Não sei se não será mais que uma "nuance". Eu colocava assim a tua frase: "o nosso corpo-cérebro" não luta para preservar o "eu", mas, ao invés, é justamente por construir um "eu" que a sua auto-preservação se tornou mais eficiente".
O corpo-cérebro não "usa" um "eu" mas constrói um "eu". Esta afirmação pressupõe que não existe um "eu" que vai ser "usado" mas um "eu" que as capacidades físicas e biológicas do corpo-cérebro vai construir.
Neste sentido o "eu" será sempre muito mais um projecto que uma determinada realidade. Tem mais sentido de verbo (acção) que substantivo (coisa).
O que não podemos, em momento algum, é pensar um "eu" autónomo do corpo-cérebro.
A neuro ciência e a psicologia insistem cada vez mais na unidade indissolúvel do ser humano e isto significa que "eu" sou o "todo" corpo-cérebro, testemunhado ou "iluminado" pelo fenómeno da mente consciente.
Assim como não existe uma dupla substancia, também não existe o binómio eu/corpo-cérebro.
Aquilo a que nós chamamos as capacidades ou potencialidades do corpo-cérebro constituem o "todo" que a mente consciente identifica como o "eu". Para facilitar, nós dizemos que apenas o ser humano tem capacidade para construir um tal "eu". Anotemos que no próprio ser humano esta construção é progressiva. Incipiente no bebé,, até atingir o pleno desenvolvimento na "idade da razão" (adulto). Mesmo assim, esta extraordinária realidade do "eu" pode ser suspensa temporária ou definitivamente por qualquer disfunção ou acidente. Nos casos extremos de ausência do "eu" dizemos que alguém está reduzido a um vegetal. Nem como animal é identificado, reconhecendo-se, implicitamente, que também o animal tem a sua consciência.
Escusado será dizer que a disfunção total e definitiva é a morte.
A linguagem corrente assente nesta ciência e filosofia antropológicas criou uma expressão extremamente significativa para designar esta realidade: "eu sou o meu corpo".
Entenda-se "corpo-cérebro".
O profundo significado desta afirmação e deste facto ficará mais evidenciado se estabelecermos o paralelo com o contrafacto "eu sou o meu cadáver".
Uma criança, desde muito pequenina, entra no jogo interessantissimo do faz-de-conta. É literalmente brincar ao falso e ao verdadeiro. É brincar com a capacidade humana de inventar.É a emergência do processo criativo. É quando se percebe que podemos ser enganados e enganar os outros. E também enganar-nos a nós próprios.
E foi a brincar ao faz-de-conta que começamos a desenvolver o espírito crítico e a estruturar a nossa personalidade, a nossa identidade.
"Eu sou o meu cadáver" não é um facto mas um contrafacto e nós começamos a perceber isso desde muito crianças. Depois, pela vida fora, constantemente deixamos acordar a criança que há em nós e fizemos a arte, a filosofia e a teologia. Construimos a cultura como quem brinca ao faz-de-conta.
"Eu sou o meu cadáver". Fernando Pessoa di-lo de uma forma deliciosamente "mentirosa" na sua arte de poeta: "cadáver adiado que procria".
Não tens vergonha, homem, com essa idade andar a brincar ao faz-de-conta?
Posso dizer "eu sou o meu corpo" como posso escrever "eu sou o meu cadáver". Mas eu sei e todos sabem do que estou a falar...
sábado, 22 de outubro de 2011
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Esta afirmação pressupõe que não existe um "eu" que vai ser "usado" mas um "eu" que as capacidades físicas e biológicas do corpo-cérebro vai construir.
ResponderEliminar- MAS PARA QUÊ? OU MELHOR, EM QUE CONTRIBUIU PARA A SOBREVIVªência?
"O que não podemos, em momento algum, é pensar um "eu" autónomo do corpo-cérebro."
Ah, pois não. E isso, para algumas pessoas, é uma chatice dos diabos. Temos de reconhecer que ter uma alma poderia dar um jeitão. Eu mandava vir uma para mim, mas tinha de vir à cobrança. No entanto, sem ela, as coisas tornam-se bem mais interessantes: ficam uma série de coisas por explicar, que só podem ter respostas fantásticas. Também é verdade que estes equilíbrios pergunta/resposta para as questões da vida se vão estabelecendo com o conhecimento adquirido, com a vivência, etc.. As chuchas, por exemplo, resolvem grande parte dos problemas de uma pessoa durante um bom par de anos.
