sábado, 15 de outubro de 2011

Pontos de Vista ou Níveis de Análise

Um ponto de vista resulta, necessariamente, de uma análise, nem que seja de uma primeirissima análise, a que vulgarmente chamamos "primeira impressão". Não cavemos, pois, entre ambos um sulco divisório.
Quando dizes que "o ponto de vista sugere uma alternativa", estás muito certo. Acontece é que, quando falamos de realidades tão fundamentais como a nossa própria existência, a vida ou a morte, a alternativa ao "nosso humano ponto de vista" é uma ilusão, uma "jogo de palavras", caindo, como diz Luc Ferry, "pesadamente na metafísica".
Retomando a ideia subjacente ao post anterior, julgar que é verdadeiro um ponto de vista alternativo ao limitado ponto de vista da nossa humana condição, é ter a ilusão que se derruba a muralha onde permanece encerrada a nossa existência.
A lucidez da mente consciente, tanto quando aceita a limitação do seu ponto de vista, que é todo o conhecimento humano acumulado, como quando aceita a realidade inelutável da morte, faz-lhe compreender que tem apenas uma forma de romper o cerco: criar o futuro das suas capacidades, as que já tem e as que vier a desenvolver, consciente de que, se não pode alterar o passado do seu "nascimento" (um certo e incerto desígnio), pode escolher o definitivo que será o seu, tanto como indivíduo como espécie.
Habitualmente chamaríamos a isto "contrariar o destino". Chamar-lhe-ei "contrariar o desígnio".
Apetece-me dizer, de uma forma grandiloquente: nunca o homem esteve tão ciente da sua limitação e da sua liberdade.
Paradoxal? É como somos.

E bastou-lhe, para tanto, a humildade e o realismo de contentar-se com o seu ponto de vista. "Imanente", dirá o filósofo.

A única abertura à trasncendencia é o olhar sobre o futuro por construir. E nunca esquecer que este "olhar sobre o futuro" é, para o individuo, não mais que o horizonte de uma vida. Já para a espécie, até pode ser a eternidade...
Quem quiser fazer drama sobre a sua individualidade tão curta, faça. Arranque os cabelos, esgadanhe-se todo ou fuja para um convento. Fique sabendo, porém, que perdeu a oportunidade de construir um desígnio para si e um desígnio para a sua espécie, limitando-se a ser "a vontade e o desígnio dos deuses"...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Rompendo A Muralha

Se não existe um desígnio, nem para o universo nem para o homem, também pouca diferença faz que exista mesmo um, pois a verdade é que não fomos tidos nem achados para que tudo isto tivesse acontecido. E, como tal, não nos diz respeito e, muito menos, nos responsabiliza.
Mas as coisas ganham outra dimensão se nos descobrimos com a capacidade não de compreender como aqui chegamos mas de intervir e até decidir acerca do nosso futuro, ainda que dentro de limites reconhecidos e aceites em cada momento.
Nesta perspectiva, em vez de estarmos dependentes e atados a um problema epistemológico (insolúvel à partida e, portanto, tão fútil quanto inútil)deparamos com a tarefa exaltante da construção do nosso próprio desígnio. Se aparecemos aqui sem um, como indica o evolucionismo de Darwin, nada impede que, na fase da evolução a que o homem chegou, comece a criar o seu próprio destino.
Já imaginaram como é empolgante e motivadora uma tal postura? Seremos o projecto que estamos a criar, num crescendo de consciencialização e empenhamento.
A filosofia e as ciências deverão, em consequencia, concentrar-se na forma como construir o futuro que se for idealizando e sonhando. Agora, sim, como canta o poeta Gedeão:

O sonho comanda a vida
E sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança...

E a propósito: recordando estes versos de liberdade pelo sonho, compreendem-se mal aqueles outros versos do mesmo Gedeão, carregados de grilhões deterministas.


Ajuda aí Louis, ajuda aí Lima, nesta reactivação do nosso blog, após umas férias, leituras e reflexões.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Conhecimento, Lógica e Indecibilidade

