Que sentido faria resumir informações acerca da realidade se o conhecimento, em si mesmo, fosse impossível? Qual a validade de tecer um conjunto de considerações e raciocínios sobre a realidade se a lógica, ela própria, não existisse ou não estivesse ao nosso alcance? Coloca-se, pois, a questão de determinar se o conhecimento (1) e o raciocínio (2) são possíveis e ainda se estão ao alcance da mente humana, em particular (3). Curiosamente, pensando sobre estas questões, surgem de imediato outras questões cuja resolução prévia é necessária: independentemente da resposta a cada uma das questões 1, 2 e 3 ser sim ou não, há-que ter em conta que a validade da nossa análise a estas questões não é independente do seu próprio resultado: esta é uma situação muito particular, pois se a resposta for não a alguma das 3 questões, a nossa capacidade para determinar a resposta correcta a qualquer das 3 questões estará de imediato gravemente comprometida! Além disso, existe também a hipótese bastante razoável de, em geral, o conhecimento e o raciocínio estarem ao alcance da mente humana, mas tais ferramentas pura e simplesmente não se poderem aplicar a todas as questões, podendo haver algumas, pela sua natureza muito particular, que sejam inatingíveis (4). O Teorema da Incompletude de Godel, assim como, na computação, o Problema da Paragem de Alan Turing, evidenciam que nem todas as questões são decidíveis.
Conclusão intuitiva: Com elevada probabilidade, os problemas de determinar se o conhecimento e o raciocínio lógico são ou não possíveis são problemas indecidíveis (ou seja, é impossível decidir qual é a verdade, embora ela possa existir), pela simples razão de requererem, para a sua análise, o mesmo conhecimento e o mesmo raciocínio lógico cuja possibilidade pretendem demonstrar.
A impossibilidade de fundamentar logicamente a validade do nosso próprio raciocínio parece gozar de uma certa lógica... a única atitude coerente, portanto, parece ser esquecer a demonstração e apostar que sim!, que dispomos efectivamente da possibilidade de conhecer, raciocinar e, assumindo essa hipótese como base de trabalho, verificar se graves contradições começam a aparecer, que contradigam a nossa hipótese. Constata-se, afinal, que as aparências, ao invés, a sustentam. Se excluirmos as hipóteses mais paranóicas segundo as quais andamos a ser completamente ludibriados por entidades superiores que têm o propósito firme de nos enganar acerca de tudo o que os nossos sentidos nos indicam (e afins), resulta pouco provável que mentes de raciocínio nulo ou extremamente débil consigam fazer o tipo de previsões que nos são possíveis. Se a mente humana fosse uma estrutura de coerência frágil, as suas construções extremamente complexas provavelmente não resistiriam e enormes brechas já estariam abertas em todos os campos onde é utilizada. Concluindo: lamentavelmente, não podemos demonstrar com todo o infalível rigor matemático que a reposta às questões 1, 2 e 3 é sim. Teremos de nos conformar com uma situação manifestamente insuficiente: uma aposta na intuição, na crença, na fé - ainda que uma fé dramaticamente diversa da fé religiosa - pois que esta se enraíza justamente nas evidências observáveis e não no conhecimento sem fundamento. Continua a ser possível que a resposta seja sim às questões enunciadas, mas a estimação da probabilidade desta hipótese compete a cada um, pelas razões enunciadas acima. Chego, assim, pessoalmente, a mais uma
Conclusão intuitiva: Com elevada probabilidade, o conhecimento e o raciocínio são possíveis e estão ao alcance da mente humana, embora algumas questões possam ser indecidíveis.
No meio de alguma frustração, termino com uma nota de optimismo: se se der efectivamente o caso de a resposta ser sim às questões 1, 2 e 3, e confirmando-se a existência de questões que, não estando ao alcance da mente humana, não sejam, em si mesmas, indecidíveis, existe a hipótese de os humanos produzirem outros processos, ou outras mentes, que resolvam pelo menos algumas das restantes questões cujas soluções não são acessíveis a si próprios.
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Este tema é antigo e espinhoso. Estou a pensar por onde hei-de pegar a este post. Para já estou muito entretido com os meus netos acabadinhos de chegar de Luanda. Mas lá mais para noite vou-me ao teu posto. Para já apetecia-me definir o conhecimento como uma forma sofisticada do processo adaptativo do "homem de Darwin", desde que desenvolveu a mente consciente.
ResponderEliminarPenso que a melhor maneira de abordar o problema do conhecimento é mesmo começar pela biologia. Começar a construir a casa pelas fundações. Até para chegar a uma definição.
Voltando ao assunto do teu post, Luis, pessoalmente penso que estamos encostados à parede. Seja sob que aspecto consideremos o problema do conhecimento, seremos sempre "juizes em causa própria". Nunca deixaremos de ser humanos para avaliar a nossa própria condição humana. Este é que é o problema fundamental.