Assim como não existe uma dupla substancia, também não existe o binómio eu/corpo-cérebro.
No budismo, o dualismo é fonte e resultado da ignorância. Traduzo da wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Nondualism):
"Não-Si no Budismo é a Não-Dualidade de Sujeito e Objecto, o que é muito explicitamente afirmado pelo Buda em versos tais como "Na visão, há apenas visão. Nem visualizador nem nada visto. Na audição, há apenas, audição. Nenhum ouvinte nem coisa ouvida." (Bahiya Sutta, Udana 1.10). A Não-Dualidade no Budismo não constitui uma fusão com um Brama supremo, mas a realização de que a dualidade de um si/sujeito/agente/observador/fazedor em relação com o objecto/mundo é uma ilusão."
Mas essa noção de um "eu" que não se funde totalmente com o corpo não é descabida, no sentido que há aparentemente razões fortes para que essa concepção nos pareça natural: está gravada indelevelmente no nosso cérebro, no que aparentemente constituiu uma perspectiva útil de encarar o mundo. É como que o "carimbo" usado para demarcar um suposto "interior" de um suposto "exterior". Através dessa demarcação do padrão, o padrão eterniza-se. Pois só pode ser padrão enquanto se demarcar, e quanto mais cautelosamente se demarcar melhor sobrevive.
ResponderEliminarA mente é um instrumento pragmático, por isso tenta sempre discernir padrões na realidade de uma forma que possa ser útil. O que não quer dizer que a realidade se possa intrinsecamente dividir em padrões, já que estes podem, inclusivamente, sobreporem-se de uma infinidade de maneiras. Como no caso das pinturas de Escher.
MAS PARA QUÊ?
ResponderEliminarPerguntas, com letras grandes e tudo. Subentendi: construir o "eu" para quê?
Não estava à espera da pergunta depois de
ter insistido, insistido, insistido que o "eu" forma um um todo indissociavel com o corpo-cérebro. Isto quer dizer que quando como, construo o "eu"; quando amo, construo o "eu"; quando rsspiro como deve ser, construo o "eu"; quando reflito sobre o que se passa à minha volta, construo o "eu". E ai de "mim" se os intestinho fizessem greve por tempo indeterminado! É todo o "eu" que podia implodir.
Ou há dualidade ou não há dualidade. Se não há dualidade, construir o que tenho estado a designar por "eu" é simplesmente crescer.
Como qualquer ser vivo procuramos o melhor e o máximo no meio onde estamos inseridos e individualizados. Por termos evoluido até à mente consciente fazêmo-lo de forma diferente e única entre os serse vivos. Mas só isso, porque em tudo continuamos sujeitos ã mesma física e à mesma biologia. Quando quisemos voar tivemos que descobrir os segredos das leis da física para o conseguir e não criar uma física extra-cósmica.
E agora pergunto eu: porque haveriamos de suspender a auto-construção?
Ou aceitamos a unidade do ser humano ou cedemos ao dualismo. Neste caso, sim, a tua pergunta de letras grandes faria todo o sentido.
"Mas essa noção de um "eu" que não se funde totalmente com o corpo não é descabida".
ResponderEliminarMas atençâo, Luis, não perder de vista, em momento algum, que a não-fusão, é um fruto da mente consciente e não o principio da dualidade. A prova "real" é a extinçâo simultânea de tudo o que nos faz ser humanidade.
Não há como fugir.Nós somos uma unidade, apesar de nos pensarmos como uma dualidade.
O que custa a "engolir" é que seja a morte a fazer-nos ver a realidade.
