quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Amar Deus Ou Amar o Homem

Este post é a transcrição de um comentário que fiz para o blog aaacarmelitas, em resposta a uma critica sobre o meu «afastamento de Deus». Essa critica foi feita na sequencia da colocação, naquele blog, do meu post anterior sobre fé e ciência. Apesar de os leitores serem «apanhados» como que a meio da conversa, penso que compreenderão facilmente o que pretendi transmitir. E, com esta publicação, ficará também registado, na Laje Negra, um pedaço do percurso da minha já longa caminhada.
Aqui fica, pois.

Para a Teresinha

«Permita-me que a trate pelo diminuitivo, porque é assim que eu a "sinto", apesar de só a conhecer pelas palavras que traz a este blog.
Disse que gostei do seu comentário e repito.
A Teresinha foi directa, franca e extremamente comunicativa, quando abriu a alma da sua fé. Por isso disse que «adorei». E a Teresinha merece que eu retribua do mesmo modo.
As coisas deviam ser sempre assim neste blog: não concordo, apresento os meus argumentos e, se quiser, faço comunicação, acrescentando a minha experiência pessoal, íntima até. Fica o "máximo".
A Teresinha fez tudo isso lindamente. Apetecia-me dizer: só mesmo a sensibilidade de uma alma feminina!

Teresinha, quanto aos assuntos que dizem respeito a Deus, eu separei dentro de mim os planos, desde que o meu "relacionamento" passou do plano afectivo para o plano do conhecimento. Tudo o que a Teresinha vê e sente na sua fé, eu já vivi o mesmo e com muita intensidade. No seminário passei por ser um «santinho». E pode crer que me esforçava por sê-lo, mesmo que para outros fizesse figura de ingénuo. Recordo com ternura esses tempos. São meus, estão aqui dentro e não os quero afastar por nada deste mundo. São páginas apaixonadas da minha vida. Eu procurava sair da solidão para que tinha despertado, ao atingir a «idade da razão». É uma idade única, esta da passagem para a "autonomia", mas dramática porque nos descobrimos sozinhos perante o mundo inteiro. Os pais deixaram de ser a palavra infalível e o amor garantido; os amigos vão e vêm e, muitas vezes, ou nos chateiam ou não nos compreendem…
É quando buscamos o «amor perfeito» ou «o verdadeiro amor». É a idade das primeiras grandes amizades e das primeiras paixões amorosas...
No seminário ensinavam-nos que a verdadeira amizade e o verdadeiro amor só procedem daquele que é a Perfeição e o Amor: Deus. E n'Ele, Jesus, Nossa Senhora e todos os santos.
Vou saltar todo o processo que fez com que eu separasse a minha afectividade daqueles "ícones" da minha fé. Aliás, muito já ficou dito neste blog. E vou contar-lhe, Teresinha, como substitui dentro de mim aquele que é o seu «companheiro de viagem» e com quem compartilha, meio-por-meio, o melhor da sua afectividade, dos seus sonhos e das suas decepções. Com quem compartilha a vida, como nos conta, sentindo-lhe a "presença" que afasta a solidão na caminhada.

Hoje não tenho dúvidas que foi o aparecimento do amor incarnado, tão real como eu próprio, tão falível e ao mesmo tempo tão confiante, tanto quanto a nossa condição humana o pode proporcionar, que fez a "separação". Sem sombra de artificialismo e sem a ligeireza da rotina, já vai para vinte oito anos que ao chamar a «minha mulher» a chamo de «meu amor». Esteja perto ou esteja longe, tenho a sua "presença". Não sabemos, ela e eu, o que é a solidão. E dizemo-lo um ao outro, varrendo sombras de dúvida, se começassem a insinuar-se.
A esta distancia dos anos em que me queria «apaixonar» por Deus, pelos santos e «por todos os irmãos», digo para mim próprio que este amor que vivo no dia a dia, é exactamente aquilo que sempre procurei e nele encontrei a doce paz do espírito, no presente.
Esse amor real, vivido na imperfeição de dois seres, imperfeitos e limitados, sim, está sempre acima de qualquer conhecimento filosófico, teológico e cientifico. Por isso amo e sou amado por uma mulher que faz promessas à Senhora de Fátima, e as cumpre, porque é a sua teologia, a sua filosofia, a sua ciência. A mesma mulher que diz, por brincadeira, que se eu, excomungado da Igreja por ter casado com ela, for para o inferno, «quero ir contigo».
Não pretendo ser injusto com ninguém e, por isso, tomem tudo o que escrevo apenas como o relato da minha experiência. Mas digo-vos que se firmou em mim a ideia de que «Deus, Jesus e Maria» da minha juventude foram, antes de mais, o substituto provisório do amor pelo qual ansiava e acabei por encontrar.
Um amor que está ao alcance de quem o queira encontrar e nele viver.
Assim, «Deus», que «nunca ninguém o viu», como está escrito nos Evangelhos por onde li, constitui objecto do meu pensamento, como tudo o que não compreendo, a começar pela complexidade espantosa do ser que somos. Mas o meu afecto, esse, está, todinho, encaminhado para o meu amor, para os amigos e para o universo todo. E se Deus for o próprio universo, como pensam muitos, então já o amo, e de que maneira, quando abraço ternamente o «meu amor».

