quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Homem-Apenas

Penso que esta questão do "homem-espiritual" ou do homem-apenas-homem só ficará resolvida quando formos capazes de criar a consciência humana. Até lá são-nos permitidas todas as divagações e alienações.O aparecimento ou descoberta de seres extra-humanos, conscientes como nós, teria o mesmo efeito esclarecedor.


Construir e desconstruir a consciência humana será um choque medonho. Aí perceberemos não só quais são as nossas verdadeiras capacidades mas também as nossa limitações. Porque uma coisa é pensar nelas simplesmente, assim como se fosse uma hipótese de trabalho, outra coisa é sermos confrontados com os nossos poderes e fraquezas desmesurados e descobrirmo-nos como verdadeiros deuses com pés de barro.

7 comentários:

  1. O Metzinger é um tipo metido até aos cabelos no tema da Consciência. Mas, de forma aparentemente paradoxal, um cientista que até advoga o uso de substâncias psicotrópicas como forma de exploração da consciência (questão certamente polémica) é particularmente cauteloso quanto à possibilidade de se criar seres conscientes. Não contesta a exequibilidade: contesta a moralidade do acto. E o critério de moralidade? O sofrimento criado. Para MEtzinger, em face do que já vemos por aí, novas consciências gerarão mais sofrimento, não menos. Um pessimista? Eu até sou optimista, mas os problema é que os factos não suportam o meu optimismo.

    Aqui está uma análise ao pensamento do Metzinger, em inglês: http://www.naturalism.org/metzinger.htm

    Tradução automática (com as fragilidades conhecidas)
    http://translate.google.pt/translate?sl=en&tl=pt&js=n&prev=_t&hl=pt-PT&ie=UTF-8&layout=2&eotf=1&u=http%3A%2F%2Fwww.naturalism.org%2Fmetzinger.htm

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  2. A que tipo de sofrimento se refere Metzinger? Considera o sofrimento físico independemente do sofrimento "moral"? Faço a pergunta porque o "homem consciente" criado pela ciência poderia ser imune à dor física (grande sarilho, se pensarmos que podemos deixar arder uma mâo no fogo, por não termos recebido o choque-aviso pela dor...).
    Se nâo se refere à dor física que nos avisa de um atentado contra a integridade física, refere-se a que tipo de dor? Angústia metafísica?
    Notemos que o climax da dor física é atingido quando a ameaça à integridade física é total: a dissoluçâo na morte.
    Podemos considerar, a sério, outro tipo de sofrimento, abstraindo desta realidade inelutável? E qual será o "estado de espirito" de alguém imune à dor física e à "morte física"? Podemos imaginar que para uma pessoa que não se "interessa" por nada, a imunidade à dor e à morte pode transformar-se num imenso tédio. Mas pensemos num Mozart, num Newton, num Einstein ou qualquer outro criador/investigador. Como reagiriam diante da perspectiva de uma longevidade sem fim à vista?
    Nâo teremos de referir a consciência ao conhecimento e à criatividade, em vez de a relacionar com o sofrimento?
    Alguém vai ficar angustiado por ter diante de si um mundo de infinitas possibilidades para explorar? O que nos angustia não será mesmo a consciência da dissolução na morte?
    Penso que deveriamos ficar preocupados com o facto de sermos capazes de criar a consciência, sem resolver a fatalidade da morte.

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  3. Não os divide em dois tipos de sofrimento. Sofrimento será sempre um desvio da homeostasia, qualquer que seja a sua natureza. A compensação desse desvio da homeostasia é também o gatilho para a acção. Não admiras, portanto, que digas que os budistas são inertes: quem tiver todos os seus problemas resolvidos, não tem razões para agir. Raciocínio interessante, embora dependa do facto de haver "alguém" para agir... eh, eh .

    A questão da fuga completa à mortalidade é complicada: a entropia do Universo está sempre a aumentar... no limite, não pode haver fuga.

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  4. Exactissimamente: anular o "eu" é a fase derradeira para atingir a iluminação, isto é, quando já não existe "alguém" para agir. O povo, na sua sabedoria, haveria de sentenciar: "morre o bicho e acaba a peçonha".
    Não quero dizer que não seja assim mesmo e que aquele "eu" tão arduamente construido desde que começamos a ver a luz do dia (e ainda antes), acabe desconstruido e com ele todos os nossos sonhos e sofrimentos. Acaba por ser a MORTE em outra forma de aproximação e concretização. Consentida, procurada, antecipada. Faltando mesmo só fechar os olhos. O budismo seria, em última análise, aprender a morrer.
    E morrer é tudo o que eu não quero. Gosto tanto de mim! E de estar com os "meus amores"! Apegos, eu sei.

    Caindo na real, temos de considerar a desmancha-prazeres da entropia. Só faltava esta "espalha-brasas" revelar-se, quando começavamos a sonhar com a infinita harmonia do nosso Universo.
    É a vida...

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    1. Olha que eu fechei a porta mas deixei uma fresta aberta na janela: a "mortificação" só é estratégia de fuga para quem acredita no "eu". Assim, um "eu" anulado é a solução de todos os problemas. Ora isto não é senão outra forma de apego ao "eu": a convicção de que existe, e de que há que anulá-lo. Não se trata disto, o budismo. Não há eu, nem há nada para anular. Daí que a acção deva simplesmente discorrer, sem apegos a mais, nem a menos. Eis a Via do Meio.

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  5. Não será, propriamente "sem apegos a mais , nem a menos"; terá de ser sem apego algum, porque não existe seja o que for para "apegar-se" seja a o que for para percorrer o "caminho do meio".
    Também não se pode falar propriamente de uma acção que "deva simplesmente discorrer". Porque acção implica um agente activo, que contraria o espontaneo fluir (da energia, luz, ser?).
    Assim até fica dificil falar em "caminho do meio", que supõe um caminho à direita e outro à esquerda.
    Qualquer palavra atraiçoa a "iluminação". Iluminação?!
    Acto de iluminar puro e simples?
    Só pode ser; de outro modo implicava um (que?) iluminado.

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  6. "E o quarto (passo)é a consciência suprema que liberta. Torna-se consciência da sua própria consciência -que é a quarta. Esta faz um buda, o despertado. E somente neste despertar é que cada qual sabe o que é a bem-aventurança.
    (...)E muito lentamente, à medida que o observador se torna cada vez mais sólido, mais estável, menos vacilante, ocorre uma transformação. As coisas que observavas desaparecem.
    Pela primeira vez, o próprio vigilante passa a ser vigiado, o próprio observador passa a ser o observado".
    (In Osho - Meditação, a Primeira e última liberdade).
    Sempre que leio algo deste género não consigo ir além do fenómeno mais que identificado da autoconsciência, em que cada um de nós se torna transparente e presente a si próprio, parcialmente, muito parcialmente, porque há uma zona no subconsciente e no nosso inconsciente de dificil acesso ou de acesso inetrmitente.
    Iluminação será mais do que este olhar sobre nós próprios? Será que ficamos fascinados com este verdadeiro prodigio de sermos conscientes da consciência? O que há mais, Luis?

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