"Ou aceitamos a unidade do ser humano ou cedemos ao dualismo. Neste caso, sim, a tua pergunta de letras grandes faria todo o sentido." - Ah! Mas há ainda uma terceira opção: é que estava a editar a resposta num editor de texto à parte (para não a perder!) e esse era justamente o ponto que eu queria deixar perfeitamente claro, de forma que a pergunta era para mim, que devia depois ir lá trocá-la por uma resposta!!! Compreendo bem a tua perplexidade. Oh oh oh. A questão é justamente que não há um "mas para quê?" a que devamos dar resposta, mas antes devemos fazer uma análise concreta das vantagens que a evolução gradual de tal mecanismo poderia oferecer. Com efeito, são tantas, que é difícil enumerá-las. No que toca à consciência propriamente dita, podemos notar que depende de estruturas tardiamente formadas do cérebro, o que parece sugerir que só se tornou vantajosa quando outras coisas mais básicas já estão resolvidas. Talvez a grande vantagem da consciência seja a de, ao introduzir-nos como peça do jogo, permitir (por substituição mental de nós por outros) a simulação dos comportamentos e reacções de outras criaturas. Que fortíssimo contributo para a socialização poderia daí advir, hum? Será a consciência o polegar da socialização?
ResponderEliminar"Mas atençâo, Luis, não perder de vista, em momento algum, que a não-fusão, é um fruto da mente consciente e não o principio da dualidade."
ResponderEliminarA 100%! O diacho é que como toda a gente está meio pré-programada para encarar o mundo dessa forma dual, convencê-las do contrário é como explicar-lhes que o tempo é relativo, que os corpos mais pesados não caem mais depressa do que os leves, ou de que é *realmente* possível transformar chumbo em ouro.
E ainda cortam no orçaento da Educação!
Já digo como tu ou o Sergio Godinho que tanta concordância é para desconfiar...
ResponderEliminarFalando mais a sério. É muito importante concordarmos em algo de fundamenteal como é a unidade indissociável do ser humano. Fica muito caminho para percorrer e as divergencias serão tantas como as curvas da vida. E nós sabemos como o percurso da vida é tão curvilíneo. Se fosse em pirâmide era tão mais ...compreensivel e "natural". Darwin estragou tudo. Deu cabo do desígnio que colocava o homem como a coroa da evolução da vida, quiçá de todo a convulsão cósmica.
O golpe foi duro e a esmagadora maioria das pessoas ainda vive no pre-darwinismo mental. O dualismo professado ou dissimulado prova isso mesmo. Convenhamos que é um mundo de pernas para o ar. Mas não adianta espernear, que a evolução seguirá "indiferente" o seu curso, num momento da História em que o conhecimento e a consciência humana até permitem um olhar sobre o passado mais remoto e vislumbrar, literalmente, o fim do mundo: depois da grande expansão poderá acontecer a grande contracção. E assim será, se mais uma das curvas da História não nos trouxer novas surpresas como a de Darwin.
Apesar de todos estes considerando, ou precisamente por causa deles, penso que o homem sai muitissimo enobrecido do evolucionismo de Darwin e de um universo imprevisivel. "Universo Imperfeito", diz Marcelo Gleiser.
Não cortem, por favor, no orçamento da Educação. Como um cão raivoso, vou morder o cu dos políticos que o fizerem. O Crato do Passos que não me passe ao alcance!
Estes académicos da idade das trevas lembraram-se de cortar no orçamento do instituto ibérico da nanotecnologia criado, inaugurado e acarinhado pelo governo anterior, aqui na nobilissima Braccara Augusta. Os mesmo que ridicularizaram o computador a substituir nas escolas a ardósia e a pena de molhar no tinteito.
Um dia destes mandam mandam calar a NET. Aí, pela primeira vez na vida, ainda que seja a última, aqui o Mário vai protestar na rua.
Não sei cantar o fado, nem o castiço nem o postiço.
E o cerne da questão: como pode a consciência emergir da matéria pura? Isso ainda falta responder. E não podemos aqui ser demasiado simplistas. Não é a complexidade do comportamento das criaturas conscientes que eu procuro explicar. É a sensação de *experiência*. Três coisas diferentes:
ResponderEliminar1) Comportar-se como criatura consciente
2) Construir um auto-modelo que assume no cérebro o papel de actor e peça central do comportamento
3) Ter a *experiência* da consciência
O 1) e o 2) para mim são fáceis de conceber, embora eventualmente difíceis de especificar em detalhe. Compreendo-os como compreendo como funciona um automóvel, embora não sendo capaz de construir um.
O 3) dá-me cabo da cabeça.
Ideias?