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Milagres da Ciencia e Milagres da Fé

Há dias li aqui na net duas notícias que merecem um pouco de reflexão. A primeira contava que o falecido Papa João Paulo II fizera o milagre necessário para se iniciar o processo da sua elevação aos altares. A segunda anunciava a descoberta de um processo revolucionário para detectar as células cancerígenas e que também abria caminho ao tratamento personalizado do cancro.
Não pude deixar de pensar na profunda diferença de atitude dos homens da ciência que procuram servir a Humanidade e dos homens da fé que parecem estar mais preocupados em servir-se cada um a si próprio. A "pedagogia do milagre" está voltada para o individuo e para o destino individual. De certa forma, esta pedagogia cristã do milagre veio preencher o insuportável vazio surgido entre as primitivas comunidades cristãs, após a esperança frustrada da "segunda vinda" de Cristo, tão profusamente anunciada pelo incansável apóstolo S.Paulo. Esta segunda vinda coincidiria com o "fim dos tempos" em que, milagrosamente, a terra e os céus seriam transformados, juntamente com a própria Humanidade. Nessa altura, toda a pedagogia da fé tinha como destinatária a comunidade como um todo, seja para a vida presente, seja para a morte e ressurreição. Foi esse espírito que fez com que os primitivos cristãos vendessem os seus bens e entregassem o produto da venda nas mãos dos apóstolos para serviço de todos. Foi nesse tempo que se consagrou a sugestiva metáfora da Igreja como o "Corpo Místico de Cristo". E esta "igreja" era para a universalidade dos homens.
A "segunda vinda", porém, não aconteceu e desde então até aos nossos dias o cristianismo teve que adaptar não só a sua fé e a sua esperança como também a sua teologia e pedagogia. O resultado foi uma flagrante fileira de contradições entre a palavra dos textos sagrados e as práticas religiosas, exemplarmente ilustrada nesta história de milagres ao jeito da salvação da alma de cada um , que não do homem todo ressuscitado e de uma comunidade ressuscitada.
Se eu pretendesse estabelecer uma ligação entre o cristianismo de S.Paulo e os caminhos percorridos pela ciência, diria que os cientistas estão a concretizar a ressurreição anunciada por S.Paulo, embora de uma forma que ele não poderia suspeitar. É, claramente, uma ressurreição resultante da obra da comunidade humana e para sucesso da mesma comunidade como um todo.
Nesta perspectiva, o culto dos milagres como este que acaba de ser anunciado aparece como um perfeito anacronismo face à evolução das diversas ciências.
A marcha do mundo não pára e, nos tempos que correm, os "prémio Nobel" vão substituindo os santos dos altares.
A canonização vai-se fazendo na Suécia.
Não é o novo culto da "deusa ciência", porque hoje sabemos bem que esta deusa, tanto quanto todas as outras deusas e deuses dos nossos avós, é produto do génio humano. Definitivamente, somos especialistas em sonhar, inventar e criar. Talvez só nos falte mesmo criar um Criador. Não é coisa que não tenha ocorrido a Einstein. Fez a pergunta e tudo...

sábado, 8 de janeiro de 2011

Padres Ou Professores?

