quinta-feira, 28 de abril de 2011

O Primado da Incerteza

Não tenho em mente a física de Heisenberg, mas algo tão perto de mim e de todos, que está mesmo dentro de cada um, fazendo de nós o que somos.
Pus-me a imaginar como seria, se todas as horas seguintes e os dias e os anos estivessem programados "ao milímetro", em resultado de uma planificação soberba e indefectível e estivesse assegurada, previamente, a sua execução também sem falhas. Imagine-se, ainda, que sou possuidor de uma clarividência total sobre as horas e dias e anos futuros de um tal desígnio. Concluiria que estava dotado do dom da certeza e da infalibilidade efectiva. E também concluiria por uma vida assim inútil, onde tudo já estaria certinho e feito.
Porém, esta não é a nossa condição e realidade.
A vida desenrola-se sob o primado da incerteza e a nossa victoria e a alegria de viver são também sofrimento e incerteza persistentes.
Postas as coisas nesta perspectiva, não se vislumbra como o conhecimento perfeito possa proporcionar a alegria da perfeita liberdade e realização. Bem pelo contrário, constata-se que são a incerteza e o desconhecimento do futuro o alimento fecundo dos sonhos da humanidade e a raiz da liberdade e da felicidade possíveis. Estou a lembrar-me da citação que Einstein faz de Lessing , de que "a busca da verdade é mais preciosa que a sua posse". Não será, com certeza, o elogio da ignorância mas a afirmação da nossa verdadeira condição.
Confrontando este pensamento com as propostas das religiões, ocorre dizer que, no limite, o primado da incerteza nos torna mais humanos que as certezas dos dogmas da fé religiosa.
Mas nada impede que o crente percorra o calvário da sua natural condição. Basta que aceite que não pode antecipar o futuro e comece por incluir a sua fé no próprio sonho da humanidade. Mais do que isto seria negar o primado da incerteza e, com isso, negar a real condição humana.
Não estou a dizer novidade nenhuma. Os cristãos, mesmo os “santos”, "partem" sob o primado da incerteza. Alguns, corajosamente, como Teresa deCalcutá, chegam a confessar o verdadeiro estado do seu espírito.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Fatal Dependencia

Quem seguiu aqui neste blog o debate que ensaiei com o Luís acerca do livre arbítrio e da fatalidade que nos atinge, desde o nascimento até à morte, ao ler este título começa a pensar que estou a dar a volta ao texto. Literalmente. E daí talvez não porque normalmente procuro, quando sou capaz, descer à raiz de um pensamento. Outras tantas vezes, encostado às cordas, atiro com generalidades tão grandes que cabe lá tudo e o seu contrário. É o meu momento glorioso de tarólogo e intérprete dos signos do zodíaco…
Independentemente das descobertas extraordinárias de António Damásio e seus pares da neurociência, sempre me descobri dependente das poderosas raízes do meu corpo. Desde muito pequeno me perdi em monólogos intermináveis, onde confrontava os meus sonhos de menino, de jovem e de homem maduro, com as limitações impostas por este corpo que me sustenta e que me possibilita dizer "eu", conscientemente. "EU" comparo-me a uma pomba (não seria melhor dizer melro?) presa nas mãos de quem a cuida e à espera de que este a solte, para poder voar, imaginando que ganhou a liberdade num espaço a perder de vista e de todas as direcções.
É tão real o sentimento que empolga, inebria e "convence" a razão! Mas Damásio, desmancha-prazeres, vem dizer que a emoção e o sentimento se fizeram pensamento. E que não vale este pensamento final sem considerar a emoção de quando levantamos voo.
E a verdade é que vou ter de voltar ao pombal para me alimentar e ganhar forças para um novo voo e com a certeza de que não dá para contornar a dependência.
Apetecia dizer que a liberdade sentida e pensada deste jeito é uma intermitência na vida de cada um. E acrescentar, depois, que é genuína enquanto sentimento e se converte em fatalidade quando pensamento.
Acredito que alguém, muito cioso da sua inteira liberdade, acabe por desejar não ser mais que pomba ou melro.
Por mim, vou continuar a disfrutar aquela surpreendente intermitência da vida, mesmo sabendo que este corpo que sou tem de regressar, dia após dia, ao pombal onde nasceu.
Sei, de antemão, que um dia já não conseguirei partir ou não poderei regressar. Fatalmente?
Sei lá! Inventa-se e descobre-se tanta coisa…

segunda-feira, 25 de abril de 2011

ABRIL

Abril, sempre?
Isso é que era bom!
Também há Agosto escaldante
Outubro macilento
E Fevereiro tormentoso.
É a vida, pá...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Da Polis

Esta noticia preocupa-me, vinda de quem vem.

