segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fechar o Circulo

"Estás a precisar de ler uns koans para "ires ao sítio"... :-D"

Se não te conhecesse bem, Luis, depois desta longa conversa sobre o budismo, iria interpretar este teu conselho como a atitude zelosa de um crente cristão a recomendar-me a leitura dos versículos da sua bíblia, para eu reencontrar os caminhos da fé.
Nesta altura da nossa longa conversa convém fazermos um ponto da situação e pensar no que vamos dizer e fazer a seguir.
A mim apetece-me dizer que Siddharta Gautama terá chegado a "buda" , o ideal que se propôs para a sua vida, e depois morreu, por volta dos oitenta anos, numa data que os historiadores não conseguem determinar, mas terá sido entre o ano 500 e 300 antes da era cristã.
Resumindo: nasceu, viveu de acordo com o pensamento que foi elaborando e morreu como qualquer humano de ontem e de hoje.
Eu tenho um prazer genuíno em conhecer os factos da história, mesmo aqueles que foram terríveis e potencialmente desmoralizadores. Como se estivesse a ver um filme de amor ou de terror. A alegria consiste em conhecer a verdade dos factos. E nós vivemos num tempo em que os avanços científicos nos permitem "escavar" essa verdade como nunca antes fora possível.
A esta luz nova ou perspectiva nova sobre a vida e sobre o universo, onde se percebe claramente o encadeamento dos factos e a razão de tais desenvolvimentos, também adquirimos a consciência aguda de quão parciais são ainda as nossas "conquistas". E é esta consciência que nos torna tão diferentes dos nossos ancestrais, que vamos relendo e amando nas páginas magníficas da história que eles escreveram. A história das suas vidas.
Constatamos que, sistematicamente, eles fecharam o círculo do seu pensamento e do seu sonho, convencidos de que haviam encontrado a "teoria final" ou, como gostam de dizer os físicos teóricos no seu campo de pesquisa, a "Teoria de Tudo".
E assim nos legaram os seus "evangelhos" e as instruçóes precisas para os concretizar.
O historiador das religiões que eu tenho seguido nesta abordagem ao budismo, o já referido Karl- Heinz Ohlig, resume-o desta forma: "O budismo também adoptou a lei do "karma", o "samsara", o objectivo soteriológico da auto-anulação e o caminho auto-salvífico da não-ligação à realidade plural. A salvação baseia-se no reconhecimento, tal como nos "Upanishades", e a ignorância tem de ser superada".

Esta é a história, o sonho de felicidade e o pensamento concretizador do budismo, que terá sido do buda Gautama. Ou, mais precisamente, de Gautama, o Buda. Tal como veio a dizer-se, no cristianismo, Jesus, o Cristo. Num caso e noutro são títulos honoríficos que os identificam com a doutrina-pensamento que lhes é atribuída, uma vez que nem um nem outro escreveram o que pensaram e ensinaram.
O historiador não detém o seu olhasr e o seu afecto sobre uma história em particular, mas sobre todas e cada uma, como peças de uma História incrivelmente mais abrangente. E esta "abrangência" possivel é a nossa novíssima conquista.
Quando, fascinados pela beleza das histórias e realizações dos nossos avós, nos prendemos ao passado tão afectivamente que os queremos imitar em total fidelidade, acabamos por assumir um comportamento anacrónico e desfasado da realidade. Justamente merecedor de crítica.
Imagina, Luis, Siza Vieira rendido à beleza arquitectónica do mosteiro da Batalha ou dos Jerónimos, e consagrar a sua vida a um projecto tal e qual.
Pensa na perda enorme para a humanidade, se os gigantes da ciência que nos carregam aos ombros, se tivessem conformado às “teorias perfeitas” dos que os precederam.
Há uma lição que deve ser retirada do budismo: o reconhecimento em profundidade da nossa situação desgraçada e a superação do sofrimento que dela decorre, não se resolve com um movimento até ao íntimo da nossa mente ou à realidade intrínseca das coisas (seja l’a o que isso for).
Porque hoje sabemos que qualquer “viagem” é apenas mais uma etapa de um longo, longo percurso.
A um novo paradigma, um novo pensamento.
“Teoria Final”? “Teoria de Tudo”? Nem na física, quanto mais na metafísica…