E começo por citar Alberto Einstein: «Quanto maior é a evolução espiritual da humanidade, tanto mais me parece certo que o caminho genuíno para a religiosidade não passa pelo medo da vida, ou pelo medo da morte, ou pela crença cega, mas antes pela busca do conhecimento racional. Neste sentido, acredito que o padre, se deseja fazer justiça à sua elevada missão educativa, deve converter-se num professor». (In "Como Vejo a Ciência, a Religião e o Mundo", da Relógio D'Agua Editores»

Quando Einstein propôs a sua teoria revolucionária da relatividade geral, quantas pessoas no planeta eram capazes de a entender? E quantas pessoas, entre os quase seis biliões que somos hoje, fazem alguma ideia das reacções químicas descobertas por Alexander Fleming, o inventor da fileira dos antibióticos?
E, no entanto, estes homens, como milhares e milhões de outros, deram um contributo enorme para a transformação da vida de cada um dos seis biliões de «ignorantes».
Já ninguém fica surpreendido ver uma criança de três ou cinco anos manipular o comando de aparelhos audiovisuais ou teclar com mestria um telemóvel. E, no entanto, ignoram completamente a espantosa criação tecnológica que seguram na mãozinha inocente.
Na realidade, a maior parte das pessoas vai vivendo tão despreocupadamente quanto Adão e Eva, desfrutando as delicias do Éden, desconhecendo, quase por completo, como aqui chegaram. Mas a verdade é que, para estes seis biliões de «ignorantes» gozarem o paraíso, alguém teve de o construir.
(Não me interrompam para dizer que "isto" é «paraíso coisa nenhuma», para não ter que retorquir-lhes que o de Adão e Eva era muito mais fantasioso!)
O que se pode deduzir das palavras citadas, de Einstein e o que eu quero afirmar com o enunciado das realizações cientificas, é que estamos a viver uma época de alteração persistente de paradigma quanto à forma de pensar a nossa realidade. Segundo este novo paradigma, a primazia vai para a transformação do mundo e não para a sua interpretação. Como quem diz, a filosofia já não pode pensar e interpretar um mundo «feito-acabado», mas um mundo em construção. Um mundo que, em última analise, ainda falta criar.
Ora nós sabemos que o «padre» assenta a sua pregação em dogmas estabelecidos acerca de um mundo ideal e que é só comportar-nos bem para lá chegar, iluminados pelo dogma. Seja iluminados pelo dogma incarnado, Jesus-o-de-Nazaré, do Pe Mário de Macieira da Lixa, seja pelos dogmas de Buda, que o Luís tem feito escorregar aqui pela nossa Laje Negra. (Em miúdo adorava fazer da laje negra o meu escorrega).
Esta nova perspectiva de um mundo em construção não se adequa aos conceitos tradicionais, pensados para um mundo feito e acabado, novinho em folha, como paraíso oferecido à Humanidade. Claro que Adão e Eva não foram expulsos do Paraíso. Simplesmente porque nunca existiu tal paraíso. Como não existe agora. Mas a Humanidade sentiu-se expulsa do aconchego do seio materno, por algum pecado cometido, e viu-de na necessidade absoluta de providenciar o pão de cada dia. E foi como se cada um de nós ainda não se conformasse com o corte do cordão umbilical. O pensamento do paraíso perdido será ressonância nostálgica da vida garantida e segura no ventre da nossa mãe. Numa segunda fase, e para mostrar que «já somos homens», substituímos o seio materno pelo vasto ventre da Mãe-Terra. Ela estava ali, prontinha, com tudo o que nos fazia falta, pregavam, entusiasmados, os «materialistas» dos séculos do iluminismo e do triunfo da ciência sobre a religião. Enquanto isso, os «padres» agarraram-se e ainda se agarram ao «paraíso perdido» e sonham com o retorno, nem que seja numa outra vida a seguir a esta.
E nem os eufóricos «materialistas» nem os saudosistas religiosos compreenderam que se estava a desenhar no horizonte uma realidade, exactamente, sem horizonte.
E não temos ainda conceitos adequados para lidar com esta verdade. Uma coisa me parece certa: o nosso mundo vai sendo transformado; as novas gerações vão sendo lançadas neste surpreendente paraíso; e sê-lo-ão cada vez mais despertas, e em maior número, para a nova realidade; os padres e filósofos vão todos virar professores das ciências da vida, ela mesma em acelerada transformação (que o digam os investigadores da neuro ciência e da genética).
O génio de Einstein viu longe.
E agora diz-me, Luís, para que serve falar de determinismo ou indeterminismo num mundo sem horizonte? Por outro lado, na tua computação, isso é absolutamente determinante. Sem o determinismo puro e duro da matemática não consegues elaborar um único programa. O chato é que a vida é muito mais que matemática e computação. Sem horizonte que se perceba, permanece mistério. Também em Damásio.
Como acabas de ver, para mim, a vida não é uma questão de compreensão ou interpretação mas de construir o que ainda não existe.
Modestamente, muito humildemente, prefiro falar em transformação-reprodução, porque tenho sempre a sensação de que apanhamos o comboio a meio da viagem...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Fogo de Artifício

