(Comentário para um amigo)
Às vezes fico a pensar que quanto mais se esbate a crença na vida para além da vida mais se investe no sonho e na criação de um «paraíso» na terra. E sou levado também a pensar que a crença na vida depois da morte já só move os mais fanatizados. O comum dos crentes respeita profundamente as tradições e professa as crenças ancestrais, mas na hora da verdade vem perguntar, com toda a sinceridade da alma, «como é do outro lado?» Porque, entretanto, se impusera a evidência que instalara a dúvida: «de lá não vêm cartas».
É certo que muitos crentes mandaram erguer maravilhas arquitetónicas, tentando comprar um lugar no paraíso do além. Mas era bem terreno o amor à beleza esculpida, pintada ou musicada. E para quê um mausoléu sumptuoso, se de tudo isto não haveria de restar pedra sobre pedra? Parece mesmo que nunca foram convencidos. Não é por acaso que a explosão artística da antiga Grécia cresceu no contexto da ridicularização dos deuses tradicionais. E os artistas esculpiam-nos a seu bel-prazer e descreviam-lhes a alma conforme os sentimentos e emoções humanos. Sem dó nem piedade. Os artistas demoliram as divindades. No mínimo, reduziram-nas à vulgaridade.
Nunca, como hoje, se investiu tanto numa vida para ser vivida cá, na sua totalidade. A fé não é combatida pela ciência. A ciência investiga e faz o seu caminho «apesar da fé». Nem se dá ao trabalho de a discutir. A prova da existência de vida noutros «sistemas solares» (que são incontáveis) iria estoirar com a cristologia cristã. E os cientistas prosseguem a sua pesquisa sem ligar a mínima. Como os cristãos se estiveram borrifando para a proibição dos anticoncepcionais, do divórcio, do casamento gay, da investigação genética etc.
Atrevia-me as dizer que se as riquezas são mal distribuídas isso fica a dever-se, em boa parte, a uma desgraçada pregação de que estamos aqui de passagem e a nossa verdadeira casa é «no outro lado». Até parece que era mesmo isso que queriam ouvir os «senhores do dinheiro».
A fé foi amplamente utilizada para amordaçar a «revolta» dos esfomeados e injustiçados.
Tudo isto por causa do palácio italiano que te enviei em vídeo...
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
sábado, 13 de novembro de 2010
O Silêncio Fecundo
O silêncio é fecundo hoje, como já foi ontem e desde que o homem atingiu a elevação do pensamento consciente. Do alto, olhou o presente, o passado e o futuro possível ou projectado. Apesar do ruído, que foi ensurdecedor em todas as épocas, assumindo sempre formas de expressão diferentes, desde os electrizantes batuques da savana africana até ao ruído infernal das arenas em combates de morte, o homem sempre soube encontrar os seus tempos de recolhimento. Chego a ficar comovido quando penso nas dezenas ou centenas de milhares de investigadores dedicados e que respeitam apenas o horário da sua paixão pelo conhecimento, ano após ano, nos mais diversos ramos da pesquisa cientifica ou meditação filosófica. Se não estivermos atentos, este mundo maravilhoso passa-nos tão despercebido quanto o génio do nosso Camões foi ignorado pelos seus contemporâneos.
O estardalhaço dos foguetes ou da música pimba não são mais que o ruído normal provocado pelos nossos passos, enquanto avançamos no caminho íngreme e pedregoso de um futuro que vamos sonhando.
Se o Intrometido pode falar do escândalo da sua alma quieta, eu venho aqui, uma vez e outra, com o escândalo de uma alma inquieta, mas, estranha e paradoxalmente, em paz com a vida que amo e me amou primeiro.
( publicado em aaacarmelitas)
O estardalhaço dos foguetes ou da música pimba não são mais que o ruído normal provocado pelos nossos passos, enquanto avançamos no caminho íngreme e pedregoso de um futuro que vamos sonhando.
Se o Intrometido pode falar do escândalo da sua alma quieta, eu venho aqui, uma vez e outra, com o escândalo de uma alma inquieta, mas, estranha e paradoxalmente, em paz com a vida que amo e me amou primeiro.
( publicado em aaacarmelitas)
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Carta a um Amigo
«A história não se refaz, mas repete-se noutras condições...» Dizes.
Como tenho em mente a história de um universo progressivo (em expansão) e a história da vida em processo evolutivo, não direi que o futuro é o passado (« a história repete-se») mas uma novíssima realidade, algo muito próximo de uma verdadeira criação. Sei que este pensamento é o inverso daquilo que seríamos, em lógica, levados a pensar, que é considerar o acto absoluto da criação no «princípio dos tempos» e não a apontar para o «fim dos tempos». Mas, de facto, a mim afigura-se-me que nós e o universo procedemos de coisa nenhuma e somos um puro processo em curso, sem vislumbre de um verdadeiro principio nem tão pouco de um fim à vista. Porque, em rigor, não pode ter principio o que ainda nem realidade é -o futuro - nem tão pouco podemos antecipar o que há-de ser -o futuro, novamente. Em verdade só o presente «é» em plenitude, enquanto «histórico» do passado e embrião do futuro.