As reuniões de Primavera do Banco Mundial e do FMI terminaram ontem em Washington com um alerta de que o planeta pode estar à beira de uma grande crise.

Segundo Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, a economia global está a "apenas um choque de uma crise completa", que poderá ser despoletada pelo aumento dos preços dos alimentos, que são "a principal ameaça às nações mais pobres".

Este responsável também manifestou o seu apoio à decisão dos ministros das Finanças do G20 na sexta-feira de dar apoio financeiro aos novos governos no Norte de África. "Se esperarmos que a situação estabilize, vamos perder oportunidades. Em termos revolucionários, lutar pelo ‘status quo' não é uma boa opção". Na mesma ocasião, o director-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse estar particularmente preocupado com os elevados níveis de desemprego entre os jovens. "Esta é certamente uma retoma onde não são criados empregos suficientes", afirmou. Para o líder do FMI, para a juventude "existe um risco de que o desemprego se transforme numa sentença perpétua, havendo a possibilidade real de uma geração perdida".

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Da Polis

Cheguei a pensar que tinha exagerado quando afirmei aqui na Laje Negra, que Portugal ficara à beira da tragédia quando o PEC IV caiu e com ele o governo da nação. Ao ler isto, receio bem que para aí caminhemos:

"Quem sustenta esta posição é Robert Fishman, professor na Universidade de Notre Dame, num artigo hoje publicado no jornal The New York Times (com o título Portugal’s Unnecessary Bailout). Eis algumas passagens do artigo, numa tradução do Jornal de Negócios:
‘Apesar de as dificuldades de Portugal se assemelharem às da Grécia e da Irlanda, uma vez que os três países aderiram ao euro, cedendo assim o controlo da sua política monetária, o certo é que “na Grécia e na Irlanda, o veredicto dos mercados reflectiu profundos problemas económicos, facilmente identificáveis”, diz Fishman, realçando que “a crise em Portugal é completamente diferente”.

Em Portugal, defende o académico, “não houve uma genuína crise subjacente. As instituições económicas e as políticas em Portugal, que alguns analistas financeiros encaram como irremediavelmente deficientes, tinham alcançado êxitos notáveis antes de esta nação ibérica, com uma população de 10 milhões de pessoas, ser sujeita a sucessivas vagas de ataques por parte dos operadores dos mercados de obrigações”.

“O contágio de mercado e os cortes de ‘rating’ , que começaram quando a magnitude das dificuldades da Grécia veio à superfície em inícios de 2010, transformou-se numa profecia que se cumpriu por si própria: ao elevarem os custos de financiamento de Portugal para níveis insustentáveis, as agências de ‘rating’ obrigaram o País a pedir ajuda externa. O resgate confere poderes, àqueles que vão “salvar” Portugal, para avançarem com medidas de austeridade impopulares”, opina Robert Fishman.

“A crise não resulta da actuação de Portugal. A sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de outros países, como a Itália, que não foram sujeitos a avaliações [de ‘rating’] tão devastadoras. O seu défice orçamental é inferior ao de vários outros países europeus e tem estado a diminuir rapidamente, na sequência dos esforços governamentais nesse sentido”, refere o professor, que fala ainda sobre o facto de Portugal ter registado, no primeiro trimestre de 2010, uma das melhores taxas de retoma económica da UE.