Aconteceu-me, em 2010, assistir a duas sessões de fogo de artifício. Primeiro nas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, e, agora, em Barcelos, na passagem de ano. Na minha aldeia de Balugães (Barcelos) diz-se ou dizia-se, quando era garoto, «fogo de vistas». E, bem vistas as coisas, a fórmula popular é mais expressiva e explicativa que a erudita «fogo de artificio». Artificio há, de certeza, nos dois fogos. Mas o de «vistas» "explica" que é espectáculo para os olhos (vistas, como estar "cego de uma vista") que distingue do espectáculo barulhento feito para os ouvidos, no vulgar foguete. Preciosismos da linguagem.
Em Barcelos o espectáculo foi montado mesmo no centro da cidade, a partir do lindo e bem tratado jardim, a poucos metros da formosa e surpreendente, na sua arquitectura, igreja do Senhor da Cruz. O fogo abria-se mesmo por cima da cabeça dos espectadores e nem eu nem a minha mulher tínhamos, alguma vez vivido tão por dentro um fogo assim. Quando se está de longe e já se viram muitas sessões de fogo, não custa desviar o olhar e conseguir algum distanciamento. Mergulhados no espectáculo como estávamos ali, ficamos presos ao encanto da obra dos artífices.
Tão longa introdução, para vos falar de um outro fogo, o fogo do nosso pensamento.
Num comentário ao psot anterior, do Limabar, expressei o meu espanto pelo facto de um «filho da Terra», o homem, confrontar a Mãe com o mistério do seu nascimento. Porque são cada cada vez menos as dúvidas de que nascemos aqui!Nem somos extra terrestres nem espíritos "desincarnados" escondidos em formas corporais. A ciência encaminha-nos com segurança para essa verdade e os cientistas são os primeiros a ficar atónitos perante a surpreendente realidade. Os «materialistas» apressados dos séculos dezoito e dezanove estão a ser, literalmente, cilindrados, tanto quanto o foram os criacionistas que recusaram, até à última, o evolucionismo.
Siderados perante a dimensão do macro e do microcosmos, os cientistas ganharam em humildade o que os «materialistas» haviam multiplicado em cagança.
Vai-se descobrindo que a nossa Terra-Mãe, e com ela nós próprios, estamos ligados umbilicalmente ao universo que nos cria e alimenta, como criança no ventre materno.
E o nosso pensamento consciente permite-nos acompanhar, em tempo real, o desenvolvimento da vida. E já não se trata de adivinhar um qualquer mistério transcendente e nele acreditar, mas de apalpar, ver, ouvir, cheirar, saborear e sentir e medir e pensar, este que nos é dado viver conscientemente.
Já não se fala mais em «fugir deste mundo» nem prever o seu Apocalipse, mas tomá-lo inteirinho nas mãos, simultâneamente como herança e como projecto.
E o mesmo fogo de brilho intenso do pensamento consciente haveria de esconder no seu íntimo a mais estranha sensação de incerteza. É que o pensamento consciente de cada um dura apenas o tempo de um fogo de vistas. Esgotada a "pólvora", acaba-se o fogo, o brilho, o espectáculo, a emoção, o sentimento, o pensamento, a consciência.
Saramago já não é mais que um punhado de cinzas de um intenso fogo que se extinguiu. Sobrou a lembrança na mente dos que o conheceram e leram e hão-de ler, e a saudade amorosa no coração de Pilar del Rio e dos amigos.
É muito pouco, para quem tem sonhos de eternidade.
E a verdade é que nós não desistimos desse sonho, enfrentando heroicamente a desesperança.
O ser humano é fantástico! Nós somos mesmo bons! E dos «maus» também reza a história, mas não me apetece falar deles.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Em jeito de conversa...