O que complica tudo e provoca esta confusão toda é a nossa humana capacidade de, mentalmente, recuar ou avançar no tempo, sem sair do espaço e do tempo que somos no presente. Somos como que um elástico que se estica em todas as direcções e que acaba por regressar e encolher-se no ponto de partida, depois do esticão exploratório. Não admira nada que, face a tamanha «elasticidade» do pensamento consciente, Descartes, na esteira de tantos outros, tenha considerado a dualidade intrínseca do homem como um facto. Para ele a «res extensa» (o corpo) nada tem a ver com «res cogitans» (a alma e as suas faculdades). A tentaçao é grande para aceitar a dicotomia, pela evidencia do poder da mente a contrastar com a fragilidade de um corpo que parece não ser mais que o habitáculo temporário da alma. O avanço da ciência, porém, vai no claro sentido de que é o "frágil" corpo que está na génese da alma e não o inverso. Ambos formam uma unidade indissociável e essencial.
Para a nossa compreensão da realidade, diga-se em abono da verdade, a situação fica ainda mais complicada ou misteriosa.
Neste contexto, a mente humana surge como o patamar mais avançado da história da vida. E falta saber se não será também o prodígio maior de um universo evolutivo, que se organizou num corpo capaz de gerar o pensamento consciente.
Muito honestamente, penso que é cagança a mais pensar o homem como a «consciência do universo».
Mesmo assim, apetece-me acabar este email como tu fizeste num outro que me enviaste: «Eppur si muove»
Como tenho em mente a história de um universo progressivo (em expansão) e a história da vida em processo evolutivo, não direi que o futuro é o passado (« a história repete-se») mas uma novíssima realidade, algo muito próximo de uma verdadeira criação. Sei que este pensamento é o inverso daquilo que seríamos, em lógica, levados a pensar, que é considerar o acto absoluto da criação no «princípio dos tempos» e não a apontar para o «fim dos tempos». Mas, de facto, a mim afigura-se-me que nós e o universo procedemos de coisa nenhuma e somos um puro processo em curso, sem vislumbre de um verdadeiro principio nem tão pouco de um fim à vista. Porque, em rigor, não pode ter principio o que ainda nem realidade é -o futuro - nem tão pouco podemos antecipar o que há-de ser -o futuro, novamente. Em verdade só o presente «é» em plenitude, enquanto «histórico» do passado e embrião do futuro.
O que complica tudo e provoca esta confusão toda é a nossa humana capacidade de, mentalmente, recuar ou avançar no tempo, sem sair do espaço e do tempo que somos no presente. Somos como que um elástico que se estica em todas as direcções e que acaba por regressar e encolher-se no ponto de partida, depois do esticão exploratório. Não admira nada que, face a tamanha «elasticidade» do pensamento consciente, Descartes, na esteira de tantos outros, tenha considerado a dualidade intrínseca do homem como um facto. Para ele a «res extensa» (o corpo) nada tem a ver com «res cogitans» (a alma e as suas faculdades). A tentaçao é grande para aceitar a dicotomia, pela evidencia do poder da mente a contrastar com a fragilidade de um corpo que parece não ser mais que o habitáculo temporário da alma. O avanço da ciência, porém, vai no claro sentido de que é o "frágil" corpo que está na génese da alma e não o inverso. Ambos formam uma unidade indissociável e essencial.
Para a nossa compreensão da realidade, diga-se em abono da verdade, a situação fica ainda mais complicada ou misteriosa.
Neste contexto, a mente humana surge como o patamar mais avançado da história da vida. E falta saber se não será também o prodígio maior de um universo evolutivo, que se organizou num corpo capaz de gerar o pensamento consciente.
Muito honestamente, penso que é cagança a mais pensar o homem como a «consciência do universo».
Mesmo assim, apetece-me acabar este email como tu fizeste num outro que me enviaste: «Eppur si muove»
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Só Temos uma Oportunidade
De luto familiar pela morte de um cunhado meu, aos 73 anos de idade, tempo de vida do qual já se vai dizendo que não é idade para morrer, aproveito para reflectir convosco sobre o único espaço e tempo que nos é dado para viver.
Único, porque não teremos uma segunda chance, para corrigir, aperfeiçoar, em suma, crescer mais. Joga-se tudo na viagem a termo certo, ainda que indeterminado no tempo.
Porém, nem todos pensam que é a única oportunidade. Recordo, a propósito, o «Mito do Destino», de Platão, onde o soldado Er morre no campo de batalha e ressurge dez anos depois, para retomar o fio da vida em segunda oportunidade, admoestando os vivos para que se entreguem à sabedoria.
