segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Rompendo A Muralha

Se não existe um desígnio, nem para o universo nem para o homem, também pouca diferença faz que exista mesmo um, pois a verdade é que não fomos tidos nem achados para que tudo isto tivesse acontecido. E, como tal, não nos diz respeito e, muito menos, nos responsabiliza.
Mas as coisas ganham outra dimensão se nos descobrimos com a capacidade não de compreender como aqui chegamos mas de intervir e até decidir acerca do nosso futuro, ainda que dentro de limites reconhecidos e aceites em cada momento.
Nesta perspectiva, em vez de estarmos dependentes e atados a um problema epistemológico (insolúvel à partida e, portanto, tão fútil quanto inútil)deparamos com a tarefa exaltante da construção do nosso próprio desígnio. Se aparecemos aqui sem um, como indica o evolucionismo de Darwin, nada impede que, na fase da evolução a que o homem chegou, comece a criar o seu próprio destino.
Já imaginaram como é empolgante e motivadora uma tal postura? Seremos o projecto que estamos a criar, num crescendo de consciencialização e empenhamento.
A filosofia e as ciências deverão, em consequencia, concentrar-se na forma como construir o futuro que se for idealizando e sonhando. Agora, sim, como canta o poeta Gedeão:

O sonho comanda a vida
E sempre que o homem sonha
O mundo pula e avança...

E a propósito: recordando estes versos de liberdade pelo sonho, compreendem-se mal aqueles outros versos do mesmo Gedeão, carregados de grilhões deterministas.


Ajuda aí Louis, ajuda aí Lima, nesta reactivação do nosso blog, após umas férias, leituras e reflexões.

10 comentários:

  1. Feliz por te ver de volta Mário!
    E entras a cortar na carne viva...
    O tema é insolúvel... e inútil? Talvez! Mas que ninguém nos proíba de procurar saber... pois só assim podemos construir... o nosso futuro, isto é: o futuro da humanidade.

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  2. Questão deveras pertinente. Oferece-se-me dizer o seguinte: na minha acepção, como sabes, não só é forçoso que o nosso desígnio seja subjectivo, como inclusivamente até o próprio Sujeito desse desígnio é ele próprio subjectivo. Auto-subjectivo, até, palavrão acabado de inventar. Logo, a esse nível, somos inteiramente livres. Livres, porque a imposição do desígnio que escolheremos é a mesma imposição daquilo que nós somos. Ou seja, é por eu ser o que sou que quero o que quero. Não sou livre de escolher o que sou, porque tudo é determinístico - ganha o Gedeão. Mas é aquilo que sou que mais determina o meu próprio destino. E ganha de novo o Gedeão. É a liberdade determinista. Só é um paradoxo quando se confundem os níveis de análise!

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  3. Pois é, Lima, a única forma que vejo para saltar a muralha consiste em dirigir o pensamento do presente para o futuro.Claro que isto é reconhecer e assumir, definitivamente, a nossa finitude. E há outra saída? Não há. Luc Ferry, na sua obra de que te falei (A Revolução do Amor) afirma a propósito da vida e da morte que nós temos de assumir o "ponto de vista finito". Porque, escreve ele "não existe nenhum outro, a menos que se queira cair pesadamente na metafísica dogmatica que acredita poder falar do ponto de vista de Deus ou do "em si". Luc Ferry afirma que sempre que fazemos isto estamos a iludir-nos, assumindo o ponto de vista de Deus,do "em si" ou da "espécie. E isso, diz ele, "é jogar com as palavras".
    Concordo. O meu ponto de vista, o teu, o do Luis ou o de um qualquer Einstein será sempre limitado a nós próprios. E sem nós, enquanto individuos, nunca veria a luz do dia.
    Não está escrito nas estrelas e procede da nossa mente.

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  4. Níveis de análise ou pontos de vista, Luis?

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  5. Luis, deste-me uma pista saborosa, que vou explorar até ao tutano: a subjectividade do desígnio.Na "mouche"!Porque, de facto, só nos interessa o designio onde "EU" esteja.
    Claro que estamos a falar da subjectividade ontológica, a subjectividade que "é" e pensa. Assim, se não nasci, "não estou de forma alguma" e quando estiver morto, "não estarei definitivamente". Sem "mim" não há designio.
    Foi deste jeito, diz Luc Ferry, que se lixou o "desapego" de Buda...Diz Luc e Ferry e não só, que a vida é a construção do "EU" e não a sua desconstruçâo pelo "desapego", até ã fusão na universalidade.
    (Tanto trabalhinho teve o Damasio a explicar como se constrói um sujeito...)

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  6. Eu diria "nível de análise". Porquê? Porque o mesmo fenómeno pode ser observado de várias maneiras, não necessariamente alternativas (o que "pontos de vista" parece sugerir). Ou seja, o meu carro é um objecto. Mas para um mecânico, o meu carro é um monte de peças. Para um fabricante de peças, cada peça é também um agregado qualquer. Enfim, a gente pega no conceito conforme dá jeito.