Não é sem razão que os grandes da ciência ou da filosofia afirmam que subsistem dois mistérios por desvendar: a formação do universo e a emergência da consciência humana.
ResponderEliminarNão entendo porque o teu ponto 1) difere do ponto 3). Parece-me evidente que quando nos comportamos conscientemente estamos a experenciar a consciência. A não ser que queiras fazer a distinção entre a capacidade de consciência e o acto consciente. Podemos fazer esse exercício mas isso não nos ensina nada de novo. Sabemos que a nossa consciência permanece a maior parte do tempo como que "desactivada" ou suspensa. O natural e a prova de "sanidade mental" é poder reacender a “chama” sempre que quisermos. Sei neste momento que estou a pensar, a escrever respondendo-te. Ao mesmo tempo estava sentado e estou e também acontecem em simultâneo uma série de outras coisa comigo de que não vou tendo consciência expressa, como por exemplo respirar.
Resumindo: a consciência é uma capacidade tão real quanto intermitente. E também parcelar em relação não só ao que sou, faço e me acontece como em relação o que rodeia.
Há um facto que é incontestável: perder a consciência e também a possibilidade de a voltar a recuperar é como retroceder ao estado evolutivo pre-cerebral.
Além disso, nós não perdemos propriamente a consciência mas a capacidade de a reproduzir. Isto quer dizer, também, que a consciência é uma intermitência e não um estado permanente.
Creio que é fundamental registar este facto de que a consciência não existe como um estado permanente mas como uma capacidade que "eu" posso activar. O cerne da questão está mesmo aqui, neste misterioso e poderoso "eu" que activa ou desactiva o estado de consciência. Como se chegou a este “comandante”?
Macacos me mordam se percebo alguma coisa disto!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarSim, a intermitência da consciência parece ser uma característica fundamental.
ResponderEliminarMas a diferença entre os meus pontos 1 e 3, ou a ausência dela, são outro. Aparentemente, essa é a principal linha de fractura entre duas grandes linhas de pensamento sobre este assunto: uns acham que 1 e 3 são coisas diferentes. Outros acham que não.
Enauqnto programador, não me custa nada conceber uma implementação de um cérebro que contém informações sobre si próprio, que usa essas informações sobre si próprio de forma útil, etc. etc, sem que nada disso conduza a que esse cérebro *sinta*, *experiencie*, *vivencie* a sua situção.
De igual forma não tenho a certeza de que a consciência ao nível humano seja imprescindível para que estas propriedades se verifiquem. Um cão não sente/experimenta/vivencia? Estou certo que sim, mas não tem o nosso nível de consciência. E um rato? Uma formiga?
Ou seja, ainda mais difícil do que a consciência, é este sentir/experimentar/vivenciar que me intriga. Talvez sejam a mesma coisa, talvez não.
Talvez possa ajudar um pouco se não perdermos de vista, nem por um segundo, a unidade intrinseca do eu-corpo-cérebro, que dito filosoficamente fica muito mais elegante: eu sou o meu corpo.
ResponderEliminarOra vê.
Acabas de escrever: "enquanto programador não me custa nada conceber uma implementação de um cérebro..." etc. Enquanto executor deste trabalho és uma realidade, o "eu intergral". O trabalho que executas, que até poderia ser um artefacto fabulosamente complicado, nunca será parte do "eu integral" que o projecta e, portanto, não poderá ser experienciado como "consciencia de si".
Para que isto fique mais clarinho não há como voltarmo-nos para a vida real: nada de mais extraordinário saiu do teu "eu intergral" que um filho teu. Também um filho é um projecto teu, embora numa dimensão incomparavelmente diferente de um programa de um computador. Mas no fim, quando vamos falar da experiência da consciência, terás tanta dificuldade em experienciar o "eu integral" do teu filho como a realidade mais "dura" e prosaica do programa de computador. Com uma diferença assinalável: com o teu filho podes partilhar experiências de vida.
É neste sentido que os neurocientistas afirmam que mesmo que um dia consigamos construir a mente consciente, nada nos garante que possamos penetrar nela, porque ela será sempre a mente de um outro "eu".
