Quando se fala em "aclarar as ideias", não se está a dizer tudo e sequer a falar do essencial. Na verdade, o que é mesmo fundamental é aprofundar os nossos conhecimentos em todas as "direcções" e só então tem lugar o esclarecimento das ideias, à luz dos novos factos. Este esclarecimento é sempre uma confrontação das novas ideias com as anteriores.
Na prática, significa que nós não andamos à procura de ideias novas mas de factos novos. Isto também quer dizer que o nosso conhecimento da realidade só avança, efectivamente, quando descobrimos novos factos. As ideias serão sempre, e sempre foram, interpretação dos factos. O processo nunca é o inverso. Ou seja, a ciência precede a filosofia. Podemos dizer que o primeiro momento da filosofia é a experiência dos sentidos, porque esta experiência nos proporciona a primeira informação.
Quando a filosofia quebra esta sequência do processo cognitivo humano, inventa uma transcendência, digamos, extra-sensorial e, por isso mesmo, extra-cientifica. Os "espiritualistas" dizem que é válido este salto no conhecimento humano e os seus contestatários recusam, liminarmente, dar-lhes razão.
Aqui chegados, está na hora de aclarar as ideias.
No meu entender, esta discussão (aclarar as ideias) faz-se à margem dos factos ou, simplesmente, a partir dos factos conhecidos (ninguém nega a gravitação dos astros e planetas) acerca do enigma persistente e inabarcável da REALIDADE.
Uma nova descoberta científica irá determinar uma nova interpretação da REALIDADE. Apenas "uma nova" interpretação e não a INTERPRETAçÃO.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Eu costumo dizer ao meu filho (que é diabo de esperto, passo a modéstia, se alguma devesse ter a respeito), que, por muito esperto que seja, há muitas situações em que, por mais que dê voltas à cabeça, não chegará a nenhuma conclusão de jeito enquanto não conhecer os factos.
ResponderEliminarMuito bem dito. Einstein devia ter bem presente isso mesmo quando afirmava que "nós não construimos as leis da física", mas sómente temos a capacidade de as descobrir e reproduzir. Uma nova descoberta é um facto novo, mas só no sentido da descoberta e reprodução do "fenómeno" e não da sua criação a partir do nada...
ResponderEliminarPenso que foi aqui que começou a divergência entre Einstein e a física quantica e quando os homens da ciência bateram de frente contra o enigma da origem do universo, perguntando, tanto a ciência como a filosofia, porque este FACTO É -o UNIVERSO- em vez de NAO SER.
E cá temos nós, em primeirissimo lugar, O FACTO.
O desassossego introduzido pelos teóricos da física quantica parece consistir na sugestão de que a descoberta-explicação-compreensão do FACTO é ela própria um facto, e um facto criador, como se o homem começasse a exercer o papel de "Logos Criador" (literalmente, palavra ou pensamento que cria) e que foi,desde sempre, privilégio exclusivo da Divindade. Com efeito, dá para perceber um certo paralelismo entre o papel do "observador" quantico e a figura tradicional religiosa do Deus Criador.
Nesta linha de pensamento começa a evidenciar-se a convicçâo de que só compreenderemos um facto quando formos capazes de o realizar, construindo-o e reproduzindo-o, como já vão dizendo os neurocientistas acerca da mente consciente: só a compreenderemos e explicaremos quando formos capazes de construir uma. E mesmo assim não teremos a certeza do que se passará no seu íntimo, porque uma vez criada ficará tão impenetrável como a do seu criador. Ele, Tu, EU.
Isto é levado da breca!
No teu post há varias afirmações que me interpelam. Não digo que as contesto, porque me seria difícil evidenciar a constestacão, tendo em conta a ligeireza da minha bagagem “filosófica“. Mas quando afirmas: “Na prática, significa que nós não andamos à procura de ideias novas mas de factos novos.”; “... a ciência precede a filosofia”, fica-me a ideia que há aqui qualquer coisa a esclarecer.
ResponderEliminarSe é certo que os factos são o que são, e não resultam de ideias, (será mesmo assim?), as ideias estão na origem da maior parte de tudo o que o homem tem “criado” através dos tempos. Uma obra, antes de ser realizada é idealizada. A ideia, aqui precede “os factos”.
No caso de: “a ciência precede a filosofia”, tenho a ideia que nem sempre é assim. Quando a filosofia assenta no real, talvez, mas o próprio da filosofia é precisamente de navegar em campos meramente conceptualizados e ideológicos.
Estou fora do contexto do teu post?
Não estás nada fora do contexto do post. Mas agora repara numa coisa, Lima: o que resulta dos nossos "projectos", seja uma ideia, uma catedral, uma sinfonia ou um tratado filosófico sâo, fundamentalmente, "artefactos". O facto em si é o autor e os materiais "trabalhados" por este, sejam pedras e tintas, sejam palavras e conceitos. Claramente, este autor de pensamentos e projectos não é, no limite, ideia e projecto de si mesmo. E esse limite é quando nós nos percebemos intrinsecamente ligados ao TODO UNIVERSAL que verbalizamos e objectivamos. Compreendendo-nos como parte intrínseca desse TODO, nós dizemos, com lucidez e propriedade, que somos sujeito e objecto de nós mesmos. Neste sentido, e porque somos parte activa e consciente do FACTO UNIVERSAL (digamos assim) também podemos dizer que, de alguma forma bem real, somos artefacto de nós próprios. E assim falamos em "realizar-nos", no "projecto de uma vida" etc... como se estivéssemos inacabados e em construção.