E retomo a comparação com a ressurreição cristã. Segundo a fé dos cristãos não há segunda oportunidade. A "construção" da morada de cada um para a eternidade é definitiva, na hora da morte: a salvação ou a danação, determinada pelas acções e pela fé.
É uma perspectiva arrasadora, para quem acredita numa vida depois da morte, sabendo-se que, por um deslize da fraca condição humana, podemos perder-nos para sempre no caminho.
Os estudiosos de S.Paulo não chegaram a um acordo sobre o destino exacto dos que não se salvam pela fé. Se é certo que os que morrem na fé ressurgem transformados para uma nova vida, num «corpo» espiritual, no entanto S.Paulo não deixou claro o que é feito dos que se perderam. Não ressuscitam e nem se transformam? Perdem-se no «nada», sem o sustentáculo de TUDO que é o Pai?
Quanto a mim, penso que a bondade de S.Paulo não aceita que o Pai crie um inferno eterno para os filhos perdidos, antes os deixa para sempre no sono da morte, nem os ressuscitando nem os transformando. Não terão a alegria do convívio paternal mas também não arderão num fogo de tortura eterna. Quem poderia ser feliz perante o espectáculo do inferno de tantos?!
Até este, temporário, quase-inteiro-inferno em que vivemos nos horroriza...
Sempre disse que a perspectiva daqueles que acreditam na reencarnação é mais atraente e parece muito mais lógica. Perante a nossa desgraçada condição humana, acreditar que temos uma e outra e outra oportunidade para crescer em sabedoria e verdade é bem mais motivador.
Seja como for, e de facto não sabemos como é, cada um aproveite a oportunidade que tem na mão porque, nesta situação como em nenhuma outra, mais vale um pássaro na mão que dois a voar, como diz a profunda sapiência popular. Sendo certo que, se perdermos a oportunidade presente, já perdemos ou tudo ou muito. Mas perdemos sempre
Único, porque não teremos uma segunda chance, para corrigir, aperfeiçoar, em suma, crescer mais. Joga-se tudo na viagem a termo certo, ainda que indeterminado no tempo.
Porém, nem todos pensam que é a única oportunidade. Recordo, a propósito, o «Mito do Destino», de Platão, onde o soldado Er morre no campo de batalha e ressurge dez anos depois, para retomar o fio da vida em segunda oportunidade, admoestando os vivos para que se entreguem à sabedoria.
E retomo a comparação com a ressurreição cristã. Segundo a fé dos cristãos não há segunda oportunidade. A "construção" da morada de cada um para a eternidade é definitiva, na hora da morte: a salvação ou a danação, determinada pelas acções e pela fé.
É uma perspectiva arrasadora, para quem acredita numa vida depois da morte, sabendo-se que, por um deslize da fraca condição humana, podemos perder-nos para sempre no caminho.
Os estudiosos de S.Paulo não chegaram a um acordo sobre o destino exacto dos que não se salvam pela fé. Se é certo que os que morrem na fé ressurgem transformados para uma nova vida, num «corpo» espiritual, no entanto S.Paulo não deixou claro o que é feito dos que se perderam. Não ressuscitam e nem se transformam? Perdem-se no «nada», sem o sustentáculo de TUDO que é o Pai?
Quanto a mim, penso que a bondade de S.Paulo não aceita que o Pai crie um inferno eterno para os filhos perdidos, antes os deixa para sempre no sono da morte, nem os ressuscitando nem os transformando. Não terão a alegria do convívio paternal mas também não arderão num fogo de tortura eterna. Quem poderia ser feliz perante o espectáculo do inferno de tantos?!
Até este, temporário, quase-inteiro-inferno em que vivemos nos horroriza...
Sempre disse que a perspectiva daqueles que acreditam na reencarnação é mais atraente e parece muito mais lógica. Perante a nossa desgraçada condição humana, acreditar que temos uma e outra e outra oportunidade para crescer em sabedoria e verdade é bem mais motivador.
Seja como for, e de facto não sabemos como é, cada um aproveite a oportunidade que tem na mão porque, nesta situação como em nenhuma outra, mais vale um pássaro na mão que dois a voar, como diz a profunda sapiência popular. Sendo certo que, se perdermos a oportunidade presente, já perdemos ou tudo ou muito. Mas perdemos sempre
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
"Desregular" para Harmonizar
“Desregular” para Harmonizar
De facto «eles» já não comem tudo. Pelo menos já não nos comem as papas em cima da cabeça, como diz o ditado.
A consciência cívica, em crescendo, veio para ficar e as reivindicações das pessoas, também elas em crescendo, aí estão para o confirmar. Depois de uma vida mais longa, reivindica-se uma velhice de qualidade; como depois da democracia, se reivindica uma democracia mais aprofundada. Subindo um degrau na escala do crescimento, aspira-se a subir o degrau seguinte.