No meu último post não foi minha intenção lançar uma polémica sobre o conceito de livre-arbítrio. Sei que as correntes filosóficas sobre o tema são várias e foram discutidas por imensos pensadores e filosofos. A minha ideia de base era focar a nossa dependência consciente, e sobretudo inconsciente, do ambiente em que vivemos. Mostrar que a parte cultural da nossa consciência, é o resultado da interacção do nosso eu com o mundo exterior. (Eu vejo a consciência como um todo constituído de duas partes distintas e indissociáveis: a biológica, herança da espécie, sobre a qual o nosso poder de acção é quase nulo; a cultural que construimos a cada instante da nossa vida.) O que eu queria trazer à luz é o facto de, em relação ao meio em que vivemos, não passarmos de um pião das nicas, puxados, empurrados, sacudidos pelos ventos interesseiros e interessados dos vários agentes que nesse meio pululam. Sendo nós próprios um componente desse meio, não nos é dado ignorar nem rejeitar tudo o que dele nos vem, mas cabe-nos o direito de questionar, seleccionar e guardar unicamente o que julgarmos útil ou agradável.

Acho este ponto importantíssimo na construção da consciência de cada ser humano. Quando nascemos somos um livro branco, nem os registos da herança biológica são legíveis. A qualidade de toda a nossa vida vai estar sujeita à pertinência do que aí será escrito. Estarão aí os mandamentos, as leis e os preceitos que vão fazer de nós o que seremos.

No meu ultimo comentário permiti-me, de certa forma “julgar” o Mário e o Luis. Acreditem que o fiz pela simpatia que me transmitem os vossos “taco a taco”. Em resposta o Luis não hesita em resumir-se numa quadra, que não rima é certo, mas que contêm com certeza a “poesia” da sua vida.

Quanto a mim, confesso, prefiro o espectador ao actor, e o ”eu” emprego-o mais a discutir comigo próprio do que a falar com os outros. Aqui vai uma amostra que me aconteceu aqui há uns tempos. Não é uma queixa, é uma constatação.



VIDA


Corri, escorreguei, caí,

Rachei um dedo, gritei.

Foi assim que comecei

A vida que não escolhi.


Porta aberta, eis-me lançado

No pantanal da existência.

Sonhos, loucura, inocência...

Tudo levei num braçado.


Ela está onde, a verdade?

Quem socorre um vagabundo...?

Era a manhã deste mundo,

Princípio da eternidade.


Alguém chamou, deu um grito

Que tudo estremeceu.

-Anda, pega, o tempo é teu,

Ouro, glória... o infinito!


Prometeu coisas sem fim!

Fiz contrato e assinei.

Dei mãos à obra, lutei

Até dar cabo de mim.


Vida sacana, canalha.

Que pesadelo medonho !

Se não acabo este sonho

Não há santo que me valha!