Em inúmeros indicadores – como as encomendas à indústria, inovação empresarial, taxa de sucesso da escolaridade secundária e crescimento das exportações -, Portugal igualou ou superou os seus vizinhos do Sul e mesmo do Ocidente da Europa, destaca o sociólogo.’
Parecendo estar a rebater os argumentos da direita doméstica, acrescenta Robert Fishman:
“Os cépticos em torno da saúde económica de Portugal salientam a sua relativa estagnação entre 2000 e 2006. Ainda assim, no início da crise financeira mundial, em 2007, a economia estava de novo a crescer e o desemprego a cair. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento retomou no segundo trimestre de 2009”.
Perante este quadro, Robert Fishman conclui:
“não há que culpar a política interna de Portugal. O primeiro-ministro José Sócrates e o PS tomaram iniciativas no sentido de reduzir o défice, ao mesmo tempo que promoveram a competitividade e mantiveram a despesa social; a oposição insistiu que podia fazer melhor e obrigou à demissão de Sócrates, criando condições para a realização de eleições em Junho. Mas isto é política normal, não um sinal de confusão ou de incompetência, como alguns críticos de Portugal têm referido”.
(No jornal o Sol, desta data).
Para nos deprimir ainda mais, o mesmo jornal dá-nos a noticia de que o ex-Patrâo do BPN e ex-governante de Cavaco Silva, vendeu, a perder 275.000 euros, acções da SLN ao mesmo Cavaco Silva e à filha deste. Infelizmente, não são fofocas de jornais nem "jogadas sujas" de uma campanha eleitoral, mas reprodução de testemunhos em tribunal, onde decorre o julgamento de como se chegou ao "buraco BPN". Vai-se conhecendo como Oliveira e Costa, patrão do BPN, cavou o buraco e quem dele tirou proveito, voluntária ou involuntariamente. E agora nós pagamos com défice das contas públicas e somos castigados impiedosamente, por estas e por outras, pelas empresas dos ratos. Queria dizer de Rating.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A Herança

A propósito da "herança" que vamos deixar para os filhos e netos, referida pelo Lima na caixa de comentários ao post anterior, preocupa-me particularmente um planeta degradado. Custa-me, aqui em Balugães, ver o "meu" rio Neiva quase um deserto de vida, onde em criança via grandes cardumes de "barbos", nos sítios de águas mais profundas. Os mesmos fertilizantes e desinfestantes que permitem boas colheitas, também matam a fauna e a flora dos rios ou poluem as águas das fontes.
A ciência proporciona um progresso tão atabalhoado quanto o dinheiro da UE (CEE )proporcionou um crescimento descontrolado da nossa economia.
Habituei-me a ver crescer estradas e auto-estradas, recuperações fabulosas de muitos "solares" e casas antigas, de centros históricos. As vilas e cidades ganharam uma cara nova, ressurgindo de paredes velhas e telhados rotos. Abriram-se valas para saneamento de imensas aldeias e a Tv por cabo ou por satélite chegou a todo o lado. As universidades debitam constantemente licenciados e doutores, a informatização acelerou nas empresas, primeiro; no Estado, finalmente.
Vamos deixar aos filhos um país que seria irreconhecível para os nossos pais e avós.
Foi tudo muito depressa? Foi demais? Estragamos o ambiente? Mimamos demasiado os filhos? Endividamo-nos?
Fizemos tudo isso, com certeza. E não fomos capazes de fazer melhor.
Fiz disparates na minha vida, mas não me culpo por isso, porque tenho consciência que fiz como podia e como sabia. Se faria tudo do mesmo jeito? Nem pensar. Só que não se vive duas vezes e a pedra, uma vez arremessada, segue, inevitavelmente, a sua trajectória sem retorno. Resta-nos o lenitivo de saber que podemos fazer diferente, porque agora sabemos e podemos o que antes não soubemos e nem pudemos.

O Conhecimento da Polis (4)

Uma década perdida, disse ele (o presidente Cavaco)...


Investigação científica portuguesa triplica em 9 anos
A página SCImago tem uma enorme base de dados sobre a investigação científica em todo o mundo e todas as áreas, que descobri através do Público.
Nela podemos ver o número de artigos científicos publicados por instituições portuguesas. Este número triplica dos 3655 em 1999 para os 10837 em 2008!
Obviamente que não foi só em Portugal que houve um aumento de produção científica, mas Portugal cresceu mais rápido. De 2007 para 2008 cresce 19%, enquanto a Europa Ocidental cresce apenas 3%, e o mundo 2%. Enquanto em 1996 Portugal era responsável por apenas de 0,76% da ciência na Europa, em 2008 este número já foi de 2%! Comparando com o mundo inteiro, a mesma conclusão: Portugal duplicou a sua importância a nível mundial em 10 anos.

E agora vozes que não chegaram a Belém do Presidente Cavaco...

Nuno Ferrand de Almeida Investigador Universidade do Porto na área da biodiversidade

Em Portugal, temos a sensação que não sabemos o que nos pode acontecer no dia de amanhã. Há um discurso dominante profundamente derrotista...
Tremendo. Nas elites portuguesas instalou-se um pessimismo tremendo...