ResponderEliminarQuando colocas a hipótese "de os humanos produzirem outros processos , ou outras mentes, que resolvam pelo menos algumas ...questões", sabes perfeitamente que o criador de tais mentes estará sempre acima da sua criação (excepto na ficção ciêntifica, evidentemente). Penso eu. E assim sendo, voltamos ao problema fundamental do "homem que se avalia a si mesmo", sem possibilidade de "contraditório" ou termo de comparação para aferir da validade do seu conhecimento e da sua lógica.
Depois de alguns milénios de "cultura" restaram ao homem duas alternativas: 1 -estabelecer como juiz definitivo e absoluto a divindade, com recuro à fé 2 -aceitar a absoluta solidão da nossa condição humana e, consequentemente, do nosso conhecimento sem avaliação de terceiros.
Sou de opinião de que perante o magno e basilar problema da existência, pouco interessa discutir a validade do conhecimento e da lógica em si mesmos, porque o que interessará, sobretudo, há-de ser a sua funcionalidade.
Assim eu concluiria que o verdadeiro problema do homem nâo é um problema de conhecimento mas de vida e morte. O conhecimento acumulado até à actualidade e a lógica serão preciosos "instrumentos" de sobrevivência e criatividade. Bem melhores que a primitiva "pedra lascada".
Quanto à vida, ela estará sempre para além dos "seus instrumentos".
Por favor não me atormentes com a pergunta se foi a vida que gerou os seus instrumentos ou se foram os instrumentos que geraram a vida. Porque não faço a mínima ideia onde acaba uma e começam outros, tão entrinsecamente unidos se manifestam.
Neste ponto também fico com Buda: é uma pergunta fútil.
"sabes perfeitamente que o criador de tais mentes estará sempre acima da sua criação"
ResponderEliminarNão, não sei. Nem vjo nenhuma razão concreta para haver tal limitação. Sempre inventámos coisas para superar as nossas limitações. Não teria de ser a mente a excepção à regra.
Ainda bem que fiz uma ressalva sobre a afirmaçâo que referes: "penso eu". Pelos vistos tu nâo pensas assim.
ResponderEliminarSeja como for, mesmo que a nossa mente produza mentes superiores a si mesma, continuaremos sem poder sair do circulo fechado da nossa condição humana, porque tais criações serão tão humanas como os seus criadores. A nâo ser que se admita a "dupla substancia" de Descartes, já não recebida como herança, mas transmitida como legado, fruto da nossa capacidade criadora.
E falo assim porque não estou a imaginar uma crição "ex-nikil".
Mas também vou acrescentar uma nota de optimismo sobre este assunto, porque detesto ser encostado à parede.
Para já aguardo o teu comentário a mais estes papites.
"tais criações serão tão humanas como os seus criadores"
ResponderEliminarHm, em teoria não me parece. Há muitas maneiras de matar pulgas. Havendo imaginação e tecnologia, pode-se - vou inventar à grande - desenvolver um método de selecção artificial, com aquilo a que se chamam "algoritmos genéticos" em que o processo teria tanto de humano como o desenvolvimento da vida na Terra. Só estaríamos lá para dar o pontapé de saída. Não me parece que isso chegue para classificar uma criatura de "humana". Não mais, pelo menos, do que podemos chamar "humana" a uma mula.
Há aqui um pequeno mal entendido. Quando digo que as criações humanas são tão humanas como os seus criadores não quero dizer que um relógio é o relojoeiro replicado. O que quero dizer é que o criador e a sua obra farâo sempre parte integrante e indissociável do mesmo mundo.
ResponderEliminarNesta linha de pensamentos se nega ou se afirma a existência da "res divina" ou da "res extensa" (Descartes) em oposiçâo à "res cogitans", o homem, melhor dizendo a sua alma.
A corrente filosófica que se opõem à multiplicidade de "substancias", sustentando o monolitismo de toda a realidade, é o monismo. Neste, desaparece a alteridade Deus-Criatura e qualquer "sinal" ou "fenómeno" de multiplicidade tem como princípio a "geração" e nunca a "criação ex-nikil".
Em níveis muito diferentes, claramente, nós geramos um relógio como geramos um filho. Nem se discute que o meu filho integra muito mais daquilo que eu sou, que o meu projecto para construir uma casa.
De modo que, meu caro Luis, se aceitamos a alteridade "Deus-Criatura", podemos invocar uma autoridade exterior a nós para avaliar o nosso conhecimento. Se, ao contrário, nos ficarmos pela realidade "monolitica" do Ser Uno", não há como fugir da solidâo na hora de julgar. E, neste caso, o valor do nosso conhecimento terá a dimensão de quem o adquire e propõe.
Haverá uma "terceira via"? É que não gosto mesmo nada de ficar encostado à parede...
Se podemos chamar "humana a uma mula"? Já fomos coisa bem mais primitiva. Darwin dixit.
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