Que sentido faria resumir informações acerca da realidade se o conhecimento, em si mesmo, fosse impossível? Qual a validade de tecer um conjunto de considerações e raciocínios sobre a realidade se a lógica, ela própria, não existisse ou não estivesse ao nosso alcance? Coloca-se, pois, a questão de determinar se o conhecimento (1) e o raciocínio (2) são possíveis e ainda se estão ao alcance da mente humana, em particular (3). Curiosamente, pensando sobre estas questões, surgem de imediato outras questões cuja resolução prévia é necessária: independentemente da resposta a cada uma das questões 1, 2 e 3 ser sim ou não, há-que ter em conta que a validade da nossa análise a estas questões não é independente do seu próprio resultado: esta é uma situação muito particular, pois se a resposta for não a alguma das 3 questões, a nossa capacidade para determinar a resposta correcta a qualquer das 3 questões estará de imediato gravemente comprometida! Além disso, existe também a hipótese bastante razoável de, em geral, o conhecimento e o raciocínio estarem ao alcance da mente humana, mas tais ferramentas pura e simplesmente não se poderem aplicar a todas as questões, podendo haver algumas, pela sua natureza muito particular, que sejam inatingíveis (4). O Teorema da Incompletude de Godel, assim como, na computação, o Problema da Paragem de Alan Turing, evidenciam que nem todas as questões são decidíveis.

Conclusão intuitiva: Com elevada probabilidade, os problemas de determinar se o conhecimento e o raciocínio lógico são ou não possíveis são problemas indecidíveis (ou seja, é impossível decidir qual é a verdade, embora ela possa existir), pela simples razão de requererem, para a sua análise, o mesmo conhecimento e o mesmo raciocínio lógico cuja possibilidade pretendem demonstrar.

A impossibilidade de fundamentar logicamente a validade do nosso próprio raciocínio parece gozar de uma certa lógica... a única atitude coerente, portanto, parece ser esquecer a demonstração e apostar que sim!, que dispomos efectivamente da possibilidade de conhecer, raciocinar e, assumindo essa hipótese como base de trabalho, verificar se graves contradições começam a aparecer, que contradigam a nossa hipótese. Constata-se, afinal, que as aparências, ao invés, a sustentam. Se excluirmos as hipóteses mais paranóicas segundo as quais andamos a ser completamente ludibriados por entidades superiores que têm o propósito firme de nos enganar acerca de tudo o que os nossos sentidos nos indicam (e afins), resulta pouco provável que mentes de raciocínio nulo ou extremamente débil consigam fazer o tipo de previsões que nos são possíveis. Se a mente humana fosse uma estrutura de coerência frágil, as suas construções extremamente complexas provavelmente não resistiriam e enormes brechas já estariam abertas em todos os campos onde é utilizada. Concluindo: lamentavelmente, não podemos demonstrar com todo o infalível rigor matemático que a reposta às questões 1, 2 e 3 é sim. Teremos de nos conformar com uma situação manifestamente insuficiente: uma aposta na intuição, na crença, na fé - ainda que uma fé dramaticamente diversa da fé religiosa - pois que esta se enraíza justamente nas evidências observáveis e não no conhecimento sem fundamento. Continua a ser possível que a resposta seja sim às questões enunciadas, mas a estimação da probabilidade desta hipótese compete a cada um, pelas razões enunciadas acima. Chego, assim, pessoalmente, a mais uma

Conclusão intuitiva: Com elevada probabilidade, o conhecimento e o raciocínio são possíveis e estão ao alcance da mente humana, embora algumas questões possam ser indecidíveis.

No meio de alguma frustração, termino com uma nota de optimismo: se se der efectivamente o caso de a resposta ser sim às questões 1, 2 e 3, e confirmando-se a existência de questões que, não estando ao alcance da mente humana, não sejam, em si mesmas, indecidíveis, existe a hipótese de os humanos produzirem outros processos, ou outras mentes, que resolvam pelo menos algumas das restantes questões cujas soluções não são acessíveis a si próprios.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Fascínio da Verdade

Quanto mais vincamos as nossas posições mais claro fica o nosso diálogo. Mas eu sei, Luís, que havemos de chegar a um ponto em que vamos sentir-nos encostados à parede. A nossa razâo vem sendo confrontada com os seus limites, há milénios. Mas atingir esses limites enobrece o homem. Quando sairmos vencidos podemos dizer "pelo menos tentamos". O que é extraordinário é o facto de não termos a mínima vontade de desitir.
Acho que chegou a hora de unir esforços. Assim, gostava que reflectisses comigo sobre a ideia em que tenho insistido de que a realidade intrínseca da matéria, presente nas estruturas ou formas que o observador cria, forma com estas mesmas criações da mente um todo indissociável. Porque a mente espartilha uma realidade que é, como dizes, contínua e eu aceito este facto sem discussão. Mas esse pedaço arrancado ao contínuo da realidade - a forma ou estrutura- traz agarrada a propriedade matricial da "continuidade". Afirmo eu.
Se ambos aceitarmos isto, para onde se encaminhará, a seguir, o nosso pensamento?
Pergunto, porque eu não estou satisfeito com o que tenho em mãos.
Meditando sobre isto, tendo presente aquela ideia da "forma e fundo" de Gedeão (mais próximo que Aristóteles) vejo uma forma que chegou e se desfez, mas deixou um ensinamento, precisamente o "fundo" que permitiu a ciência humana. Como se a "forma" fosse o veículo necessário e temporário da realidade perene, esquiva e sedutora.

