"(...)Também penso que a arte não serve para nada. Pelo menos, se pensamos em coisas úteis ou práticas. A sua função não se coloca ao nível funcional, mas cognitivo. A arte serve para explorar a imaginação e a inteligência para além daquilo que é tido como razoável. Serve para fazer as experiências loucas e as combinações impossíveis.
Ora, esse processo é fundamental quando se pensa na tão propalada inovação. O próprio conceito é claro. Inovar é fazer algo que nunca se fez. O que implica muita ousadia não só ao nível do pensamento como no terreno da experimentação. Cada inovação é resultado de milhares de fracassos. Mas são estes que informam os mecanismos de geração do novo. Ou seja, são os erros e os fracassos que criam o campo a partir do qual a inovação pode emergir.
Daí que, por todo o mundo, mesmo as escolas de ciências e engenharias se vão abrindo ao contacto com as práticas artísticas, de modo a entenderem e aproveitarem os seus mecanismos de criatividade, fundamentalmente experimentais, sem objetivo claro e, em suma, inúteis.
Vem isto a propósito das recentes mudanças promovidas por Nuno Crato no nosso ensino secundário. Choca-me em particular que se termine com as aulas de Educação Visual e Tecnológica, já que estas apontavam precisamente para a tão necessária aproximação entre artes e tecnologias. O regresso à velha separação das duas culturas terá como resultado que aqueles que seguirem a via tecnológica não terão conhecimentos no campo do artístico e, por isso, terão menos capacidade de inovação, enquanto os que seguirem para as artes estarão limitados a reproduzir velhas e conservadoras formas de realização da arte alheias do mundo em que vivemos. Quando por toda a parte se promove o encontro, por cá decreta-se o afastamento. É um erro que as gerações futuras pagarão caro.
Tanto mais que, perante a avalanche asiática, à Europa pouco mais resta, como vantagem competitiva, do que a sua cultura de liberdade e rebeldia, assente numa mistura de saberes e práticas que provaram ser o motor de uma constante capacidade de inovação. Apesar da impressionante e muito qualificada produção de cérebros, na Índia e na China, os níveis de inovação ainda são bastante baixos quando comparados com a Europa e os Estados Unidos. E isso deve-se exatamente à qualidade de um ensino que, mais do que produzir reprodutores, promove a singularidade dos criadores.
É por isso lamentável que em Portugal o preconceito ideológico e a visão conservadora de uma escola "à antiga", com as suas disciplinas nucleares (conceito obsoleto), um claro retrocesso ao aluno papagaio e essa reacionária separação entre bons e maus alunos, atirem o nosso ensino e os seus alunos para uma crescente irrelevância. Limitando, desse modo, e muito a sua capacidade de serem fazedores no mundo que aí vem.» [Jornal de Negócios]
Autor:
Leonel Moura.
sábado, 31 de março de 2012
Arte E Inovação
"(...)Também penso que a arte não serve para nada. Pelo menos, se pensamos em coisas úteis ou práticas. A sua função não se coloca ao nível funcional, mas cognitivo. A arte serve para explorar a imaginação e a inteligência para além daquilo que é tido como razoável. Serve para fazer as experiências loucas e as combinações impossíveis.
Ora, esse processo é fundamental quando se pensa na tão propalada inovação. O próprio conceito é claro. Inovar é fazer algo que nunca se fez. O que implica muita ousadia não só ao nível do pensamento como no terreno da experimentação. Cada inovação é resultado de milhares de fracassos. Mas são estes que informam os mecanismos de geração do novo. Ou seja, são os erros e os fracassos que criam o campo a partir do qual a inovação pode emergir.
Daí que, por todo o mundo, mesmo as escolas de ciências e engenharias se vão abrindo ao contacto com as práticas artísticas, de modo a entenderem e aproveitarem os seus mecanismos de criatividade, fundamentalmente experimentais, sem objetivo claro e, em suma, inúteis.
