificada produção de cérebros, na Índia e na China, os níveis de inovação ainda são bastante baixos quando comparados com a Europa e os Estados Unidos. E isso deve-se exatamente à qualidade de um ensino que, mais do que produzir reprodutores, promove a singularidade dos criadores.
É por isso lamentável que em Portugal o preconceito ideológico e a visão conservadora de uma escola "à antiga", com as suas disciplinas nucleares (conceito obsoleto), um claro retrocesso ao aluno papagaio e essa reacionária separação entre bons e maus alunos, atirem o nosso ensino e os seus alunos para uma crescente irrelevância. Limitando, desse modo, e muito a sua capacidade de serem fazedores no mundo que aí vem.» [Jornal de Negócios]
Autor:
Leonel Moura.
Ora, esse processo é fundamental quando se pensa na tão propalada inovação. O próprio conceito é claro. Inovar é fazer algo que nunca se fez. O que implica muita ousadia não só ao nível do pensamento como no terreno da experimentação. Cada inovação é resultado de milhares de fracassos. Mas são estes que informam os mecanismos de geração do novo. Ou seja, são os erros e os fracassos que criam o campo a partir do qual a inovação pode emergir.
Daí que, por todo o mundo, mesmo as escolas de ciências e engenharias se vão abrindo ao contacto com as práticas artísticas, de modo a entenderem e aproveitarem os seus mecanismos de criatividade, fundamentalmente experimentais, sem objetivo claro e, em suma, inúteis.
Vem isto a propósito das recentes mudanças promovidas por Nuno Crato no nosso ensino secundário. Choca-me em particular que se termine com as aulas de Educação Visual e Tecnológica, já que estas apontavam precisamente para a tão necessária aproximação entre artes e tecnologias. O regresso à velha separação das duas culturas terá como resultado que aqueles que seguirem a via tecnológica não terão conhecimentos no campo do artístico e, por isso, terão menos capacidade de inovação, enquanto os que seguirem para as artes estarão limitados a reproduzir velhas e conservadoras formas de realização da arte alheias do mundo em que vivemos. Quando por toda a parte se promove o encontro, por cá decreta-se o afastamento. É um erro que as gerações futuras pagarão caro.
Tanto mais que, perante a avalanche asiática, à Europa pouco mais resta, como vantagem competitiva, do que a sua cultura de liberdade e rebeldia, assente numa mistura de saberes e práticas que provaram ser o motor de uma constante capacidade de inovação. Apesar da impressionante e muito qualificada produção de cérebros, na Índia e na China, os níveis de inovação ainda são bastante baixos quando comparados com a Europa e os Estados Unidos. E isso deve-se exatamente à qualidade de um ensino que, mais do que produzir reprodutores, promove a singularidade dos criadores.
É por isso lamentável que em Portugal o preconceito ideológico e a visão conservadora de uma escola "à antiga", com as suas disciplinas nucleares (conceito obsoleto), um claro retrocesso ao aluno papagaio e essa reacionária separação entre bons e maus alunos, atirem o nosso ensino e os seus alunos para uma crescente irrelevância. Limitando, desse modo, e muito a sua capacidade de serem fazedores no mundo que aí vem.» [Jornal de Negócios]
Autor:
Leonel Moura.
sexta-feira, 16 de março de 2012
A Triplice Dimensão De Mim
Retornando à pequena história do Pe Anselmo que abre a postagem anterior, claramente ela sugere-nos e revela todo o poder intrigante da mente humana que nos "decompõe" numa tríplice realidade: eu-corpo, eu-personalidade e eu-contemplação (ou reflexão). Esta "decomposição" não é mais que uma simulação de um facto pela nossa mente consciente, um "não-facto", pois a decomposição efectiva do conjunto solidário daquela trilogia é a morte. De facto, no acontecimento da morte dissolve-se o eu-corpo, o eu-personalidade e o eu-contemplativo (reflexivo). Ou não será assim?
