Não leiam a palavra «mal» no sentido moralista. Aliás, eu fujo do moralismo como o diabo da cruz, porque o moralismo é um mar de equívocos e os moralistas medram à sombra da própria ignorância ou da ignorância alheia, quando não se aproveitam mesmo, oportunisticamente, daqueles que nunca tiveram a sorte de uma escola. A propósito, contava-me, há dias, a minha filha mais nova uma conversa que tivera em Londres com uma vegetariana compulsiva, por força da religião que professava. Tratava-se de uma caso em que o “mal” moralista era de carácter religioso e colava-se ao consumo de alimentos. A minha filha explicou à sua “piedosa” interlocutora que o “mal” não está naquilo que comemos e que, por exemplo, o mosquito da malária, quando pica uma pessoa, não faz uma maldade capaz de matar. A inocente criatura está simplesmente a lutar pela sobrevivência “como nós as duas quando vamos ao trabalho”. Ora acontece que o mosquito se alimenta de sangue e não de frutas…
E sem culpa nenhuma!!!
O erro fundamental dos moralistas é pensarem que nós somos um espírito que incarnou e não a materialidade animal que evolui para a espiritualidade.
Esta capacidade de evolução é real, mas exercemo-la sem nunca nos desligarmos da matriz animal. Daí a nossa frustração perante a paradoxal realidade humana: comportamentos “animalescos” à mistura com as nobres realizações do conhecimento, da beleza, do amor e ânsias de eternidade.
Hoje li a crónica habitual do Manuel António Pina no JN, onde ele aponta o dedo ao verdadeiro tsunami da “maldade humana” que nos submerge. É a pura realidade. Mas eu já estou cansado dos diagnósticos da doença e acabei, frustrado, a leitura desta crónica, igual a milhentas outras que se limitam a sinalizar a desgraça.
Foram séculos ou milénios de pregação contra a maldade, chegando-se ao ponto de inventar o “Deus do Mal”, por falta de explicação aceitável para tanta maldade. Nem promessas de paraísos nem ameaças de infernos bastaram para, ao menos, diminuir a maldade. Avançou e avança como avalanche incontrolável, perante a impotência dos deuses e dos homens.
Penso que este sentimento de impotência perante o mal e a maldade tem uma raiz cultural, da qual nos temos que libertar.
Por mais que ofenda o orgulho de quem se imagina um puro espírito encarcerado num corpo tão frágil como um vaso de argila, está na hora de reconhecer que somos, primeirissimamente, iguais ao mosquito que mata para se alimentar e sobreviver. Toda a sofisticação de meios que usamos para atingir o mesmo fim, sobreviver, decorrente da nossa inteligência e da mente consciente, não anula a nossa primitiva condição. E é sobre esta condição de “mosquito sofisticado” que temos de actuar, se queremos superar-nos para o sonho, para a beleza, para o amor e para a imortalidade.
Mas continuamos a “dizer” tudo ao contrário, repetindo o milenar sermão moralista.
Escrevi “dizer” e não “fazer”, porque há um trabalho extraordinário que vem sendo feito metodicamente pelo menos há quatrocentos anos, não por pregadores de sermões inflamados, mas pelos homens da ciência que apontaram o machado do conhecimento à “raiz do mal”.
Não é a ira de uma divindade que manda o raio, o terramoto, a peste ou guerra. Não é uma divindade perversa que instiga o ódio, a ganância, a inveja e a mentira. Não é o “pecado” dos pais que faz nascer o filho cego, aleijado ou com tendências suicidas ou assassinas.
Todo este rio imenso de “maldades” procede da nossa condição e do universo donde emergimos.
Os pregadores de sermões, antes, por mera ignorância, hoje, “quase” por maldade, ora culpam “Deus”, ora culpam o “Homem”.
Sem lhes dar cavaco, os homens da ciência lançaram as culpas para o caixote das velharias e foram directos às causas das nossas desventuras.
Nascer mais saudável, nesta era do conhecimento, pode ser o primeiro passo para uma nova era, a do homem espiritual. Porque “o que nasce torto, tarde e mal se endireita”.
E nós temos estado a nascer “ao deus dará”.
Em vez de lamúrias e de apontar o dedo à “maldade humana”, aposte-se a sério no conhecimento e nas ciências da vida.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
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Acertas numa das minhas dificuldades com o budismo, que é a de traçar a fronteira do moral e do imoral num mundo de conceitos relativos. "Se somos mesmo assim, porquê mudar?" poderia ser a conclusão científica, "se a nossa existência é, na acepção absoluta, uma ilusão, para quê mudar?", poderia ser a conclusão budista. Mas não é. O budismo (ou certas formas de budismo?) tem um código moral associado, não se ficando pelo "deixa andar".O vegetarianismo aparentemente faz parte disso mesmo, não que isso a mim me diga alguma coisa.
ResponderEliminarMuito mais há para dizer sobre este assunto!...
Dizia Dogen, mestre Zen:
ResponderEliminar"Porque todas as coisas são buda-dharma(1), há ilusão e realização(2), práctica(3), e nascimento e morte, e há budas(4) e seres sensíveis.
Porque as míriades de coisas não têm um si intrínseco, não há nenhuma ilusão, nenhuma realização, nenhum buda, nenhum ser sensível, nem nascimento nem morte.
O caminho de Buda é, basicamente, saltar fora da pluralidade e da unicidade; assim, há nascimento e morte, ilusão e realização, seres sensíveis e budas.
Porém, com o apego as flores caem, e com a aversão as ervas daninhas propagam-se(5)."