Vem isto a propósito das recentes mudanças promovidas por Nuno Crato no nosso ensino secundário. Choca-me em particular que se termine com as aulas de Educação Visual e Tecnológica, já que estas apontavam precisamente para a tão necessária aproximação entre artes e tecnologias. O regresso à velha separação das duas culturas terá como resultado que aqueles que seguirem a via tecnológica não terão conhecimentos no campo do artístico e, por isso, terão menos capacidade de inovação, enquanto os que seguirem para as artes estarão limitados a reproduzir velhas e conservadoras formas de realização da arte alheias do mundo em que vivemos. Quando por toda a parte se promove o encontro, por cá decreta-se o afastamento. É um erro que as gerações futuras pagarão caro.
Tanto mais que, perante a avalanche asiática, à Europa pouco mais resta, como vantagem competitiva, do que a sua cultura de liberdade e rebeldia, assente numa mistura de saberes e práticas que provaram ser o motor de uma constante capacidade de inovação. Apesar da impressionante e muito qualificada produção de cérebros, na Índia e na China, os níveis de inovação ainda são bastante baixos quando comparados com a Europa e os Estados Unidos. E isso deve-se exatamente à qualidade de um ensino que, mais do que produzir reprodutores, promove a singularidade dos criadores.
É por isso lamentável que em Portugal o preconceito ideológico e a visão conservadora de uma escola "à antiga", com as suas disciplinas nucleares (conceito obsoleto), um claro retrocesso ao aluno papagaio e essa reacionária separação entre bons e maus alunos, atirem o nosso ensino e os seus alunos para uma crescente irrelevância. Limitando, desse modo, e muito a sua capacidade de serem fazedores no mundo que aí vem.» [Jornal de Negócios]
Autor:
Leonel Moura.
Ora, esse processo é fundamental quando se pensa na tão propalada inovação. O próprio conceito é claro. Inovar é fazer algo que nunca se fez. O que implica muita ousadia não só ao nível do pensamento como no terreno da experimentação. Cada inovação é resultado de milhares de fracassos. Mas são estes que informam os mecanismos de geração do novo. Ou seja, são os erros e os fracassos que criam o campo a partir do qual a inovação pode emergir.
Daí que, por todo o mundo, mesmo as escolas de ciências e engenharias se vão abrindo ao contacto com as práticas artísticas, de modo a entenderem e aproveitarem os seus mecanismos de criatividade, fundamentalmente experimentais, sem objetivo claro e, em suma, inúteis.
Vem isto a propósito das recentes mudanças promovidas por Nuno Crato no nosso ensino secundário. Choca-me em particular que se termine com as aulas de Educação Visual e Tecnológica, já que estas apontavam precisamente para a tão necessária aproximação entre artes e tecnologias. O regresso à velha separação das duas culturas terá como resultado que aqueles que seguirem a via tecnológica não terão conhecimentos no campo do artístico e, por isso, terão menos capacidade de inovação, enquanto os que seguirem para as artes estarão limitados a reproduzir velhas e conservadoras formas de realização da arte alheias do mundo em que vivemos. Quando por toda a parte se promove o encontro, por cá decreta-se o afastamento. É um erro que as gerações futuras pagarão caro.
Tanto mais que, perante a avalanche asiática, à Europa pouco mais resta, como vantagem competitiva, do que a sua cultura de liberdade e rebeldia, assente numa mistura de saberes e práticas que provaram ser o motor de uma constante capacidade de inovação. Apesar da impressionante e muito qualificada produção de cérebros, na Índia e na China, os níveis de inovação ainda são bastante baixos quando comparados com a Europa e os Estados Unidos. E isso deve-se exatamente à qualidade de um ensino que, mais do que produzir reprodutores, promove a singularidade dos criadores.
É por isso lamentável que em Portugal o preconceito ideológico e a visão conservadora de uma escola "à antiga", com as suas disciplinas nucleares (conceito obsoleto), um claro retrocesso ao aluno papagaio e essa reacionária separação entre bons e maus alunos, atirem o nosso ensino e os seus alunos para uma crescente irrelevância. Limitando, desse modo, e muito a sua capacidade de serem fazedores no mundo que aí vem.» [Jornal de Negócios]
Autor:
Leonel Moura.
sexta-feira, 16 de março de 2012
A Triplice Dimensão De Mim
Retornando à pequena história do Pe Anselmo que abre a postagem anterior, claramente ela sugere-nos e revela todo o poder intrigante da mente humana que nos "decompõe" numa tríplice realidade: eu-corpo, eu-personalidade e eu-contemplação (ou reflexão). Esta "decomposição" não é mais que uma simulação de um facto pela nossa mente consciente, um "não-facto", pois a decomposição efectiva do conjunto solidário daquela trilogia é a morte. De facto, no acontecimento da morte dissolve-se o eu-corpo, o eu-personalidade e o eu-contemplativo (reflexivo). Ou não será assim?