Alimenta-se a dúvida, desde há milénios. Talvez, mais do que uma dúvida, seja a expressão do inconformismo de quem (o eu-contemplativo) se viu nascer, crescer e tornar-se alguém (personalidade). Como pode, pergunta o eu-contemplativo, "tudo" acabar em "nada"? E o "tudo" é o corpo, a personalidade, o próprio acto de reflectir.
Como nunca tivemos resposta conclusiva, considerando o enigma do universo que somos, pensou-se, sonhou-se ou simplesmente imaginou-se uma solução para preservar a identidade individual: a imortalidade , a ressurreição, a reencarnação.
Numa época pre-cientifica, estas respostas eram suficientes e chegavam a arrebatar a mente humana. Com o advento da era científica persistiu a esperança de escapar à dissolução da pessoa humana, invocando a capacidade misteriosa da mente em contemplar o nascimento, a vida experienciada e a pre-visão da própria morte. Mas acontece que a neuro ciência demonstra cada vez melhor que o processo mental que nos permite recuar a um "antes da vida" e avançar até um "depois da morte", resulta da actividade essencial e indissociável do corpo e da mente, condicionando-se mutuamente. É um enigma por desvendar, a forma como este processo se desenrola "de baixo", "para cima", ou seja, da não-vida para a vida até à contemplação e à reflexão.
Mas por ser enigmático, nada justifica supor a autonomia de um "eu-contemplativo" em relação à sua "humilde" origem.
Estou convencido que, por muitos anos ainda, os homens não consigam viver sem a expectativa da imortalidade do espírito, da ressurreiçâo e da reencarnação. Elas vão continuar a garantir, pela fé, cada uma a seu modo, a preservação bem sucedida da identidade.
Haverá alguma vantagem em colocar em causa estas expectativas felizes, desassossegando as pessoas?
Respondendo de uma forma simples eu diria que não foi menor o desassossego quando a ciência revolucionou o mundo geocêntrico, criacionista e antropocentrico.
Dói, mas passa, acabando sempre por descobrir que amamos tanto a verdade, quanto o sonho e a esperança. De modo que a humanidade, como um todo, vai continuar a sonhar e a procurar a verdade.
E depois, aqueles que consideram como falaciosas as respostas "tradicionais" da pre-ciência, que solução prõem para a preservação da identidade como garante da felicidade?
Em definitivo, nenhuma, na verdade. Digamos que, até hoje, o máximo que podem oferecer é uma maior e mais sadia longevidade, vivida no sonho possível e na esperança possível.
Quem se agarra, até hoje, a uma transcendencia que preserve, de algum modo, a sua identidade, significa que o homem da era científica também não aceita ter o mesmo destino de uma estrela, de uma planta ou de um animal. Apesar disso, e dando mostras de um "homem de pouca fé", no dia a dia investe como sabe e pode para preservar a integridade do seu corpo, da sua personalidade, da sua mente reflexiva.
A mais verdadeira das orações é aquela que todos rezamos nos momentos mais críticos: "enquanto há vida, há esperança". E, naturalmente, estamos a falar da única vida que conhecemos e experienciamos.
Alimenta-se a dúvida, desde há milénios. Talvez, mais do que uma dúvida, seja a expressão do inconformismo de quem (o eu-contemplativo) se viu nascer, crescer e tornar-se alguém (personalidade). Como pode, pergunta o eu-contemplativo, "tudo" acabar em "nada"? E o "tudo" é o corpo, a personalidade, o próprio acto de reflectir.
Como nunca tivemos resposta conclusiva, considerando o enigma do universo que somos, pensou-se, sonhou-se ou simplesmente imaginou-se uma solução para preservar a identidade individual: a imortalidade , a ressurreição, a reencarnação.
Numa época pre-cientifica, estas respostas eram suficientes e chegavam a arrebatar a mente humana. Com o advento da era científica persistiu a esperança de escapar à dissolução da pessoa humana, invocando a capacidade misteriosa da mente em contemplar o nascimento, a vida experienciada e a pre-visão da própria morte. Mas acontece que a neuro ciência demonstra cada vez melhor que o processo mental que nos permite recuar a um "antes da vida" e avançar até um "depois da morte", resulta da actividade essencial e indissociável do corpo e da mente, condicionando-se mutuamente. É um enigma por desvendar, a forma como este processo se desenrola "de baixo", "para cima", ou seja, da não-vida para a vida até à contemplação e à reflexão.