E porquê esta dificuldade? Aqui Damásio é de ouro: porque "eu" não sou um cérbro mas um corpo-cérebro. Este conjunto maravilhosamente "extenso" da figura que somos, com dois olhos, dois ouvidos, duas pernas, duas mãos...proporciona a cada instante uma experiência única, pessoal e intransmissivel.
Numa palavra, Luis, só saberás do teu filho aquilo que ele te disser de si mesmo e aquilo que ele for capaz de expressar da sua experiência de si mesmo, pela partilha que referi.
De um programa de computador "saberás" tudo se fores suficientemnet esperto para desmontar a matemática que o produziu. Mas não será um "saber de experiencia feito " (O Camões que me perdoe). É só matemática. Por mais sofisticado que seja, falta-lhe a experiência da vida para partilhar contigo.
Claro que estamos a tocar a raiz do amor. Parece que este nasce mesmo quando o mistério impenetrável e único de cada "eu sou o meu corpo" nos atrai até se tornar "fogo que arde sem se ver". Pobre Camões! Se não "ver tudo" já doi como o caraças, não poder "provar" nem um pouquinho, é de morrer.
O enfoque do meu exemplo do "programa" de computador não era propriamente o da relação do "eu" criador do "programa" criado. Era mais o mero facto de que algumas características do programa, como a de conter informação sobre si próprio, etc. não me parece ser suficiente para lhe conferir consciência ou, melhor dito, experiência-vivência.
ResponderEliminarApenas isso.
"De um programa de computador "saberás" tudo se fores suficientemnet esperto para desmontar a matemática que o produziu. Mas não será um "saber de experiencia feito " (O Camões que me perdoe). É só matemática. Por mais sofisticado que seja, falta-lhe a experiência da vida para partilhar contigo."
Devo avisar-te de que estas à subestimar gravemente as potencialidades actuais e futuras da informática (se ainda lhe podemos chamar isso). Penso que não te engano se te disser que podes encarar a Informática como uma forma de engenharia capaz de criar modelos da generalidade dos sistemas, com algumas problemas de escala que o tempo resolve e que não são teoricamente impostos.
Assim, estamos a falar apenas da possibilidade ou não de criar "um carro muito grande" ou "que ande muito rápido", mas não tem de ser grande como o Universo, nem rápido como a luz. Ao nosso alcance, portanto. se não hoje, amanhã.
E o que eu te digo é que não vejo fácil solução para a implementação do experimentar-vivenciar. Comparado com isto, o auto-conhecimento e até a consciência do autómato-zombie são feijões.
Eu não subestimo as potencialidades da informática. Admito que a informática, enquanto instrumento de ciências como a biologia e a química, pode chegar à construção da misteriosa consciência, replicando-a. O problema começa depois. A "complexidade" criada ganha vida própria, como o ser humano ganhou, evoluindo a partir da matéria, por um processo que nos parecia determinismo puro até a física quântica nos sugerir que pode não ser bem assim.
ResponderEliminarA robótica sonha criar o "sentimento", que no ser humano integra, de forma natural, a inteligência e a razão. "Sei o que sinto e sinto o que sei". A consciência parece emergir desta interacção essencial entre sentimento e conhecimento. O seu carácter intermitente, não "estabilizado" e não redutível a uma "entidade" (a tão famosa alma-penada) é que intriga a ciência.
Finalizei o comentário anterior a falar das raízes do amor. Penso que no amor se vive intensamente esta interacção entre sentimento e conhecimento. O que fascina os apaixonados e mantém a paixão acesa não é, surpreendentemente, o conhecimento total da pessoa amada mas a intuição de que ama alguém que permanece misterioso.
A paixão acaba quando o mistério suspeitado ou intuído se desvanece. "Já não me diz nada".
(O normal é continuar-se, pragmaticamente, uma relação que se tornou vulgarmente rotineira).
Uma pessoa sensível, inteligente, inconformada e teimosa pode passar a vida vivendo uma paixâo atrás da outra, na esperança de tocar continuamente o mistério da vida consciente, sempre tão próximo e tão distante.
O "objecto" da nossa paixão não é necessariamente a consciência misteriosa. Há outro mistério muito mais abrangente que fascina o homem e que permanece, igualmente, sem solução: o Universo. As paixões que este mistério suscita são constantes, intensas e maravilhosamente compensadores para os apaixonados.