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Do Livre Arbitrio

Pois é, Lima, este poema que o Luís re-colocou na Laje Negra atirou-nos, em tempos, para uma disputa do caraças acerca do tema que propões. O poema do António Gedeão é muito lindo mas conta a história da nossa liberdade de escolha de uma forma tão..."metafísica" que nós ficamos sem saber se está a falar de gente de carne e osso ou de espíritos encarnados, que muito boa gente confunde com o ser humano.
É isso aí. O «dualismo» imbricou-se de tal forma no pensamento dos homens, que Damásio & Cª vão ter muito que suar para convencer as pessoas a descer à terra.
Somos uns ingratos! Sempre a voltar as costas à Terra-Mãe que nos deu tudo.
Estava aqui a pensar, a propósito da publicidade e todas as outras armadilhas que fazem gato-sapato do nosso livre arbítrio, nas séries televisivas sobre a vida selvagem na Nacional Geographic. Há animaizinhos que conseguem aumentar o seu tamanho para o dobro, inchando por todos os lados, para fazer crer ao seu predador que é bem maior e mais forte do que ele pensa. Outros há que fazem trinta por uma linha para seduzir a fêmea, armando-se em "bons". No reino das plantas, a arte de enganar é também requintadissima.
A nossa publicidade sedutora, enganosa e enganadora, não lhe fica atrás. O que significa que nós, humanos, filhos da mesma «cepa», não negamos a mãe-natureza! E eu prefiro-me assim, a um espírito feito alma-penada que não se engana nem se deixa enganar.
Nunca sentiste, meu caro Lima, um sentimento de vitória, quando descobriste a "marosca" de um "trapaceiro"? Já pensaste na comoção sentida por aqueles nossos antepassados quando desmascararam a mentirosa Lua? Tão pequenina, parece ela; ora cresce ora minga e vai-se a ver, é tudo um faz-de-conta. Como o Pai Natal.
Nós não nascemos "ensinados" e muito menos com uma «alma-feita», isto, claro, se não formos dualistas como Platão ou Descartes ou António Gedeão (estou a brincar com o Gedeão, porque ele fez poesia e não filosofia).
Aprendemos a fazer e desfazer enganos, a decidir bem ou mal e a escolher bem ou mal.
Tudo em nós é uma "capacidade" em desenvolvimento, como a primitiva célula que se replica até criar a estrutura de um ser humano fabulosamente complicada.
Não se pode chegar ao livre arbítrio como Descartes chegou à «Res Divina»: temos a «ideia» de perfeição; mas nós não somos perfeitos; logo tem de haver um ser onde a perfeição se torne real. Esse ser é Deus.
Assim é fácil chegar a Deus ou ao livre arbítrio. Ou não chegar coisíssima nenhuma!
Platão dizia que nenhum circulo desenhado ou esculpido é perfeito e só a «ideia» de circulo é perfeita. É como dizer que a «maqueta» de uma cidade é perfeita mas a cidade propriamente dita é um amontoado imperfeitíssimo de elementos. Vai-se fazer a "prova dos nove" e lá temos a ideia perfeita de Platão no projecto matematicamente impecável do arquitecto, a comparar com a "grosseira" realidade dos maus cheiros e dos gases tóxicos por todo o lado, sem contar com os mil e um defeitos, detectáveis a olho nu, por imperícia dos «trolhas».
Certamente que a mãe natureza é bem mais perfeita naquilo que faz e a prova disso está no projecto matematicamente perfeito do arquitecto. Só que os senhores dualistas dizem que o autor do projecto da cidade é outra «substancia», a «res cogitans», que não tem nada a ver com a cidade propriamente dita, e que Descartes chama de «res extensa».
Pois é, cá temos uma alma acoplada a um corpo, que é tudo o que António Damásio nega: um homem, duas substancias. No limite, duas naturezas.
E a partir daqui nascem as intermináveis discussões bizantinas, como esta sobre o livre arbítrio. Com efeito, se ficarmos presos aos conceitos de liberdade, de escolha, de fatalidade, estamos a confundir «maqueta» com a «cidade», como quem diz, o conceito abstracto com a realidade. E esta é incomensuravelmente mais rica do que tudo aquilo que vamos podendo "miniaturizar" pelo nosso nosso génio.
Eu já afirmei e volto a repetir: 2+2=4. Dois Limabar mais dois Limabar, não são quatro condiscipulos da minha adolescencia, porque Limabar só há um, o de Geraz do Lima e mais nenhum.
É a distancia entre o conceito e a realidade e nós sabemos calculá-la bem. Por isso é que conseguimos construir as cidades que sonhamos.
O Luís vai-se ir aos arames, mas vou escrever, mesmo assim: a distancia entre o fatalismo do livre arbítrio e a verdade (possível) da livre escolha é a mesma que existe entre a fantasia e a realidade.
As consequencias da aceitação de uma «verdade possível» e de uma «liberdade possível» são demolidoras para a ética e para a moral. Quem faz as leis e quem zela pelo seu cumprimento (os juízes) vão ser obrigados a legislar e a julgar tendo em conta a «cidade» imperfeita ou inacabada (cheira a relativismo, mas que hei-de fazer!) e não a «maqueta» idealizada, para o mundo único e irrepetivel que é cada ser humano.
Seria caso para dizer: não queria estar na sua pele. Mas eles desenrascam-se bem, improvisando que se fartam!!! E é o que vale, se não isto não atava nem desatava. O caminho é longo, sinuoso, barulhento e confuso. Não é assim, Dalai Lama? Acho bem que medites profundamente nestas coisas e acho mal que pares na borda do caminho, à espera que os outros construam a cidade barulhenta e malcheirosa que vai sendo possivel.
(Juro que esta não foi para o Luis!)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Livres... sem livre-arbítrio

No meu ultimo comentário sugeri começar o ano com uma pequena mudança de assunto, nestas conversas de amigos, que, espero, são proveitosas para todos. O tema a que eu fazia alusão, é um fenómeno de sociedade, que nos invade quotidianamente, embora, à força do habito, poucos disso se apercebam. A mim não raro me faz vociferar... mas é tudo o que posso fazer!