Isto assusta os que estão bem ou razoavelmente bem instalados (os tais que «comem tudo e não deixam nada»), talvez com medo que o bolo não chegue para todos. O bolo da oportunidade da formação, da excelência da saúde, do bem-estar, da felicidade.
Curioso é que, não raro, vamos encontrar do mesmo lado da trincheira os tais que querem «comer tudo» e os que falam do homem como ser único e irrepetível.
Onde é que está a dissonância?
Acontece que os defensores de um humanismo radical, e ainda bem que o são, esquecem, frequentemente, por conveniência ou outro motivo qualquer, que todos os seres humanos, e não só «eles» ou uma certa elite, são de facto únicos e irrepetíveis e, como tal, credores da mais alta distinção. E isso vem a lume, às vezes de forma brutal, quando a sociedade é confrontada e tem de pronunciar-se sobre as chamadas «realidades fracturantes». Entre nós, o exemplo mais recente foi a discussão em torno do casamento entre homossexuais.
Não adianta remar contra a maré, porque os sinais dos tempos são bem claros no prenúncio de um Homem Novo que começa a fazer impor, em todos os domínios e por todo o lado, a sua nobilíssima condição de ser único e irrepetível, porque dela está cada vez mais consciente.
Únicos e irrepetíveis pela biologia, pela psique e pela consciência que vão construindo.
Este autêntico "despertar dos mágicos" está a provocar verdadeiras convulsões nas sociedades ditas tradicionais. A mulher ocupa o lugar a que tem direito, como o homem já teve direito, num passado mais distante, a reivindicar a liberdade (ainda não há muitas décadas era legal a escravatura entre os mais «civilizados» povos e o racismo era letra de lei); as crianças e os idosos ganharam direito de cidadania; os casais ganharam direito ao divórcio, em casamentos falhados ou perversos que não respeitem a dignidade dos esposos; os deficientes lutam pelos seus espaços; a orientação sexual de cada um vai conseguindo respeito e direitos para a sua diferença; as opções religiosas e filosóficas são respeitadas e propostas como um direito inalienável de cada pessoa humana...
O mundo clama, neste preciso momento, pela libertação do chinês Nobel da Paz 2010 e da Iraniana (adúltera, diz o Corão) condenada à lapidação. Sinal dos novos tempos.
Hoje, como nunca, as pessoas exigem ser respeitadas no interior das instituições em que o homem se organiza para viver em sociedade. E as fronteiras cavadas entre as nações já não são obstáculo ao apelo para a dignificação da pessoa humana.
Em lugar da uniformização de todos pela lei, começa a emergir a harmonização entre todos, pelo respeito de cada pessoa na sua especificidade. Até já se fala no projecto dos fármacos personalizados.
Num mundo cada vez mais globalizado e de produção em série, este assomo de dignidade individual funciona como precioso e poderoso antídoto, apesar de provocar um tremendo sobressalto nas mentes «conservadoras», porque «desregula» o que sempre foi considerado «lei divina» ou «lei natural» e, como tal, intocáveis. A dignidade para todos e cada um está para além desses padrões sagrados e intocáveis. Sagrado mesmo, só a pessoa consciente e única.
E neste sentido já se ouve, um pouco por todo o lado, aquilo que nunca deveria ter sido deixado de proclamar, e que há muitos séculos foi evangelizado: o “sábado” foi feito para o homem e não o homem para o “sábado”. Modernamente diz-se: PRIMEIRO ESTÃO AS PESSOAS. E agora, cientificamente, acrescenta-se: cada uma delas ÚNICA E IRREPETIVEL.
Lá se foi, de vez, o «sangue azul» para o galheiro, mais a «raça», o «sexo forte» e outras tralhas dos profetas da sub-condição humana...dos outros!
E aqui ocorre-me recordar outra das maravilhas do pensamento cristão: «A lei mata e o espírito dá a vida».
A uniformização pela lei postula, por assim dizer, a irresponsabilização do indivíduo face ao seu destino. E, desse modo, mata mesmo, reduzindo o homem a um autómato sem futuro, que responde perante uma lei e não perante a consciência da sua dignidade e da dignidade dos outros.
Seria tão fácil, em teoria, criar uma sociedade de autómatos, impondo leis rígidas e universais, a que todos e cada um se sujeitassem. Mas o desafio que temos pela frente é infinitamente mais aliciante, que é fazer emergir a pessoa humana em todo o esplendor das suas capacidades. Que é o mesmo que dizer, criar uma sociedade baseada na harmonia de muitos (sons e pessoas) em vez de uma sociedade projectada para a fusão de todos num monstruoso grito monocórdico, resultante de uma “regulação” até ao absurdo.
Os cristãos acreditam numa Divindade plural (Trindade, dizem eles) e pensam uma sociedade à sua imagem e semelhança. Acompanho-os apenas até às portas do céu da sua fé porque, para me fazer sonhar com o infinito, já me basta o universo como ele é e o mundo que nós somos.