E tantos se agigantaram na paixão.
Não me distraias com miúdas! Eh eh eh.
ResponderEliminar"Nenhuma outra forma conheço, ó monges, que tanto persista em obcecar a mente de um homem como a forma de uma mulher. A forma de uma mulher persiste em obcecar a mente de um homem."
"Nenhum outro som conheço que tanto persista em obcecar a mente de um homem como o som de uma mulher... Nenhum outro aroma conheço... Nenhum outro sabor conheço... Nenhum outro toque conheço que tanto persista em obcecar a mente de um homem como o toque de uma mulher. O toque de uma mulher persiste em obcecar a mente de um homem."
"Nenhuma outra forma conheço, ó monges, que tanto persista em obcecar a mente de uma mulher como a forma de um homem. A forma de um homem persiste em obcecar a mente de uma mulher."
"Nenhum outro som conheço que tanto persista em obcecar a mente de uma mulher como o som de um homem... Nenhum outro aroma conheço... Nenhum outro sabor conheço... Nenhum outro toque conheço que tanto persista em obcecar a mente de uma mulher como o toque de um homem. O toque de um homem persiste em obcecar a mente de uma mulher."
- Buda
Permite, caro Luis, que me cite:
ResponderEliminar"Há outro mistério muito mais abrangente que fascina o homem e que permanece, igualmente, sem solução: o Universo. As paixões que este mistério suscita são constantes, intensas e maravilhosamente compensadores para os apaixonados".
Onde está a "miúda" neste "mistério muito mais abrangente"?
Já conhecia esse texto e, muito antes de o conhecer, já lera a mesma coisa em Santo Agostinho, doutor da Igreja e bispo de Hipona. Possivelmente tivera contacto com o budismo, pois escreveu mil anos depois.
O post "Buda sem Mim" que se segue explica porque "eu" me apaixono desalmadamente e um buda procura "desesperadamente" desapaixonar-se. Explica porque eu agarro as emoções, os sentimentos e os pensamentos e um buda foge deles como o diabo da cruz. Por falar em "cruz", eu subo o calvário da vida como quem sabe que tem de carregar a cruz, porque a vida não é nada fácil, enquanto o buda procura desgrudar-se dela pelo "desapego".
Foram estas duas paixões fundamentais -o amor entre os humanos e o amor destes ao universo- que fizeram a História.
Os budas vão à boleia. De carro, de barco ou de avião. E, num futuro próximo, de nave espacial.
Sempre desapaixonados, tanto quanto for possivel. Porque totalmente, nem Buda. Pudera! Enquanto há "corpo" há emoção, sentimento e fluir do pensamento.
E quando esta santissima trindade já não der de si, até "eu" fico definitiva e totalmente desapegado, desapaixonado e depenado (penas de sofrimento)
Por falar em Santo Agostinho, queria acrescentar que este maniqueu convertido ao cristianismo foi um dos grandes responsáveis pela triunfo da misogenia clerical que ainda grassa no cristianismo, sobretudo católico.
ResponderEliminarLer Buda deve ter ajudado. Como ele foi um devasso sexual até à conversão e calhou ser hetero integral, só reteve de Buda a obcessão pelas mulheres. Chega a perguntar a Deus, nas suas famosas Confissões, se Deus queria que o homem não estivesse sozinho, porque não lhe arranjara um companheiro inteligente em vez de uma mulher sedutora...
Claro que ele não estava a pensar em paneleirices. O que o preocupava era força avassaladora das emoções e dos sentimentos que lhe turvavam o "pensamento puro".
Como se alguma vez o ser humano pudesse pensar sem a emoçâp e o sentimento...Nem se deu conta, o Santo Doutor, da forte emoção que o ligava a Deus pela fé que professava!
Nem se deu conta, no meio de tão doutas filosofias e teologias, que a fé se fundamente muito mais na emoção e no sentimnto que na "razâo pura"!
Não vou aqui entrar em guerras sobre a atitude dos Budas relativamente às emoções, etc., primeiro porque a tua opinião já é sabida, e depois porque não sei assim tão bem a deles a respeito, nem é o que mais me interessa. Mas posso-te adiantar que a do Matthieu Ricard não tem nada a ver com a anulação das emoções de que falas. Avanti!
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