Alimenta-se a dúvida, desde há milénios. Talvez, mais do que uma dúvida, seja a expressão do inconformismo de quem (o eu-contemplativo) se viu nascer, crescer e tornar-se alguém (personalidade). Como pode, pergunta o eu-contemplativo, "tudo" acabar em "nada"? E o "tudo" é o corpo, a personalidade, o próprio acto de reflectir.
Como nunca tivemos resposta conclusiva, considerando o enigma do universo que somos, pensou-se, sonhou-se ou simplesmente imaginou-se uma solução para preservar a identidade individual: a imortalidade , a ressurreição, a reencarnação.
Numa época pre-cientifica, estas respostas eram suficientes e chegavam a arrebatar a mente humana. Com o advento da era científica persistiu a esperança de escapar à dissolução da pessoa humana, invocando a capacidade misteriosa da mente em contemplar o nascimento, a vida experienciada e a pre-visão da própria morte. Mas acontece que a neuro ciência demonstra cada vez melhor que o processo mental que nos permite recuar a um "antes da vida" e avançar até um "depois da morte", resulta da actividade essencial e indissociável do corpo e da mente, condicionando-se mutuamente. É um enigma por desvendar, a forma como este processo se desenrola "de baixo", "para cima", ou seja, da não-vida para a vida até à contemplação e à reflexão.
Mas por ser enigmático, nada justifica supor a autonomia de um "eu-contemplativo" em relação à sua "humilde" origem.
Estou convencido que, por muitos anos ainda, os homens não consigam viver sem a expectativa da imortalidade do espírito, da ressurreiçâo e da reencarnação. Elas vão continuar a garantir, pela fé, cada uma a seu modo, a preservação bem sucedida da identidade.
Haverá alguma vantagem em colocar em causa estas expectativas felizes, desassossegando as pessoas?
Respondendo de uma forma simples eu diria que não foi menor o desassossego quando a ciência revolucionou o mundo geocêntrico, criacionista e antropocentrico.
Dói, mas passa, acabando sempre por descobrir que amamos tanto a verdade, quanto o sonho e a esperança. De modo que a humanidade, como um todo, vai continuar a sonhar e a procurar a verdade.
E depois, aqueles que consideram como falaciosas as respostas "tradicionais" da pre-ciência, que solução prõem para a preservação da identidade como garante da felicidade?
Em definitivo, nenhuma, na verdade. Digamos que, até hoje, o máximo que podem oferecer é uma maior e mais sadia longevidade, vivida no sonho possível e na esperança possível.
Quem se agarra, até hoje, a uma transcendencia que preserve, de algum modo, a sua identidade, significa que o homem da era científica também não aceita ter o mesmo destino de uma estrela, de uma planta ou de um animal. Apesar disso, e dando mostras de um "homem de pouca fé", no dia a dia investe como sabe e pode para preservar a integridade do seu corpo, da sua personalidade, da sua mente reflexiva.
A mais verdadeira das orações é aquela que todos rezamos nos momentos mais críticos: "enquanto há vida, há esperança". E, naturalmente, estamos a falar da única vida que conhecemos e experienciamos.
Alimenta-se a dúvida, desde há milénios. Talvez, mais do que uma dúvida, seja a expressão do inconformismo de quem (o eu-contemplativo) se viu nascer, crescer e tornar-se alguém (personalidade). Como pode, pergunta o eu-contemplativo, "tudo" acabar em "nada"? E o "tudo" é o corpo, a personalidade, o próprio acto de reflectir.
Como nunca tivemos resposta conclusiva, considerando o enigma do universo que somos, pensou-se, sonhou-se ou simplesmente imaginou-se uma solução para preservar a identidade individual: a imortalidade , a ressurreição, a reencarnação.