Como é que um cientista olha para tudo isto?
Sou optimista por natureza. Ainda sou relativamente novo, mas sei exactamente o que era Portugal há 25 anos, quando entrei para a Universidade do Porto, e o que se fez desde aí. Tinha 11 anos no 25 de Abril, mas sei como era Portugal antes disso. Estávamos fora do mundo.
Assistir em menos de 25 anos à transformação que se viveu em Portugal é um privilégio absolutamente extraordinário. Há 20 anos, eu nunca imaginaria que poderia ter um centro que faz investigação no mundo inteiro e que não fica nada atrás dos melhores centros do mundo e estou a falar de Berkeley, Cambridge ou Oxford. E ainda menos imaginaria - falo pela minha experiência, mas isso é visível em muitos outros centros de investigação em Portugal - que seríamos capazes de atrair tantos estrangeiros. Quase 50 por cento dos 1200 investigadores contratados nos últimos dois anos pelo Programa Ciência são estrangeiros e isto diz alguma coisa.

Nem nos apercebemos disso.
Mas isso é fundamental. O caminho tem de passar pela aposta na ciência e isso tem sido feito de uma forma notável. Nos últimos dez, 15 anos conseguimos chegar ao topo dos países que mais têm investido na ciência...

Mas partimos de uma posição muito recuada.
É verdade, não havia nada, ou havia pouco. Mas quando se fala hoje em 5 ou 6 mil artigos científicos publicados e reconhecidos internacionalmente [por ano], isso representa um avanço extraordinário. É quase um milagre. O número de doutorados... E disso as pessoas falam pouco e é preciso que falem muito mais. É preciso falar muito mais das pessoas que trazem conhecimento para cá e que produzem conhecimento cá.
É por isso que me choca muito o pessimismo constante das elites portuguesas. E isso tem reflexo sobre as pessoas. Esse pessimismo cola-se-nos à pele.

Como é que o explica? Mede-se tudo pelo défice?
Em parte é isso. Não sei. Mas não sei porque nunca se olha para o outro país que existe. Existem dois países. Todos os países têm dois países, mesmo que em Portugal essa diferença seja mais acentuada. Mas há 25 anos não tínhamos dois, tínhamos um, que era mau. Hoje temos um país que se distingue nas ciências, nas artes, na literatura, no desporto.

Mas há aquela sensação de que, quando estamos quase a conseguir o nosso objectivo de sermos "europeus", qualquer coisa nos impede. Historicamente, parece que nunca conseguimos percorrer a última milha. Acha que é isso que desmoraliza as pessoas?
Percebo isso. Mas a mim não me desanima. E digo-lhe já porquê: nunca achei que isso fosse possível numa geração. É preciso mais tempo. Estamos a falar de países como a Inglaterra, a França, a Alemanha, que têm uma tradição de mais de 100 anos de investigação e de produção de conhecimento, de reflexão, que nós não tínhamos. Vivíamos completamente marginalizados dessa Europa. Há 30 anos não havia um paper.
Penso que as nossas elites estão um bocadinho gastas na maneira como olham para o lado antigo do que foi Portugal, quando temos ao lado um país a desenvolver-se muitíssimo e a mostrar que é perfeitamente capaz de ombrear com os mais desenvolvidos. Claro que ainda temos o resto, que ainda pesa. E que alimenta essa espécie de frustração que se transmite nesse discurso e que é má, porque leva facilmente as pessoas a desanimarem, a acomodarem-se... Penso que é a nossa obrigação, e também da comunicação social, dar conta desse outro país. Não quero com isso desculpar algumas lideranças...

Justamente, temos hoje muito mais gente educada, universidades muito melhores, uma massa crítica que deveria ser mais exigente. Como é que se explica, então, a fragilidade das lideranças políticas?
Há aí uma contradição para a qual não tenho resposta. Há uma espécie de alheamento em relação ao serviço público e há uma espécie de dissociação progressiva em relação aos partidos e às pessoas que nos governam, que me assusta um pouco... Não sei responder a essa pergunta, só sei que ela faz parte das interrogações que muitos de nós colocamos.

Mas não há também uma responsabilidade das pessoas? Talvez que o país mereça uma coisa melhor e não se esteja a esforçar-se o suficiente para a ter?
Talvez. São contradições e desequilíbrios que julgo que resultam de transformações muito aceleradas do tecido social português. Este pode ser um momento em que isso seja muito visível.