Para melhor apreender as implicações desse fenómeno nas nossas vidas, começaria por relembrar algumas considerações sobre o funcionamento do nosso sistema decisional.

A qualidade da nossa vida depende, em boa parte, das decisões que tomamos, seja qual for a importância que lhes é dada. Ora essas decisões, se somos livres e conscientes, devem obedecer ao nosso bem-querer, ao nosso livre-arbítrio. É a condição primeira para nos sentirmos livres e senhores do nosso destino. Neste processo, o nossa mente utiliza a informação que lhe é disponibilizada pelos centros de armazenamento da memória, informação essa seleccionada pelos sistemas de aquisição de que dispomos. O circuito de armazenamento começa pela recolha da informação do exterior, através dos meios de percepção do nosso corpo, seleccionando e atribuindo de imediato a cada fragmento informativo, um certo valor qualitativo, em relação ao “eu” que nos habita. Assim, a pouco e pouco, a nossa mente, vai constituindo uma enorme base de dados, cujo conteúdo será utilizado, consciente ou inconscientemente, em cada tomada de decisão.

Então, perguntaria eu, por que será que tantas vezes somos as vítimas das nossas próprias decisões? Se somos livres de escolher, por que razão nos enganamos? Forçoso é de constatar que, ao menos uma parte do conteúdo de que dispõe a nossa mente, não é fiável, ou pelo menos não corresponde àquilo que o nosso “eu” desejaria.

É aqui que entra o tal fenómeno de que falei acima. Fenómeno esse, hoje universal, que eu considero uma verdadeira tara da nossa actual sociedade. Realidade omnipresente, disfarçada sob aparentes fins informativos, é hoje um poderoso actor que age sub-repticiamente sobre uma boa parte das nossas decisões, supostamente livres e consentidas. Estou a falar da Publicidade, de toda e qualquer forma de publicidade..

Acordo de manhã, ligo o programa de radio habitual, e ela aí está! É o começo de uma invasão descarada de meu espaço privativo, a minha casa. Entra sem autorização, por qualquer frincha aberta para o exterior. Passa pela televisão, pela Internet, por radio e telefone, pelos jornais, pelas revistas, pelo correio, até pelas janelas. É maçadora, repetitiva, impertinente. Se saio à rua, é o olhar que é atraído, em cada esquina, em cada praça, em cada muro. Sinais convidativos, mensagens multiformes de um subtil entendimento. Vou ao cinema, mas nem aí me livro dela. Tenho que a suportar se quero ver o filme inteiro. Entro no carro, faço quilómetros para desafogar... pura ilusão, ela está sempre há minha frente, no campo de visão, provocadora, instigadora. Estradas, vilas e cidades, por toda a parte onde houver povo, aí está ela, omnipresente, inevitável. Quando a informação é real e a mensagem honesta, pode ser aceitável, mesmo útil. Quando é agressiva, tendenciosa, desonesta, mentirosa, embora quase sempre bem vestida e aliciadora, torna-se prejudicial e potencialmente perigosa. A mensagem, trabalhada, embelezada, visando muitas vezes alvos escondidos, é enviada repetidamente em nossa direcção, através de artimanhas várias, de tal maneira e engenho que nos é quase impossível não a receber. Os espíritos suficientemente esclarecidos e alertados em relação ao perigo, podem acomodar-se e rejeitar o indesejável, embora saibamos que o inconsciente guardará sempre restos insuspeitos. Os distraídos, ou os incapazes de ordenar correctamente as suas percepções, correm o risco de aceitar informações menos claras, duvidosas ou mesmo erradas, sub-repticiamente intrusivas, sem que o sistema de controlo se aperceba de tal facto.

É assim que, inconscientemente, através da percepção que temos do meio que nos rodeia, vamos acumulando informações que, misturadas ao património cultural já adquirido, vão ajudar a consciência na hora da decisão.

A consciência guia a nossa vida através das opções por nós tomadas. Ela pode enganar-se na sua escolha, se o conteúdo informativo de que dispõe é desnaturado.

Somos assim livres de escolher, mas enganados ao exercer o nosso livre-arbítrio.

Limabar