Mas por ser enigmático, nada justifica supor a autonomia de um "eu-contemplativo" em relação à sua "humilde" origem.
Estou convencido que, por muitos anos ainda, os homens não consigam viver sem a expectativa da imortalidade do espírito, da ressurreiçâo e da reencarnação. Elas vão continuar a garantir, pela fé, cada uma a seu modo, a preservação bem sucedida da identidade.
Haverá alguma vantagem em colocar em causa estas expectativas felizes, desassossegando as pessoas?
Respondendo de uma forma simples eu diria que não foi menor o desassossego quando a ciência revolucionou o mundo geocêntrico, criacionista e antropocentrico.
Dói, mas passa, acabando sempre por descobrir que amamos tanto a verdade, quanto o sonho e a esperança. De modo que a humanidade, como um todo, vai continuar a sonhar e a procurar a verdade.
E depois, aqueles que consideram como falaciosas as respostas "tradicionais" da pre-ciência, que solução prõem para a preservação da identidade como garante da felicidade?
Em definitivo, nenhuma, na verdade. Digamos que, até hoje, o máximo que podem oferecer é uma maior e mais sadia longevidade, vivida no sonho possível e na esperança possível.
Quem se agarra, até hoje, a uma transcendencia que preserve, de algum modo, a sua identidade, significa que o homem da era científica também não aceita ter o mesmo destino de uma estrela, de uma planta ou de um animal. Apesar disso, e dando mostras de um "homem de pouca fé", no dia a dia investe como sabe e pode para preservar a integridade do seu corpo, da sua personalidade, da sua mente reflexiva.
A mais verdadeira das orações é aquela que todos rezamos nos momentos mais críticos: "enquanto há vida, há esperança". E, naturalmente, estamos a falar da única vida que conhecemos e experienciamos.
sábado, 10 de março de 2012
A Transcendência (de novo)
Anselmo Borges publicou em 2011 um livro aobre o tema em epígrafe, O CORPO E A TANSCENDENCIA.
A obra inicia-se com uma pequena história entre uma mãe e o seu filho, quando ela explica, perante o cadáver da avó da criança, que ali está apenas o corpo e que a alma foi par junto de Deus, acrescentando que o mesmos acontecerá a ambos:o teu corpo ficará na terra e a tua alma vai para junto de Deus. Surpreendentemente, o miúdo pergunta "e eu, para onde vou?".
Daqui o filósofo parte para as suas considerações sobre a transcendencia. Reconhecendo, embora, a unidade corpo-alma no seu "corpo-pessoa" onde sobressai um EU sobre o "eu-corpo" e o "eu-pessoa", será difícil o autor escapar a um certo dualismo implícito quando admite o distanciamento (abertura ao infinito, diz Anselmo Borges)daquele outro EU que emerge como uma espécie de supervisor, que acaba por ser identificado com a "consciência de si" e consciência do próprio universo.
EU, que objectivo o meu corpo e o meu espírito, revelo-me como um verdadeiro alter-ego a mim próprio.
Anselmo Borges acaba por considerar "transcendência" o fenómeno da auto consciência que a neuro ciência identifica e continua a estudar.
Por mim tudo estará certo, enquanto não se cair na tentação de autonomizar o fenómenos da transcendencia produzido pelo corpo-cérebro, pois tal autonomização encaminhar-nos-ia para o dualismo cartesiano. Afirmações do género "EU (o tal supervisor?) não sou redutível à matéria" são o resvalar irreversível para o dualismo no binómio matéria/transcendencia.