Numa época pre-cientifica, estas respostas eram suficientes e chegavam a arrebatar a mente humana. Com o advento da era científica persistiu a esperança de escapar à dissolução da pessoa humana, invocando a capacidade misteriosa da mente em contemplar o nascimento, a vida experienciada e a pre-visão da própria morte. Mas acontece que a neuro ciência demonstra cada vez melhor que o processo mental que nos permite recuar a um "antes da vida" e avançar até um "depois da morte", resulta da actividade essencial e indissociável do corpo e da mente, condicionando-se mutuamente. É um enigma por desvendar, a forma como este processo se desenrola "de baixo", "para cima", ou seja, da não-vida para a vida até à contemplação e à reflexão.
Mas por ser enigmático, nada justifica supor a autonomia de um "eu-contemplativo" em relação à sua "humilde" origem.
Estou convencido que, por muitos anos ainda, os homens não consigam viver sem a expectativa da imortalidade do espírito, da ressurreiçâo e da reencarnação. Elas vão continuar a garantir, pela fé, cada uma a seu modo, a preservação bem sucedida da identidade.
Haverá alguma vantagem em colocar em causa estas expectativas felizes, desassossegando as pessoas?
Respondendo de uma forma simples eu diria que não foi menor o desassossego quando a ciência revolucionou o mundo geocêntrico, criacionista e antropocentrico.
Dói, mas passa, acabando sempre por descobrir que amamos tanto a verdade, quanto o sonho e a esperança. De modo que a humanidade, como um todo, vai continuar a sonhar e a procurar a verdade.
E depois, aqueles que consideram como falaciosas as respostas "tradicionais" da pre-ciência, que solução prõem para a preservação da identidade como garante da felicidade?
Em definitivo, nenhuma, na verdade. Digamos que, até hoje, o máximo que podem oferecer é uma maior e mais sadia longevidade, vivida no sonho possível e na esperança possível.
Quem se agarra, até hoje, a uma transcendencia que preserve, de algum modo, a sua identidade, significa que o homem da era científica também não aceita ter o mesmo destino de uma estrela, de uma planta ou de um animal. Apesar disso, e dando mostras de um "homem de pouca fé", no dia a dia investe como sabe e pode para preservar a integridade do seu corpo, da sua personalidade, da sua mente reflexiva.
A mais verdadeira das orações é aquela que todos rezamos nos momentos mais críticos: "enquanto há vida, há esperança". E, naturalmente, estamos a falar da única vida que conhecemos e experienciamos.
sábado, 10 de março de 2012
A Transcendência (de novo)
Anselmo Borges publicou em 2011 um livro aobre o tema em epígrafe, O CORPO E A TANSCENDENCIA.
A obra inicia-se com uma pequena história entre uma mãe e o seu filho, quando ela explica, perante o cadáver da avó da criança, que ali está apenas o corpo e que a alma foi par junto de Deus, acrescentando que o mesmos acontecerá a ambos:o teu corpo ficará na terra e a tua alma vai para junto de Deus. Surpreendentemente, o miúdo pergunta "e eu, para onde vou?".
Daqui o filósofo parte para as suas considerações sobre a transcendencia. Reconhecendo, embora, a unidade corpo-alma no seu "corpo-pessoa" onde sobressai um EU sobre o "eu-corpo" e o "eu-pessoa", será difícil o autor escapar a um certo dualismo implícito quando admite o distanciamento (abertura ao infinito, diz Anselmo Borges)daquele outro EU que emerge como uma espécie de supervisor, que acaba por ser identificado com a "consciência de si" e consciência do próprio universo.
EU, que objectivo o meu corpo e o meu espírito, revelo-me como um verdadeiro alter-ego a mim próprio.
Anselmo Borges acaba por considerar "transcendência" o fenómeno da auto consciência que a neuro ciência identifica e continua a estudar.
Por mim tudo estará certo, enquanto não se cair na tentação de autonomizar o fenómenos da transcendencia produzido pelo corpo-cérebro, pois tal autonomização encaminhar-nos-ia para o dualismo cartesiano. Afirmações do género "EU (o tal supervisor?) não sou redutível à matéria" são o resvalar irreversível para o dualismo no binómio matéria/transcendencia.