(publicado, hoje, in aaacarmelitas)
De facto «eles» já não comem tudo. Pelo menos já não nos comem as papas em cima da cabeça, como diz o ditado.
A consciência cívica, em crescendo, veio para ficar e as reivindicações das pessoas, também elas em crescendo, aí estão para o confirmar. Depois de uma vida mais longa, reivindica-se uma velhice de qualidade; como depois da democracia, se reivindica uma democracia mais aprofundada. Subindo um degrau na escala do crescimento, aspira-se a subir o degrau seguinte.
Isto assusta os que estão bem ou razoavelmente bem instalados (os tais que «comem tudo e não deixam nada»), talvez com medo que o bolo não chegue para todos. O bolo da oportunidade da formação, da excelência da saúde, do bem-estar, da felicidade.
Curioso é que, não raro, vamos encontrar do mesmo lado da trincheira os tais que querem «comer tudo» e os que falam do homem como ser único e irrepetível.
Onde é que está a dissonância?
Acontece que os defensores de um humanismo radical, e ainda bem que o são, esquecem, frequentemente, por conveniência ou outro motivo qualquer, que todos os seres humanos, e não só «eles» ou uma certa elite, são de facto únicos e irrepetíveis e, como tal, credores da mais alta distinção. E isso vem a lume, às vezes de forma brutal, quando a sociedade é confrontada e tem de pronunciar-se sobre as chamadas «realidades fracturantes». Entre nós, o exemplo mais recente foi a discussão em torno do casamento entre homossexuais.
Não adianta remar contra a maré, porque os sinais dos tempos são bem claros no prenúncio de um Homem Novo que começa a fazer impor, em todos os domínios e por todo o lado, a sua nobilíssima condição de ser único e irrepetível, porque dela está cada vez mais consciente.
Únicos e irrepetíveis pela biologia, pela psique e pela consciência que vão construindo.
Este autêntico "despertar dos mágicos" está a provocar verdadeiras convulsões nas sociedades ditas tradicionais. A mulher ocupa o lugar a que tem direito, como o homem já teve direito, num passado mais distante, a reivindicar a liberdade (ainda não há muitas décadas era legal a escravatura entre os mais «civilizados» povos e o racismo era letra de lei); as crianças e os idosos ganharam direito de cidadania; os casais ganharam direito ao divórcio, em casamentos falhados ou perversos que não respeitem a dignidade dos esposos; os deficientes lutam pelos seus espaços; a orientação sexual de cada um vai conseguindo respeito e direitos para a sua diferença; as opções religiosas e filosóficas são respeitadas e propostas como um direito inalienável de cada pessoa humana...
O mundo clama, neste preciso momento, pela libertação do chinês Nobel da Paz 2010 e da Iraniana (adúltera, diz o Corão) condenada à lapidação. Sinal dos novos tempos.
Hoje, como nunca, as pessoas exigem ser respeitadas no interior das instituições em que o homem se organiza para viver em sociedade. E as fronteiras cavadas entre as nações já não são obstáculo ao apelo para a dignificação da pessoa humana.
Em lugar da uniformização de todos pela lei, começa a emergir a harmonização entre todos, pelo respeito de cada pessoa na sua especificidade. Até já se fala no projecto dos fármacos personalizados.
Num mundo cada vez mais globalizado e de produção em série, este assomo de dignidade individual funciona como precioso e poderoso antídoto, apesar de provocar um tremendo sobressalto nas mentes «conservadoras», porque «desregula» o que sempre foi considerado «lei divina» ou «lei natural» e, como tal, intocáveis. A dignidade para todos e cada um está para além desses padrões sagrados e intocáveis. Sagrado mesmo, só a pessoa consciente e única.
E neste sentido já se ouve, um pouco por todo o lado, aquilo que nunca deveria ter sido deixado de proclamar, e que há muitos séculos foi evangelizado: o “sábado” foi feito para o homem e não o homem para o “sábado”. Modernamente diz-se: PRIMEIRO ESTÃO AS PESSOAS. E agora, cientificamente, acrescenta-se: cada uma delas ÚNICA E IRREPETIVEL.
Lá se foi, de vez, o «sangue azul» para o galheiro, mais a «raça», o «sexo forte» e outras tralhas dos profetas da sub-condição humana...dos outros!
E aqui ocorre-me recordar outra das maravilhas do pensamento cristão: «A lei mata e o espírito dá a vida».
A uniformização pela lei postula, por assim dizer, a irresponsabilização do indivíduo face ao seu destino. E, desse modo, mata mesmo, reduzindo o homem a um autómato sem futuro, que responde perante uma lei e não perante a consciência da sua dignidade e da dignidade dos outros.