    Assim, tu visto assim de fora, para mim, és livre. Mas se te analisar por dentro, não és livre, primeiro porque nem sequer "és" (já sabes como sou), mas mesmo esquecendo isso, não és livre porque o teu comportamento está condicionado àquilo que "és". Sem esse condicionamento, não serias "tu". Para seres "tu" não podes ser livre. Para seres livre, não podes ser "tu".

    Se de "ti" tudo se pudesse esperar, como poderia eu distinguir-te de outra coisa qualquer?

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  7. E quem te diz a ti que o meu desejo "mais que tudo" é ser livre? E se eu amar acima de tudo o meu amor, o meu amigo? Que me interessa ser apegado, muito apegado, a tal amor, se isso me fizer feliz?
    E depois, Luis, para que me serviria a perfeita liberdade se não tivesse com quem a partilhar? Ser tão "livre" como um pinheiro "solitário" no seu pinhal não me seduz nem um pouco. Prefiro a presença partilhada, mesmo que um dia tenha de suportar o sofrimento da separação, até da separação definitiva que é a morte.
    Ser livre para amar, para aceitar o sofrimento e ser livre, também, para o superar, como no budismo.
    Enfim, a vida da multipla escolha, tal como a conhecemos e em que cada se constroi como sujeito. Pode ser tão desapegado quanto Buda ou apegadissimo quanto aqui o Mário. E enquanto formos vivos, um desapegado, outro apegado, será essa realidade o nosso "EU". Um sentindo imune ao "ser", outro sentindo que é tudo com que sonhou.
    E o fim da aventura vai chegar inavriavel e fatalmente para os dois, seja lá o que cada um tenha vivido e sentido a vida inteira.
    O apertado abraço da morte leva-nos tudo;até a identidade laboriosamente construida ou desconstruida.
    E não me digas, Luis, que a identidade desconstruida (O "eu")deixou de "ser" num corpo vivo e funcional, fazendo de um "buda" um simples cadaver adiado (que procria?).

    Parece que o budismo só funciona mesmo no pressuposto do homem como dupla substancia.

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  8. De pleno acordo que essa liberdade não é particularmente interessante. Só falei disso porque muita gente dá um grande valor a isso. E a religião faz disso o principal argumento para um "julgamento" feito por uma hipotética Entidade Superior.

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  9. No livro do Matthieu Ricard que ando a ler, ele distingue claramente os aspectos tendencialmente positivos das emoções em que o enfoque não é o "eu". O amor compassivo versus o amor ciumento, a ambição versus a inveja, a resistência à opressão versus o ódio, etc.

    Isto são os aspectos pragmáticos da busca pela felicidade, e bem relevantes que eles são.

    No entanto, no meu entendimento do budismo, e do Zen em particular, a distinção de opostos (como os acima) é vista como uma imposição do ego, já que pressupõe uma perspectiva tendenciosa (porque subjectiva) da realidade. Na compreensão pela mente do aspecto ilusório do ego, e com o treino, as tendências para as emoções mais egocêntricas deixariam de dominar o pensamento.

    Um amor que partilha, em vez de um amor que possui. há aqui um desprendimento que não é total, como vês, será, quem sabe, a justa medida...?

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  10. Exactamente como concluis, embora em forma de pergunta: "Há aqui um desprendimento que não é total...será a justa medida?".
    E o "caminho do meio", acrescentaria eu.
    O desapego "total" corresponderia ao aniquilamento. E o Luc Ferry que acabei de ler, filósofo compatriota do teu Matthieu Ricard, afirma, neste sentido, que nenhum "buda" atingiu o "ideal" do desapego.
    Equivale a dizer que nenhum se "suicidou". Naturalmente, como assinalei no comentário anterior, foi "assassinado" na desconstrução irremediável da estrutura "corpo-cérebro".
    Irremediável velhice e morte. Infelicidade suprema e primeiro motivo de sofrimento, tão profundamente intuido pelo budismo. Nesse sentido diriamos que o budismo, com a sua ascese de desapego, é uma sublime luta contra a "decompsição" fatal do "eu". Como quem murmura para si próprio: "quando me apanhares, desgraçada morte, eu já cá não estarei".
    Mas "está", porque o "desprendimento não é total", como concluis. E eu acrescento que está inteiramente, enquanto lucidamente consciente no corpo-cérebro que o produz e sustenta.
    E foi precisamente esta lucidez sobre um "eu" que teimosamente persiste no incompleto desapego, que gerou uma nova forma e defintiva forma de apego no budismo que foi fazendo história: o convencimento da imortalidade do "eu", agora diluido na universalidade do TODO.
    Tal como o cristianismo (pela ressurreição) sonhou com a imortalidade divina.A diferença é que o cristianismo preserva o integralidade do "eu", acreditando na loucura da reconstrução/transformaçâo prodigiosa do "corpo-cérebro" a que chama "ressurreição da carne". Prodigio divino, evidentemente, obra do mesmo Deus autor da "primeirissima" existencia.
    Claro que eu preferiria mil vezes poder apertar-te os ossos na eternidade, a ser um eu-gota-inerte colada a ti num infinito oceano (impessoal).
    Quer-se dizer, o problema começa e acaba na mente consciente...

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