Faz-se de tudo para evidenciar a singularidade humana da criatividade, da simbologia, do pensamento reflexivo, do culto dos mortos e da fé, entre outras "qualidades" únicas, para se inferir uma transcendência inexplicável pela física e pela biologia. Separa-se o homem de todas as leis da física e da biologia que o "construíram" ao longo de uma cadeia evolutiva interminável e ininterrupta da matéria e da vida conhecidas, quando esse homem atinge a *singularidade" da sua mente autocosciente, criativa e discursiva. Num ápice, esquece-se a candeia, o petróleo e o pavio, hiponotizados pelo brilho da chama; e o que antes se afirmava ser um todo indissociável e integrado até á sua essência, considera-se agora uma "realidade-outra".
E eu continuo a dizer que, de facto, é "outra" mas ainda tão "material" como a física e a vida que estão na sua génese. Não será mais verdadeiro, se queremos falar no mistério ou enigma da transcendencia,começar por aceitar o enigma daquilo que designamos por matéria e energia? Porque se há mistério no "efeito" -a transcendencia- esse mistério começa, necessariamente, nas potencialidades contidas nas suas causas.
Quando ficar demonstrado que pode haver efeitos sem causas, e para mim isso significaria demonstrar o não-gerado e o não-criado,(Deus?), então ficarei predisposto a aceitar uma luz que brilha por si mesma.
A obra inicia-se com uma pequena história entre uma mãe e o seu filho, quando ela explica, perante o cadáver da avó da criança, que ali está apenas o corpo e que a alma foi par junto de Deus, acrescentando que o mesmos acontecerá a ambos:o teu corpo ficará na terra e a tua alma vai para junto de Deus. Surpreendentemente, o miúdo pergunta "e eu, para onde vou?".
Daqui o filósofo parte para as suas considerações sobre a transcendencia. Reconhecendo, embora, a unidade corpo-alma no seu "corpo-pessoa" onde sobressai um EU sobre o "eu-corpo" e o "eu-pessoa", será difícil o autor escapar a um certo dualismo implícito quando admite o distanciamento (abertura ao infinito, diz Anselmo Borges)daquele outro EU que emerge como uma espécie de supervisor, que acaba por ser identificado com a "consciência de si" e consciência do próprio universo.
EU, que objectivo o meu corpo e o meu espírito, revelo-me como um verdadeiro alter-ego a mim próprio.
Anselmo Borges acaba por considerar "transcendência" o fenómeno da auto consciência que a neuro ciência identifica e continua a estudar.
Por mim tudo estará certo, enquanto não se cair na tentação de autonomizar o fenómenos da transcendencia produzido pelo corpo-cérebro, pois tal autonomização encaminhar-nos-ia para o dualismo cartesiano. Afirmações do género "EU (o tal supervisor?) não sou redutível à matéria" são o resvalar irreversível para o dualismo no binómio matéria/transcendencia.
Faz-se de tudo para evidenciar a singularidade humana da criatividade, da simbologia, do pensamento reflexivo, do culto dos mortos e da fé, entre outras "qualidades" únicas, para se inferir uma transcendência inexplicável pela física e pela biologia. Separa-se o homem de todas as leis da física e da biologia que o "construíram" ao longo de uma cadeia evolutiva interminável e ininterrupta da matéria e da vida conhecidas, quando esse homem atinge a *singularidade" da sua mente autocosciente, criativa e discursiva. Num ápice, esquece-se a candeia, o petróleo e o pavio, hiponotizados pelo brilho da chama; e o que antes se afirmava ser um todo indissociável e integrado até á sua essência, considera-se agora uma "realidade-outra".
E eu continuo a dizer que, de facto, é "outra" mas ainda tão "material" como a física e a vida que estão na sua génese. Não será mais verdadeiro, se queremos falar no mistério ou enigma da transcendencia,começar por aceitar o enigma daquilo que designamos por matéria e energia? Porque se há mistério no "efeito" -a transcendencia- esse mistério começa, necessariamente, nas potencialidades contidas nas suas causas.