Por isso não temos vontade de parar.

domingo, 24 de julho de 2011

Raiz Do Medo( E Do Sofrimento) II

O homem não teme apenas a desintegração da vida. Teme, talvez ainda mais, a desintegração do "eu".
"Ai de mim!", "que vai ser de mim?" são a expressão lancinante de quem antevê a desintegração do corpo e da alma. São gritos de um verdadeiro medo "metafísico" que emergiu no dealbar da mente consciente. Mas as raízes do medo afundam até à primitiva luta pela preservação da estrutura da vida. Os tijolos da vida foram sendo montados em estruturas de complexidade crescente, até atingir o nível de uma central cerebral, ainda cheia de mistérios, como é a nossa mente consciente.
Que esta extraordinária dinâmica fracassasse, foi sempre o grande medo dos indivíduos vivos. Que "eu" me dissolva irremediavelmente, pode ser sentido e percebido como uma tragédia. Neste sentido, o advento da auto consciência humana não anula o medo ancestral de fracassar na simples preservação da vida da espécie. Antes lhe confere uma novíssima dimensão. Porque a consciência humana gerou uma "personalidade", um "eu" íntimo, absolutamente único, e por este “eu” o homem se dispôs a fazer tudo o que fosse preciso para preservar.
Fazendo a ligação ao tema do budismo, diríamos que o homem segue o percurso inverso à proposta budista que é o completo desapego de um qualquer “eu”, como forma de superar o sofrimento. E o desapego ao próprio desapego é o patamar mais elevado, o nirvana. (Se é que entendi alguma coisa do budismo).

Por entre ilusões e desilusões, enganos e desenganos ou victorias e fracassos assumidos, o homem construiu esta história que é a sua. Tem tanto de heróico como de absurdo construir um presente que pode não ter futuro. Chego a pensar que a mente consciente cede ao impulso ancestral da pura conservação da espécie, imolando, no altar da ousadia e do heroísmo, um "eu" consciente que se reconhece único e insubstituivel. É ainda o instinto ancestral do progenitor que dá vida pela sua cria, o garante do futuro dos seus genes. Da sua espécie.
A consciência torna dramático aquilo que há milhões de anos é tão natural. Determinista, quase mecânico.
Esta constatação faz-nos concluir que, sem auto consciência, não existem o medo e o sofrimento humanos.
A autoconsciência gerou o "eu", que sonhou com a fé na eternidade e a expectativa de erradicar o sofrimento.

sábado, 23 de julho de 2011

A Raíz do Medo (E Do Sofrimento) I

"No nível máximo de rigor, nem a cor magenta, nem a flor, nem a vaca, nem tu nem eu existimos". (Citação do último parágrafo do Luís, do seu último comentário ao post anterior).

Num nível máximo de rigor, as coisas não podem ser vista com essa simplicidade. Colocas-te, Luís, na linha do existencialismo, segundo o qual nós somos pura existência, puro devir, como um fogo-de-artifício tão belo (se for bem sucedido) quão fugaz. Dramatizar esta volatidade da existência humana até à afirmação pura e simples da sua "não-existência", parece-me um exagero e uma "leitura" exclusivamente antropocêntrica da realidade. Ora nós adquirimos, pela auto consciência, a capacidade de nos "distanciarmos" da realidade e de nós mesmos, como que olhando "de fora" e poder, ainda, fazer a avaliação desse mesmo "olhar". Mas esta capacidade, e aqui é que entra a tua razão, não anula o "fogo-de-artifício", que de facto somos.
Podemos e devemos, para se rigorosos, estabelecer a diferença entre um "nada-de-ser" e "ser-por-um-instante".
O que me parece é que o budismo pretende anular o próprio instante da vida.
E se eu, ao afirmar tudo isto, ainda estou a ser antropocêntrico (porque nunca posso desprender-me do que sou), também Buda, ao negar a existência, está a afirmar a vida, por um instante que seja.
Ocorre-me trazer aqui uma passagem do livro "Cosmos" de Carl Sagan, em que ele escreve: "Os segredos da evolução são a morte e o tempo(...) Parte da resistência a Darwin e a Wallace deve-se à nossa dificuldade em imaginar a passagem dos milénios (...) O que significam 70 milhões de anos para seres que vivem um milionésimo desse tempo? Nós somos quais borboletas que esvoaçam um dia e pensam que é para sempre".