Seria tão fácil, em teoria, criar uma sociedade de autómatos, impondo leis rígidas e universais, a que todos e cada um se sujeitassem. Mas o desafio que temos pela frente é infinitamente mais aliciante, que é fazer emergir a pessoa humana em todo o esplendor das suas capacidades. Que é o mesmo que dizer, criar uma sociedade baseada na harmonia de muitos (sons e pessoas) em vez de uma sociedade projectada para a fusão de todos num monstruoso grito monocórdico, resultante de uma “regulação” até ao absurdo.
Os cristãos acreditam numa Divindade plural (Trindade, dizem eles) e pensam uma sociedade à sua imagem e semelhança. Acompanho-os apenas até às portas do céu da sua fé porque, para me fazer sonhar com o infinito, já me basta o universo como ele é e o mundo que nós somos.
(publicado, hoje, in aaacarmelitas)
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Da Solidão e da Liberdade
Da Solidão e da Liberdade
É frequente ouvir-se que a solidão é um subproduto do «progresso». Parece-me ver, por detrás deste pensamento, a nostalgia do passado e o receio da «novidade». Pior ainda, pretende-se, talvez, fazer crer que «antigamente» havia menos solidão e, como em todo o pensamento “conservador”, propõe-se o regresso ao passado, para reencontrar, outra vez e sempre, o «paraíso perdido». Uma certa psicologia “apressada” e imediatista interpreta este fascínio pelo passado como o desejo íntimo e oculto do regresso à protecção e aconchego da nossa vida intra-uterina.Pode ser, mas não é tudo.
É tão fácil «perder o pé» quando pensamos ter compreendido a complexidade e riqueza da floresta, lançando um simples olhar pela copa das suas árvores.
Segundo penso, a solidão é o resultado da crescente consciencialização do homem. É, por assim dizer, uma das muitas pesadas e abençoadas facturas que temos de pagar pelo grau de evolução que atingimos, traduzida na complexidade assombrosa do nosso cérebro, que nos proporciona uma vida consciente em grau único entre os seres vivos. Eu falei em «factura pesada e abençoada», porque esta dádiva ambivalente traz-nos a alegria e a tristeza, o sofrimento e o prazer, o sentimento de liberdade e de dependência, o sonho e o desencanto, a fé e a descrença. E, sobretudo, dá-nos a noção sentida da vida e da morte.
Como se todos estes sentimentos e pensamentos fossem coisa pouca, bem no fim das nossas aventuras e desventuras emerge a solidão, um sentimento que se nos afigura insuperável e nos deixa face a face com o universo. Literalmente. Quase me apetece dizer: felizes os que não atingiram este grau de consciência e permanecem no limbo de uma semi-consciência, deixando-se conduzir pelos automatismos biológicos e psíquicos.
Apetece-me, mas não digo, porque nada é mais exaltante que o sentimento de liberdade que tal consciência desperta em nós. Seria condescender com a regressão evolutiva, numa clara “desfeita” ao brilhantismo da nossa mente. Aceito a novíssima realidade, mesmo quando isso significa ter de caminhar para a morte de “olhos abertos”.
Mais consciente ou menos conscientemente é quando se atinge este patamar que se começa a sofrer a solidão. De novo a dupla face da moeda da vida: exaltação pela “descoberta” e sofrimento por nos sentirmos sozinhos, únicos e irrepetíveis.
Liberdade e solidão, dois sentimentos entrelaçados, que são a nossa marca distintiva.
Eu concluo que, se a solidão está a flagelar, como nunca, a nossa sociedade, isso significará um progresso na consciencialização e, consequentemente, uma humanização crescente da sociedade.
É claro que fica mais um problema para resolver, como se não bastassem a fome, a doença, a violência dos elementos da natureza, o medo do desconhecido, a incerteza do futuro e a própria morte.
Morrer já é muito duro. Morrer só, deve ser sofrimento supremo.
Dar-nos conta de que o problema existe e é grave e profundo, poderá ser o primeiro passo para a sua resolução.
Por mais inacreditável que possa parecer, temos bem à mão um poderoso lenitivo, senão a cura definitiva da solidão: o amor. Na verdade, só a morte é que não tem remédio. Aguardá-la com o coração aconchegadinho no regaço do nosso amor faz-nos perceber que quem vai continuar a sofrer são os que ficam...
É quando a saudade se faz parte da nossa vida e quando pouco mais podemos fazer e dizer que Camões:
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste
É frequente ouvir-se que a solidão é um subproduto do «progresso». Parece-me ver, por detrás deste pensamento, a nostalgia do passado e o receio da «novidade». Pior ainda, pretende-se, talvez, fazer crer que «antigamente» havia menos solidão e, como em todo o pensamento “conservador”, propõe-se o regresso ao passado, para reencontrar, outra vez e sempre, o «paraíso perdido». Uma certa psicologia “apressada” e imediatista interpreta este fascínio pelo passado como o desejo íntimo e oculto do regresso à protecção e aconchego da nossa vida intra-uterina.Pode ser, mas não é tudo.