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A Raiz Do Mal

Não leiam a palavra «mal» no sentido moralista. Aliás, eu fujo do moralismo como o diabo da cruz, porque o moralismo é um mar de equívocos e os moralistas medram à sombra da própria ignorância ou da ignorância alheia, quando não se aproveitam mesmo, oportunisticamente, daqueles que nunca tiveram a sorte de uma escola. A propósito, contava-me, há dias, a minha filha mais nova uma conversa que tivera em Londres com uma vegetariana compulsiva, por força da religião que professava. Tratava-se de uma caso em que o “mal” moralista era de carácter religioso e colava-se ao consumo de alimentos. A minha filha explicou à sua “piedosa” interlocutora que o “mal” não está naquilo que comemos e que, por exemplo, o mosquito da malária, quando pica uma pessoa, não faz uma maldade capaz de matar. A inocente criatura está simplesmente a lutar pela sobrevivência “como nós as duas quando vamos ao trabalho”. Ora acontece que o mosquito se alimenta de sangue e não de frutas…
E sem culpa nenhuma!!!
O erro fundamental dos moralistas é pensarem que nós somos um espírito que incarnou e não a materialidade animal que evolui para a espiritualidade.
Esta capacidade de evolução é real, mas exercemo-la sem nunca nos desligarmos da matriz animal. Daí a nossa frustração perante a paradoxal realidade humana: comportamentos “animalescos” à mistura com as nobres realizações do conhecimento, da beleza, do amor e ânsias de eternidade.
Hoje li a crónica habitual do Manuel António Pina no JN, onde ele aponta o dedo ao verdadeiro tsunami da “maldade humana” que nos submerge. É a pura realidade. Mas eu já estou cansado dos diagnósticos da doença e acabei, frustrado, a leitura desta crónica, igual a milhentas outras que se limitam a sinalizar a desgraça.
Foram séculos ou milénios de pregação contra a maldade, chegando-se ao ponto de inventar o “Deus do Mal”, por falta de explicação aceitável para tanta maldade. Nem promessas de paraísos nem ameaças de infernos bastaram para, ao menos, diminuir a maldade. Avançou e avança como avalanche incontrolável, perante a impotência dos deuses e dos homens.
Penso que este sentimento de impotência perante o mal e a maldade tem uma raiz cultural, da qual nos temos que libertar.
Por mais que ofenda o orgulho de quem se imagina um puro espírito encarcerado num corpo tão frágil como um vaso de argila, está na hora de reconhecer que somos, primeirissimamente, iguais ao mosquito que mata para se alimentar e sobreviver. Toda a sofisticação de meios que usamos para atingir o mesmo fim, sobreviver, decorrente da nossa inteligência e da mente consciente, não anula a nossa primitiva condição. E é sobre esta condição de “mosquito sofisticado” que temos de actuar, se queremos superar-nos para o sonho, para a beleza, para o amor e para a imortalidade.
Mas continuamos a “dizer” tudo ao contrário, repetindo o milenar sermão moralista.
Escrevi “dizer” e não “fazer”, porque há um trabalho extraordinário que vem sendo feito metodicamente pelo menos há quatrocentos anos, não por pregadores de sermões inflamados, mas pelos homens da ciência que apontaram o machado do conhecimento à “raiz do mal”.
Não é a ira de uma divindade que manda o raio, o terramoto, a peste ou guerra. Não é uma divindade perversa que instiga o ódio, a ganância, a inveja e a mentira. Não é o “pecado” dos pais que faz nascer o filho cego, aleijado ou com tendências suicidas ou assassinas.
Todo este rio imenso de “maldades” procede da nossa condição e do universo donde emergimos.
Os pregadores de sermões, antes, por mera ignorância, hoje, “quase” por maldade, ora culpam “Deus”, ora culpam o “Homem”.
Sem lhes dar cavaco, os homens da ciência lançaram as culpas para o caixote das velharias e foram directos às causas das nossas desventuras.
Nascer mais saudável, nesta era do conhecimento, pode ser o primeiro passo para uma nova era, a do homem espiritual. Porque “o que nasce torto, tarde e mal se endireita”.
E nós temos estado a nascer “ao deus dará”.
Em vez de lamúrias e de apontar o dedo à “maldade humana”, aposte-se a sério no conhecimento e nas ciências da vida.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Indiferença Desconcertante V

Contemplação

Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre ideias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? Fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido...

Antero de Quental, in "Sonetos"

Indiferença Desconcertante IV

Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

Antero de Quental, in "Sonetos"

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Indiferença Desconcertante III

Se estivesse a escrever para um livro colocava o subtítulo “O melhor da consciência é o amor”.
Rios de tinta gastos para definir o amor e quase sempre se esquece, “no ardor da paixão”, que o amor é o filho maior da consciência humana. Assim mesmo, à letra: amamos, quando atingimos a maioridade consciente.
À frieza distante e infinita do Universo ou de um Deus com ele identificado, responde o calor próximo do nosso amor que retribuí com o olhar consciente de um amor finito, bem à nossa medida. De mãos dadas ou consciências entrelaçadas podemos olhar o Universo sem medo da sua esmagadora grandeza. Quase apetece beijar-nos no cimo da montanha mais alta e provocá-lo com a singularidade da nossa consciência amorosa, sem dizer, apenas pensando, porque o universo é cego e surdo:

isto, e olham-se nos olhos os amantes, tu não tens ou não és.