Quando ficar demonstrado que pode haver efeitos sem causas, e para mim isso significaria demonstrar o não-gerado e o não-criado,(Deus?), então ficarei predisposto a aceitar uma luz que brilha por si mesma.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Ideias e Factos
Quando se fala em "aclarar as ideias", não se está a dizer tudo e sequer a falar do essencial. Na verdade, o que é mesmo fundamental é aprofundar os nossos conhecimentos em todas as "direcções" e só então tem lugar o esclarecimento das ideias, à luz dos novos factos. Este esclarecimento é sempre uma confrontação das novas ideias com as anteriores.
Na prática, significa que nós não andamos à procura de ideias novas mas de factos novos. Isto também quer dizer que o nosso conhecimento da realidade só avança, efectivamente, quando descobrimos novos factos. As ideias serão sempre, e sempre foram, interpretação dos factos. O processo nunca é o inverso. Ou seja, a ciência precede a filosofia. Podemos dizer que o primeiro momento da filosofia é a experiência dos sentidos, porque esta experiência nos proporciona a primeira informação.
Quando a filosofia quebra esta sequência do processo cognitivo humano, inventa uma transcendência, digamos, extra-sensorial e, por isso mesmo, extra-cientifica. Os "espiritualistas" dizem que é válido este salto no conhecimento humano e os seus contestatários recusam, liminarmente, dar-lhes razão.
Aqui chegados, está na hora de aclarar as ideias.
No meu entender, esta discussão (aclarar as ideias) faz-se à margem dos factos ou, simplesmente, a partir dos factos conhecidos (ninguém nega a gravitação dos astros e planetas) acerca do enigma persistente e inabarcável da REALIDADE.
Uma nova descoberta científica irá determinar uma nova interpretação da REALIDADE. Apenas "uma nova" interpretação e não a INTERPRETAçÃO.
Na prática, significa que nós não andamos à procura de ideias novas mas de factos novos. Isto também quer dizer que o nosso conhecimento da realidade só avança, efectivamente, quando descobrimos novos factos. As ideias serão sempre, e sempre foram, interpretação dos factos. O processo nunca é o inverso. Ou seja, a ciência precede a filosofia. Podemos dizer que o primeiro momento da filosofia é a experiência dos sentidos, porque esta experiência nos proporciona a primeira informação.
Quando a filosofia quebra esta sequência do processo cognitivo humano, inventa uma transcendência, digamos, extra-sensorial e, por isso mesmo, extra-cientifica. Os "espiritualistas" dizem que é válido este salto no conhecimento humano e os seus contestatários recusam, liminarmente, dar-lhes razão.
Aqui chegados, está na hora de aclarar as ideias.
No meu entender, esta discussão (aclarar as ideias) faz-se à margem dos factos ou, simplesmente, a partir dos factos conhecidos (ninguém nega a gravitação dos astros e planetas) acerca do enigma persistente e inabarcável da REALIDADE.
Uma nova descoberta científica irá determinar uma nova interpretação da REALIDADE. Apenas "uma nova" interpretação e não a INTERPRETAçÃO.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
R. Dawkins versus Antony Flew
O amigo Lima, companheiro na Laje Negra, fez-me chegar um texto assinado por Henrique Raposo, onde põe em confronto aqueles dois epigrafados. Dawkins é um ateu de "pedra e cal" e Flew o ateu convertido a Deus. O primeiro nega Deus a partir da ciência e o segundo afirma Deus a partir da ciência. O H Raposo zurziu ambos impiedosamente, com os argumentos mais gastos que as solas dos sapatos de um peregrino que vai a Fátima a pé. Tenho presente, a esse respeito, a afirmação contundente de André Comte Sponville: "tanto aquele que diz "Deus não existe" como aquele que diz "Deus existe" é um imbecil que toma a fé por um saber".
A generalidade de filósofos e teólogos concorda que Deus não é objecto de saber mas de fé.
Porém eu penso que o problema está mais a jusante, pois trata-se em primeiro lugar de saber se, de facto, Deus pode ser um "objecto" para a fé, não o sendo "à priori" para a ciência. O H Raposo, quanto a isso é taxativo: "Deus e a fé não são temas para o bico da ciência".