É tão fácil «perder o pé» quando pensamos ter compreendido a complexidade e riqueza da floresta, lançando um simples olhar pela copa das suas árvores.
Segundo penso, a solidão é o resultado da crescente consciencialização do homem. É, por assim dizer, uma das muitas pesadas e abençoadas facturas que temos de pagar pelo grau de evolução que atingimos, traduzida na complexidade assombrosa do nosso cérebro, que nos proporciona uma vida consciente em grau único entre os seres vivos. Eu falei em «factura pesada e abençoada», porque esta dádiva ambivalente traz-nos a alegria e a tristeza, o sofrimento e o prazer, o sentimento de liberdade e de dependência, o sonho e o desencanto, a fé e a descrença. E, sobretudo, dá-nos a noção sentida da vida e da morte.
Como se todos estes sentimentos e pensamentos fossem coisa pouca, bem no fim das nossas aventuras e desventuras emerge a solidão, um sentimento que se nos afigura insuperável e nos deixa face a face com o universo. Literalmente. Quase me apetece dizer: felizes os que não atingiram este grau de consciência e permanecem no limbo de uma semi-consciência, deixando-se conduzir pelos automatismos biológicos e psíquicos.
Apetece-me, mas não digo, porque nada é mais exaltante que o sentimento de liberdade que tal consciência desperta em nós. Seria condescender com a regressão evolutiva, numa clara “desfeita” ao brilhantismo da nossa mente. Aceito a novíssima realidade, mesmo quando isso significa ter de caminhar para a morte de “olhos abertos”.
Mais consciente ou menos conscientemente é quando se atinge este patamar que se começa a sofrer a solidão. De novo a dupla face da moeda da vida: exaltação pela “descoberta” e sofrimento por nos sentirmos sozinhos, únicos e irrepetíveis.
Liberdade e solidão, dois sentimentos entrelaçados, que são a nossa marca distintiva.
Eu concluo que, se a solidão está a flagelar, como nunca, a nossa sociedade, isso significará um progresso na consciencialização e, consequentemente, uma humanização crescente da sociedade.
É claro que fica mais um problema para resolver, como se não bastassem a fome, a doença, a violência dos elementos da natureza, o medo do desconhecido, a incerteza do futuro e a própria morte.
Morrer já é muito duro. Morrer só, deve ser sofrimento supremo.
Dar-nos conta de que o problema existe e é grave e profundo, poderá ser o primeiro passo para a sua resolução.
Por mais inacreditável que possa parecer, temos bem à mão um poderoso lenitivo, senão a cura definitiva da solidão: o amor. Na verdade, só a morte é que não tem remédio. Aguardá-la com o coração aconchegadinho no regaço do nosso amor faz-nos perceber que quem vai continuar a sofrer são os que ficam...
É quando a saudade se faz parte da nossa vida e quando pouco mais podemos fazer e dizer que Camões:
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste
terça-feira, 5 de outubro de 2010
A Vida Consciente
Já encomendei o livro de António Damásio, «O Livro da Consciência», escrito originalmente em inglês e com o título bem mais sugestivo, conforme afirmou o próprio, numa entrevista televisiva, «Self Comes to Mind».
Quem já leu diz que, nesta obra, António Damásio continua a desmistificar a ideia de que a consciência é algo separado do corpo e apresenta novas evidencias cientificas de que a consciência é, na verdade, resultado de um processo biológico criado pelo cérebro. Há, porém, que ter muito cuidado com afirmações “redondas” como esta. Acabei de ouvir da boca do próprio António Damásio (na referida entrevista) que a consciência é «um processo» individualizado. Não existe modelo para ser copiado por cada um de nós e é cada um de nós que constrói a sua consciência, como quem faz uma partitura de uma sinfonia. Esta ideia de António Damásio vem ao encontro de uma outra já mil vezes anunciada de que, na nossa individualidade, somos únicos e irrepetíveis.
Da mesma entrevista retive que Damásio vê pela frente um longo caminho a percorrer antes de compreendermos os mistérios que continuam a envolver a emergência do prodígio que é o nosso cérebro e a consciência que ele possibilita. E cita, a propósito, o autor desta afirmação: «O que não consigo construir não consigo compreender»
Para mim a consciência é dos temas que mais me fascinam, porque é por ela que transcendemos o tempo e o espaço. «Transcendemos» no sentido que Damásio dá a este termo, como capacidade de olhar, consciente e criticamente, o passado e planear o futuro.