O pensamento da eternidade pode ser uma ilusão, mas ser por um dia borboleta é bem capaz de ser a realidade…

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fechar o Circulo

"Estás a precisar de ler uns koans para "ires ao sítio"... :-D"

Se não te conhecesse bem, Luis, depois desta longa conversa sobre o budismo, iria interpretar este teu conselho como a atitude zelosa de um crente cristão a recomendar-me a leitura dos versículos da sua bíblia, para eu reencontrar os caminhos da fé.
Nesta altura da nossa longa conversa convém fazermos um ponto da situação e pensar no que vamos dizer e fazer a seguir.
A mim apetece-me dizer que Siddharta Gautama terá chegado a "buda" , o ideal que se propôs para a sua vida, e depois morreu, por volta dos oitenta anos, numa data que os historiadores não conseguem determinar, mas terá sido entre o ano 500 e 300 antes da era cristã.
Resumindo: nasceu, viveu de acordo com o pensamento que foi elaborando e morreu como qualquer humano de ontem e de hoje.
Eu tenho um prazer genuíno em conhecer os factos da história, mesmo aqueles que foram terríveis e potencialmente desmoralizadores. Como se estivesse a ver um filme de amor ou de terror. A alegria consiste em conhecer a verdade dos factos. E nós vivemos num tempo em que os avanços científicos nos permitem "escavar" essa verdade como nunca antes fora possível.
A esta luz nova ou perspectiva nova sobre a vida e sobre o universo, onde se percebe claramente o encadeamento dos factos e a razão de tais desenvolvimentos, também adquirimos a consciência aguda de quão parciais são ainda as nossas "conquistas". E é esta consciência que nos torna tão diferentes dos nossos ancestrais, que vamos relendo e amando nas páginas magníficas da história que eles escreveram. A história das suas vidas.
Constatamos que, sistematicamente, eles fecharam o círculo do seu pensamento e do seu sonho, convencidos de que haviam encontrado a "teoria final" ou, como gostam de dizer os físicos teóricos no seu campo de pesquisa, a "Teoria de Tudo".
E assim nos legaram os seus "evangelhos" e as instruçóes precisas para os concretizar.
O historiador das religiões que eu tenho seguido nesta abordagem ao budismo, o já referido Karl- Heinz Ohlig, resume-o desta forma: "O budismo também adoptou a lei do "karma", o "samsara", o objectivo soteriológico da auto-anulação e o caminho auto-salvífico da não-ligação à realidade plural. A salvação baseia-se no reconhecimento, tal como nos "Upanishades", e a ignorância tem de ser superada".

Esta é a história, o sonho de felicidade e o pensamento concretizador do budismo, que terá sido do buda Gautama. Ou, mais precisamente, de Gautama, o Buda. Tal como veio a dizer-se, no cristianismo, Jesus, o Cristo. Num caso e noutro são títulos honoríficos que os identificam com a doutrina-pensamento que lhes é atribuída, uma vez que nem um nem outro escreveram o que pensaram e ensinaram.
O historiador não detém o seu olhasr e o seu afecto sobre uma história em particular, mas sobre todas e cada uma, como peças de uma História incrivelmente mais abrangente. E esta "abrangência" possivel é a nossa novíssima conquista.
Quando, fascinados pela beleza das histórias e realizações dos nossos avós, nos prendemos ao passado tão afectivamente que os queremos imitar em total fidelidade, acabamos por assumir um comportamento anacrónico e desfasado da realidade. Justamente merecedor de crítica.
Imagina, Luis, Siza Vieira rendido à beleza arquitectónica do mosteiro da Batalha ou dos Jerónimos, e consagrar a sua vida a um projecto tal e qual.
Pensa na perda enorme para a humanidade, se os gigantes da ciência que nos carregam aos ombros, se tivessem conformado às “teorias perfeitas” dos que os precederam.
Há uma lição que deve ser retirada do budismo: o reconhecimento em profundidade da nossa situação desgraçada e a superação do sofrimento que dela decorre, não se resolve com um movimento até ao íntimo da nossa mente ou à realidade intrínseca das coisas (seja l’a o que isso for).
Porque hoje sabemos que qualquer “viagem” é apenas mais uma etapa de um longo, longo percurso.
A um novo paradigma, um novo pensamento.
“Teoria Final”? “Teoria de Tudo”? Nem na física, quanto mais na metafísica…