E eu pergunto ao H Raposo, quem é que avaliza a verdade de tal afirmação e com que fundamento? Na verdade, se deixarmos, seja o que for, de fora do escrutínio da inteligência e da razão humana, só podemos estar a regredir no processo cognitivo, estacionando no sentimento e nas emoções, onde se inicia todo o processo humano do conhecimento. A fé será, então, circunscrita à emoção e ao sentimento, nunca atingindo a nobreza do acto humano por excelência, que é o pensamento consciente.
Isto quer dizer também, que os "raposos" da intelectualidade fazem tábua rasa dos mais recentes avanços da neuroiência na investigação sobre a génese do conhecimento humano.
Tentar subtrair a objectivação de Deus ao escrutínio da razão é admitir, subrepticiamente, que há uma "fonte oculta" no ser humano, de onde jorra a fé em Deus. Nunca o confessando, professam o dualismo cartesiano no ser humano.
Tudo isto podia não passar de uma discussão académica, pouco se distinguindo da discussão acerca do sexo dos anjos. Podia, mas não pode, porque as consequências práticas da fé em Deus, muito mais do que a negação de Deus, podem ser devastadoras, se deixarmos fora do escrutínio da razão um assunto tão sério como este acerca de Deus e da fé. Deixar Deus e a fé para "bico" da emoção e do sentimento é deixá-los entregues à irracionalidade. A história das religiões é elucidativa.
Foi neste sentido que eu comentei com o Lima, por e-mail, realçando que a fé em Deus determina uma ética que acabará sempre por ser imposta como tendo por fundamento o divino e a fé e, como tal, incontestável. Será também ela uma ética não escrutinável pela razão, baseada, em última análise, no sentimento e na emoção:
"Se ele, o Raposo, quisesse ser coerente ou simplesmente manifestar o seu pensamento, sem medo de ofender a "tradição", acabaria por deixar expressa a afirmação de um universo demasiado vasto e profundo para o génio humano e que, por isso, continuamos a chamar-lhe mistério ou enigma, apesar dos impensáveis avanços das ciências.
Isto não é nem teísmo, nem ateísmo nem agnosticismo: é, tão somente, lucidez.
As consequências de uma tal atitude mental seriam devastadoras para quem defende a "sua ética", como a ética fundamental. A honestidade intelectual perante o enigma que nos envolve recusa a "verdadeira ética", relativizando o que a "fé" considera como valor absoluto.
Num tal cenário, o único referencial absoluto para a ética humana é o próprio enigma do universo e o que dele vamos descobrindo e compreendendo. Quem acha isto "muito curto" é porque ainda não levantou os olhos do chão e se pôs a contar o número de galáxias.
A generalidade de filósofos e teólogos concorda que Deus não é objecto de saber mas de fé.
Porém eu penso que o problema está mais a jusante, pois trata-se em primeiro lugar de saber se, de facto, Deus pode ser um "objecto" para a fé, não o sendo "à priori" para a ciência. O H Raposo, quanto a isso é taxativo: "Deus e a fé não são temas para o bico da ciência".
E eu pergunto ao H Raposo, quem é que avaliza a verdade de tal afirmação e com que fundamento? Na verdade, se deixarmos, seja o que for, de fora do escrutínio da inteligência e da razão humana, só podemos estar a regredir no processo cognitivo, estacionando no sentimento e nas emoções, onde se inicia todo o processo humano do conhecimento. A fé será, então, circunscrita à emoção e ao sentimento, nunca atingindo a nobreza do acto humano por excelência, que é o pensamento consciente.
Isto quer dizer também, que os "raposos" da intelectualidade fazem tábua rasa dos mais recentes avanços da neuroiência na investigação sobre a génese do conhecimento humano.
Tentar subtrair a objectivação de Deus ao escrutínio da razão é admitir, subrepticiamente, que há uma "fonte oculta" no ser humano, de onde jorra a fé em Deus. Nunca o confessando, professam o dualismo cartesiano no ser humano.
Tudo isto podia não passar de uma discussão académica, pouco se distinguindo da discussão acerca do sexo dos anjos. Podia, mas não pode, porque as consequências práticas da fé em Deus, muito mais do que a negação de Deus, podem ser devastadoras, se deixarmos fora do escrutínio da razão um assunto tão sério como este acerca de Deus e da fé. Deixar Deus e a fé para "bico" da emoção e do sentimento é deixá-los entregues à irracionalidade. A história das religiões é elucidativa.