ResponderEliminarAqui chegados, outro enigma se nos depara: é que estamos mesmo inacabados e nem fazemos ideia de como será o fim da construção. Venham, pois, os factos novos, a ver se conseguimos perceber o curso da obra.
Nem importa assim tanto saber se a ciência precede a filosofia ou se é ao contrário; o que não se deve fazer é dissociar uma da outra, como se filósofos e cientistas estivessem a lidar com mundos diferentes.
Tenho que te agradecer, porque tens sempre à mão um fósforo para acender a minha lanterna!
ResponderEliminarMas a tua última frase deixa-me outra vez na dúvida. Ė que filosofia e ciência, ia jurar que são mesmo “mundos” diferentes, ou pelo menos rivais.
Não é mais ou menos isso que dizem os sabidos aqui:
http://philo.pourtous.free.fr/Atelier/Textes/philo_et_science.htm
Já li imenso sobre a "guerra" entre filosofia e ciência. A porfiada tentativa de separar filosofia e ciência aconteceu com o desenvolvimento consistente da ciência, a partir do século dezasseis.
ResponderEliminarAs perguntas fundamentais da filosofia são: donde viemos, quem somos e para onde vamos? No limite, são as perguntas sobre a origem e a "ultimidade" do SER.
Na sociedade pre-científica, a resposta provinha segura e inquestionável da fé em Deus, o Alfa e o Ómega, o Criador e o Fim Último.
O homem, mesmo o filósofo grego, desistiu de chegar à Verdade, por reconhecer a sua absoluta insuficiência perante os mistérios que o envolviam, concluindo que quanto mais conhecia, mais compreendia como estava longe da Verdade.
De modo que a resposta àquelas perguntas permaneceria para sempre no segredo de Deus.
Sabemos como as religiões resolveram esse problema, inventando as "conversas" com Deus em pessoa, transcritas, depois, nos livros sagrados da "revelação divina".
Com o advento da era ciência, a Verdade divina da "Revelação" foi desacreditada, não por filósofos, mas pelos homens da ciência. Neste período surgiu o ateísmo filosófico, como uma espécie de subproduto da verdade científica . Estes filósofos seguiram sempre na peugada das descobertas científicas, tentando interpretar os factos novos revelados pela ciência, convencidos de que a resposta definitiva às perguntas fundamentais da filosofia estão dependentes da evolução da ciência. Neste contexto do ateísmo filosófico, a consciência de que a resposta não chegará no tempo de uma vida, levou-os a fechar o ciclo do seu pensamento, inventando o absurdo, com a mesma facilidade com que as religiões inventaram a Revelação Divina. E ainda por cima consideraram-se na vanguarda do pensamento!
Do outro lado temos os filósofos que recusam esta solução fácil do pensamento ateu do absurdo, que acabam por não saber muito bem ao que andam, aceitando, por um lado, todas as descobertas e verdades científicas e, por outro, contestando que tais descobertas e verdades conduzam àquela Verdade que a filosofia da era pre-cientifica declarou ser "privilégio dos Deuses". Não o dizem expressamente, mas percebe-se que a resposta às perguntas fundamentais do homem só podem provir da Revelação. Acabam sempre por aderir a alguma religião. Como Flew. Não aceitam viver e morrer sem a resposta definitiva à pergunta “ donde vim, quem sou e para onde vou?”, sentindo, mais que pensando, que mais vale uma qualquer resposta, que resposta nenhuma.
Por mim, concluo, Lima, que a discussão parece não ser mais entre filosofia e ciência, mas entre a fé e a ciência. E até chega a parecer que a filosofia já nem é tida nem achada para esta discussão.
Será que a filosofia se tornou uma inutilidade? Não penso tal. Mas estou inclinado a pensar que toma, decisivamente, o lugar reservado tradicionalmente à teologia na interpretação dos novos factos e do novo mundo que se vai revelando ao homem por uma ciência cada vez mais evoluída. Os mitos e as religiões foram a interpretação possível da era pre-cientifica e de uma ciência rudimentar acerca do enigma com que o homem desde sempre foi confrontado. Essa interpretação foi desmontada pela ciência, pedra a pedra e sobrou o mistério denso da Realidade que somos e não restam dúvidas de que é a ciência que rasga os horizontes; a interpretação filosófica vem depois.
Aliás, sempre foi assim: primeiro nascemos e crescemos e depois pensamos sobre o que está a acontecer e como agir face à realidade que se nos apresenta.
Se é de outra forma, alguém me diga como é, que agradeço do fundo da minha ignorância.
Não fosse “... o ateísmo filosófico … inventando o absurdo ...”, não teria mesmo nada para acrescentar.
ResponderEliminarA minha reflexão é esta: a fé racional, proclamada pelo ateísmo filosófico, não tem a mesma legitimidade de qualquer fé irracional?
Pois é, Lima, a filosofia actual balança entre a resposta do «absurdo» e a resposta do «sentido» da existencia. Mas acontece que a resposta do «sentido» só é possivel considerando a tese do «desígnio», que, por sua vez, postula a existencia da transcendencia e Deus. Deste modo retorna-se à filosfia da era pre-cientifica. Foi o percurso de Antony Flew.
ResponderEliminarAfirma-se, entretanto, uma terceira posição, que poderia ser definida como uma espécie de auto-suficiencia do nosso universo, que n
ão postula nem o desígnio, nem o Criador, nem o fim ultimo. Será uma realidade em auto-criação e auto-gestão, em que ciencia e filosofia seguem a par, em perfeita interacção. Reconheço que isto é demadiado exigente para o estádio actual da confiança do homem nas suas capaciadades de realização e bondade. O Deus da bondade ainda faz muita falta a uma humanidade muito imatura e carente da segurança do amor.