Há dias, eu escrevia a um amigo que, no dia em que o homem conseguir construir um ser vivo e consciente («à nossa maneira») nesse dia estamos a criar a intemporalidade, porque o que nos falta é um «suporte físico» que transcenda (no sentido de Damásio) o tempo e o espaço de uma vida. Com efeito, na situação presente, a mente «vai» para trás ou para a frente, mas a estrutura cerebral que possibilita a viagem não está equipada para a acompanhar e queda-se, exausta, ao fim de umas dezenas de anos, num espaço limitado. É o muro intransponível da morte individual. Intransponível, mas cada vez mais empurrado em direcção ao futuro.
Não vale dizer que a consciência humana existe como realidade universal, independente do individuo, porque a sua existência provem do individuo e não o contrário, como pretendem fazer crer as filosofias da Nova Era, repetindo, no fundo, o platonismo e o cartesianismo, quando afirmam que «não é o nosso cérebro que cria a nossa mente, mas a mente que cria o nosso cérebro». Por ser precisamente ao contrário é que nos perdemos no abismo da morte, ainda sem solução. E não restam dúvidas que, se morressem todos os indivíduos conscientes, desaparecia a consciência da face da terra.
Outra coisa é dizer «enquanto há vida, há esperança» ou enquanto há consciência há esperança. Mesmo que não seja mais que a fé dos crentes ou ficção científica.
Entretanto, há que meter os pés ao caminho, como faz António Damásio no silêncio dos laboratórios e na partilha que faz dos resultados do seu trabalho, com esta publicação.
E aqui chegados, há uma outra consideração que tem de ser feita. A alegria, o amor e a arte constituíram-se como verdadeira paixão do homem consciente, pelo que a construção da «imortalidade» tem que estruturar-se na base dessa paixão. Pessoalmente, não me seduz uma imortalidade desgraçada, solitária e feia. Ainda que, mesmo assim, seja melhor que nada…
Quem já leu diz que, nesta obra, António Damásio continua a desmistificar a ideia de que a consciência é algo separado do corpo e apresenta novas evidencias cientificas de que a consciência é, na verdade, resultado de um processo biológico criado pelo cérebro. Há, porém, que ter muito cuidado com afirmações “redondas” como esta. Acabei de ouvir da boca do próprio António Damásio (na referida entrevista) que a consciência é «um processo» individualizado. Não existe modelo para ser copiado por cada um de nós e é cada um de nós que constrói a sua consciência, como quem faz uma partitura de uma sinfonia. Esta ideia de António Damásio vem ao encontro de uma outra já mil vezes anunciada de que, na nossa individualidade, somos únicos e irrepetíveis.
Da mesma entrevista retive que Damásio vê pela frente um longo caminho a percorrer antes de compreendermos os mistérios que continuam a envolver a emergência do prodígio que é o nosso cérebro e a consciência que ele possibilita. E cita, a propósito, o autor desta afirmação: «O que não consigo construir não consigo compreender»
Para mim a consciência é dos temas que mais me fascinam, porque é por ela que transcendemos o tempo e o espaço. «Transcendemos» no sentido que Damásio dá a este termo, como capacidade de olhar, consciente e criticamente, o passado e planear o futuro.
Há dias, eu escrevia a um amigo que, no dia em que o homem conseguir construir um ser vivo e consciente («à nossa maneira») nesse dia estamos a criar a intemporalidade, porque o que nos falta é um «suporte físico» que transcenda (no sentido de Damásio) o tempo e o espaço de uma vida. Com efeito, na situação presente, a mente «vai» para trás ou para a frente, mas a estrutura cerebral que possibilita a viagem não está equipada para a acompanhar e queda-se, exausta, ao fim de umas dezenas de anos, num espaço limitado. É o muro intransponível da morte individual. Intransponível, mas cada vez mais empurrado em direcção ao futuro.
Não vale dizer que a consciência humana existe como realidade universal, independente do individuo, porque a sua existência provem do individuo e não o contrário, como pretendem fazer crer as filosofias da Nova Era, repetindo, no fundo, o platonismo e o cartesianismo, quando afirmam que «não é o nosso cérebro que cria a nossa mente, mas a mente que cria o nosso cérebro». Por ser precisamente ao contrário é que nos perdemos no abismo da morte, ainda sem solução. E não restam dúvidas que, se morressem todos os indivíduos conscientes, desaparecia a consciência da face da terra.
Outra coisa é dizer «enquanto há vida, há esperança» ou enquanto há consciência há esperança. Mesmo que não seja mais que a fé dos crentes ou ficção científica.
Entretanto, há que meter os pés ao caminho, como faz António Damásio no silêncio dos laboratórios e na partilha que faz dos resultados do seu trabalho, com esta publicação.
E aqui chegados, há uma outra consideração que tem de ser feita. A alegria, o amor e a arte constituíram-se como verdadeira paixão do homem consciente, pelo que a construção da «imortalidade» tem que estruturar-se na base dessa paixão. Pessoalmente, não me seduz uma imortalidade desgraçada, solitária e feia. Ainda que, mesmo assim, seja melhor que nada…
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