Foi neste sentido que eu comentei com o Lima, por e-mail, realçando que a fé em Deus determina uma ética que acabará sempre por ser imposta como tendo por fundamento o divino e a fé e, como tal, incontestável. Será também ela uma ética não escrutinável pela razão, baseada, em última análise, no sentimento e na emoção:
"Se ele, o Raposo, quisesse ser coerente ou simplesmente manifestar o seu pensamento, sem medo de ofender a "tradição", acabaria por deixar expressa a afirmação de um universo demasiado vasto e profundo para o génio humano e que, por isso, continuamos a chamar-lhe mistério ou enigma, apesar dos impensáveis avanços das ciências.
Isto não é nem teísmo, nem ateísmo nem agnosticismo: é, tão somente, lucidez.
As consequências de uma tal atitude mental seriam devastadoras para quem defende a "sua ética", como a ética fundamental. A honestidade intelectual perante o enigma que nos envolve recusa a "verdadeira ética", relativizando o que a "fé" considera como valor absoluto.
Num tal cenário, o único referencial absoluto para a ética humana é o próprio enigma do universo e o que dele vamos descobrindo e compreendendo. Quem acha isto "muito curto" é porque ainda não levantou os olhos do chão e se pôs a contar o número de galáxias.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Não Há Mistério, Mas há Quem O Pense
O Luís talvez corrija para "não há mistério, nem quem o pense", a lembrar Gautama: "não há caminho nem quem o percorra".
É o princípio de mais um dos meus desencontros com o "Desperto" Gautama. Mas não ganho nada com isso, porque o "sujeito irredutível" que sustenta o pensamento do enigma é tão frágil quanto o "barro" onde se revela. Sabemos que o "sujeito irredutível", o EU que pensa o mistério, só existe mesmo enquanto é o pensamento do mistério. E podemos, por isso mesmo, afirmar com Gautama que a efémera existência do "eu pensante" equivale a "não-existência"? Julgo que não, porque todo o acto é irreversível e o pensamento é acto de quem pensa. Mas aqui chegados é impossível não esbarrar com o dilema que se nos apresenta: o sujeito, absolutamente efémero, é, apesar dessa sua condição, simultâneamente efeito e causa de si mesmo. É efeito porque nasceu da consciência e do acto de pensar e é causa enquanto sujeito que se pensa a si mesmo.
Neste ponto, saltamos a barreira da lógica, onde causa se confunde com efeito e o acto com quem actua, postulando-se, em última análise, ou o acto puro ou a pura subjectividade.
Quem quiser escolha, mas lembre-se que tem apenas o tempo de uma vida breve para o fazer. Com isto quero dizer que no fim do discurso ou no fim da vida (do sujeito pensante) o enigma persiste desafiante como sempre.
É o princípio de mais um dos meus desencontros com o "Desperto" Gautama. Mas não ganho nada com isso, porque o "sujeito irredutível" que sustenta o pensamento do enigma é tão frágil quanto o "barro" onde se revela. Sabemos que o "sujeito irredutível", o EU que pensa o mistério, só existe mesmo enquanto é o pensamento do mistério. E podemos, por isso mesmo, afirmar com Gautama que a efémera existência do "eu pensante" equivale a "não-existência"? Julgo que não, porque todo o acto é irreversível e o pensamento é acto de quem pensa. Mas aqui chegados é impossível não esbarrar com o dilema que se nos apresenta: o sujeito, absolutamente efémero, é, apesar dessa sua condição, simultâneamente efeito e causa de si mesmo. É efeito porque nasceu da consciência e do acto de pensar e é causa enquanto sujeito que se pensa a si mesmo.
Neste ponto, saltamos a barreira da lógica, onde causa se confunde com efeito e o acto com quem actua, postulando-se, em última análise, ou o acto puro ou a pura subjectividade.
Quem quiser escolha, mas lembre-se que tem apenas o tempo de uma vida breve para o fazer. Com isto quero dizer que no fim do discurso ou no fim da vida (do sujeito pensante) o enigma persiste desafiante como sempre.
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