Faz-se de tudo para evidenciar a singularidade humana da criatividade, da simbologia, do pensamento reflexivo, do culto dos mortos e da fé, entre outras "qualidades" únicas, para se inferir uma transcendência inexplicável pela física e pela biologia. Separa-se o homem de todas as leis da física e da biologia que o "construíram" ao longo de uma cadeia evolutiva interminável e ininterrupta da matéria e da vida conhecidas, quando esse homem atinge a *singularidade" da sua mente autocosciente, criativa e discursiva. Num ápice, esquece-se a candeia, o petróleo e o pavio, hiponotizados pelo brilho da chama; e o que antes se afirmava ser um todo indissociável e integrado até á sua essência, considera-se agora uma "realidade-outra".
E eu continuo a dizer que, de facto, é "outra" mas ainda tão "material" como a física e a vida que estão na sua génese. Não será mais verdadeiro, se queremos falar no mistério ou enigma da transcendencia,começar por aceitar o enigma daquilo que designamos por matéria e energia? Porque se há mistério no "efeito" -a transcendencia- esse mistério começa, necessariamente, nas potencialidades contidas nas suas causas.
Quando ficar demonstrado que pode haver efeitos sem causas, e para mim isso significaria demonstrar o não-gerado e o não-criado,(Deus?), então ficarei predisposto a aceitar uma luz que brilha por si mesma.
A obra inicia-se com uma pequena história entre uma mãe e o seu filho, quando ela explica, perante o cadáver da avó da criança, que ali está apenas o corpo e que a alma foi par junto de Deus, acrescentando que o mesmos acontecerá a ambos:o teu corpo ficará na terra e a tua alma vai para junto de Deus. Surpreendentemente, o miúdo pergunta "e eu, para onde vou?".
Daqui o filósofo parte para as suas considerações sobre a transcendencia. Reconhecendo, embora, a unidade corpo-alma no seu "corpo-pessoa" onde sobressai um EU sobre o "eu-corpo" e o "eu-pessoa", será difícil o autor escapar a um certo dualismo implícito quando admite o distanciamento (abertura ao infinito, diz Anselmo Borges)daquele outro EU que emerge como uma espécie de supervisor, que acaba por ser identificado com a "consciência de si" e consciência do próprio universo.
EU, que objectivo o meu corpo e o meu espírito, revelo-me como um verdadeiro alter-ego a mim próprio.
Anselmo Borges acaba por considerar "transcendência" o fenómeno da auto consciência que a neuro ciência identifica e continua a estudar.
Por mim tudo estará certo, enquanto não se cair na tentação de autonomizar o fenómenos da transcendencia produzido pelo corpo-cérebro, pois tal autonomização encaminhar-nos-ia para o dualismo cartesiano. Afirmações do género "EU (o tal supervisor?) não sou redutível à matéria" são o resvalar irreversível para o dualismo no binómio matéria/transcendencia.
Faz-se de tudo para evidenciar a singularidade humana da criatividade, da simbologia, do pensamento reflexivo, do culto dos mortos e da fé, entre outras "qualidades" únicas, para se inferir uma transcendência inexplicável pela física e pela biologia. Separa-se o homem de todas as leis da física e da biologia que o "construíram" ao longo de uma cadeia evolutiva interminável e ininterrupta da matéria e da vida conhecidas, quando esse homem atinge a *singularidade" da sua mente autocosciente, criativa e discursiva. Num ápice, esquece-se a candeia, o petróleo e o pavio, hiponotizados pelo brilho da chama; e o que antes se afirmava ser um todo indissociável e integrado até á sua essência, considera-se agora uma "realidade-outra".
E eu continuo a dizer que, de facto, é "outra" mas ainda tão "material" como a física e a vida que estão na sua génese. Não será mais verdadeiro, se queremos falar no mistério ou enigma da transcendencia,começar por aceitar o enigma daquilo que designamos por matéria e energia? Porque se há mistério no "efeito" -a transcendencia- esse mistério começa, necessariamente, nas potencialidades contidas nas suas causas.
Quando ficar demonstrado que pode haver efeitos sem causas, e para mim isso significaria demonstrar o não-gerado e o não-criado,(Deus?), então ficarei predisposto a aceitar uma luz que brilha por si mesma.
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