A morte certa destrói a consciência e o amor. A Humanidade tem lutado persistentemente contra esta fatalidade, ora erguendo monumentos de saudade, ora inventando formas de preservar a vida e fazer durar os dias e os anos da felicidade.
Apesar de “ele” aparecer tão insensível às “criaturas” que gerou, nós queremos conhecer o “Pai”. E ficamos confusos. Não sabemos se agradecer-lhe a realidade a que chegamos e somos, se reprovar-lhe o facto de nos ter entreaberto a porta do paraíso, para logo de seguida a fechar com estrondo na nossa cara, como que a dizer “desenrascai-vos na verdade efémera e sofrida de uma vida”.
Mas nós somos bons filhos e acabou por germinar em nós a semente da gratidão. Já não estamos em guerra com o “Pai”. Afinal, a vida pode ser uma festa breve, mas é tão bom enquanto dura. E agora sabemos que podemos prolongá-la mais e mais. No tempo e no carinho.
Também nisto adultos, finalmente.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Indiferença Desconcertante II

É recorrente as pessoas referirem a “força bruta dos elementos” , em face de uma qualquer catástrofe natural. Sabemos da história religiosa dos homens como estas “forças” ganharam vida e nome próprio e foram entronizadas nos altares do medo, da ignorância genuína e da vontade de sobreviver aos seus ataques impiedosos e destruidores. Em desespero de causa, a Humanidade sacrificou-lhes os próprios filhos, oferecendo-os e imolando-os para aplacar a ira incontrolada. Esta forma derradeira de medo e de impotência perante a “força dos elementos” e, em última análise, da morte iminente, não tem paralelo no Universo, até onde nos foi possível conhecê-lo. E não há como negar que esta atitude “religiosa” da Humanidade resulta da sua condição única de ter chegado à mente consciente.
A emergência da consciência humana foi como terrível despertar em pleno campo de batalha, sem saber como nem porquê. E têm sido milhares de anos vivendo este drama em plena consciência.
Substituir o Universo infinito, escuro, frio e indiferente, por forças personalizadas dos elementos (deuses) ou mesmo por um Deus Único, quer identificando-o com esse universo quer imaginando-o "por detrás”,gerando-o ou criando-o, não nos livra do seu comportamento arbitrário, de absoluta indiferença, em que somos tratados como um caracol que se esmaga com uma patada ou se faz dele um petisco apreciável.
Apesar de tudo, a Humanidade resistiu heroicamente. Desenrascou-se como soube e pôde e andamos nisto desde que nos descobrimos senhores de uma preciosa mente consciente. Preciosa, sim, embora a sua luz quase nos cegue, porque foi graças a ela que inventamos mil e uma formas de fintar o destino e garantir a sobrevivência.
Não somos vencedores de deuses nem escapamos ao universo que nos dá a vida e no-la pode tirar em qualquer curva do íngreme percurso, mas podemos exibir um espírito consciente, com assomos de pura liberdade, capaz de fazer inveja ao Grande Universo que nos pariu. E se “ele” tem melhor, estamos à espera para ver.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Indiferença Desconcertante

Todos conservamos fresca a memória das tragédias nos mares do Japão e da Indonésia que provocaram centenas de milhares de mortos, resultantes de maremotos seguidos de tsunami.
Com a mesma indiferença com que esmago no meu quintal um caracol, inadvertidamente no meu caminho, a natureza se abate "impiedosa" sobre a humanidade.
O advento da ciência, em força, com os "gigantes" como Kepler, Galileu ou Newton, a presença de "forças sobrenaturais" era aceite sem questionar. Se algo se movia ou acontecia é porque alguém empurrava ou fazia acontecer.
Seja para proteger e ajudar, seja para atacar e punir, o "sobrenatural" assinalava continuamente a sua presença.
Atingimos um patamar de conhecimento que nos permite constatar que as forças conhecidas ou ainda desconhecidas "tratam" com a mesma indiferença uma galáxia, uma estrela, um planeta, a matéria morta ou a matéria viva, a vida sem consciência e a vida consciente. O Único privilégio de cada ser consiste na sua própria existência.
O ser humano que se considera único por ser consciente, terá de reconhecer que a consciência não faz dele um privilegiado no universo. Torna-o, apenas perante si mesmo, raro e único, mas apesar de ter a consciência da sua especificidade está tão sujeito à "indiferença" das leis universais como a mais insignificante realidade da matéria. Um meteorito perdido pode acabar quase de repente com biliões de anos de evolução da vida.
Como se o homem tivesse escapado das "mãos de Deus" para cair na teia implacável das leis do Universo.
Terá o budismo intuído esta constrangedora realidade "moderna" e daí apontou o tal "caminho do meio" como a saída mais "airosa"?