NOTAS:
(1) são conformes aos ensinamentos de Buda... (por ex. têm uma natureza vazia, etc.)
(2) iluminação
(3) a prática do budismo
(4) seres iluminados
(5) eis aqui, do meu ponto de vista, o tal salto adicional, o reconhecimento de que há algo a corrigir, que há uma acção a desencadear.
A "mudança" não se faz a partir de uma "ilusão" , mesmo que seja a "perfeita ilusão". Se não estivéssemos "aqui" para testemunhar o devir, ele prosseguiria sem a presença do "observador", aliás, como aconteceu até à recentíssima emergência da mente consciente do budista...
ResponderEliminarE não se pode saltar por cima deste facto observável e medido, sem cair no puro sonho metafísico que nos faz sentir um "alter ser" face ao Universo. À maneira das religiões monoteitas.
Acabei de ler a "Criação Imperfeita" do cientista brasileiro Marcelo Gleiser. Aí tenta demonstrar que aqueles que pugnam por uma Teoria Final ou De Tudo, como foi o caso de Einstein, estão a servir-nos a "ciência monoteista" de outro jeito...
Não estou a imaginar o budismo tendo como fundamento o niilismo e sem base “filosófica”, mesmo que inconfessada.
Oh, mas para mim não é tão evidente que a mudança não se possa fazer a partir de uma ilusão. Aliás, a possibilidade do contrário é para mim evidente. Porque não é a matéria que é ilusóriva. É cada agregação mental que dela fazemos que é ilusória. Assim, a matéria pode gerar mudança. Aliás, a mudança é mesmo a única coisa que não muda. No entanto, por paradoxal que possa ser, a matéria, ilusoriamente organizada em padrões, pode originar alterações bem determinadas de padrões ilusórios.
ResponderEliminarIsto não pode ser entendido sem ter em mente que "ilusório", aqui, não é sinónimo de irreal, significa apenas que só existem com base na relação com o sujeito e, sendo assim, não têm existência intrínseca: "Porque todas as coisas são buda-dharma, há ilusão. [...] Porque as míriades de coisas não têm um si intrínseco, não há nenhuma ilusão". Não se trata, portanto, de nenhum sonho metafísico, mas tão somente a clarividência de que o homem não é a medida de todas as coisas. Da mesma forma, e pela mesma razão, também não há niilismo. A realidade existe para além das nossas considerações sobre ela.
Se há coisa que o budismo tem é uma base filosófica.
Não podia estar mais de acordo: " a realidade existe para além das nossas considerações sobre ela". Até porque ela, a realidade, já por cá andava quando nós chegamos e começamos a descrevê-la...
ResponderEliminarDiz-me, Luis, se o budismo não parte deste pressuposto filosófico?
E não podia estar mais em desacordo: "É cada agregação mental que dela fazemos que é ilusória".
Quando desenhamos um circulo num quadro negro, aquele circulo não é uma ilusão por ser um produto da nossa mente. Como não é uma ilusão a catedral que se ergue conforme o plano do seu arquitecto. O circulo no quadro negro pode ser apagado no instante seguinte ?a sua conclusão. A catedral pode ser reduzida a escombros. A verdade é que num caso e noutro existiu o "acto criador" irreversivel.
Isto para dizer, Luis, que a mente humana pertence, ela também, ao universo da matéria e da mudança e é capaz de realizações tão "materialmente" verdadeiras como as que o vento deixa esculpidas na rocha pela erosão.
Este nexo intrinseco entre a realidade e a mente humana foi o pomo de discórdia entre Platão e Aristóteles. Segundo este gigante da filosofia, a mente tem a capacidade de fazer "esquemas" da realidade para a compreender mas não cometeu o erro de Platão que identificou a realidade com as ideias acerca dela.
Qual é o pressuposto (deixo cair o termo "base")filosófico do budismo?
E nota, Luis, que eu disse que o próprio homem, e a sua mente, é intrinsecamente matéria, mudança, devir permanente. E, no meu entender, não há "buda" que possa pairar sobre esta realidade. Não é só o problema da moral que está em causa. É, sobretudo, um problema de empenhamento e de criatividade.
Se a realidade depende, para existir, de um observador, é um problema filosófico complicado para o qual não arrisco uma resposta simples. Não tenho ideia de que o budismo teça considerações a respeito.
ResponderEliminarDe qualquer forma, é claro que o budismo nega o niilismo, bem como o eternalismo (ou seja, a existência das "formas").
Não poderás negar, Máro, que quando desenhas um círculo num quadro negro o círculo só existe na tua cabeça. No quadro distribuiste tu uma série de átomos, num padrão para o qual o círculo não é senão uma grosseira aproximação, um ideal sem efectivo paralelo na matéria distribuída sobre o quadro. Só à tua escala se pode parecer com um círculo. Fosses tu mais pequenino e não pareceria. Estivesses em Plutão e nem um ponto seria, quanto mais um círculo.
Assim, não há círculo. Nem, lamentavelmente, há quem o desenhe.
Mas já concordo quando dizes que "o próprio homem, e a sua mente, é intrinsecamente matéria, mudança, devir permanente.".
Em suma, dá jeito falar do "homem" para podermos dizr que ele realmente não existe. PArece estúpido, mas não é. As ideias só manipulam conceitos. É preciso valer-mo-nos dos conceitos para, inclusivamente, os negar. É por isso que a verdadeira iluminação é difícil de atingir exclusivamente pela lógica convencional. Requer um salto adicional, para a transcendência dos conceitos.
Ou julgavas que os tipos se sentavam horas a fio para nada? (alguns, sem dúvida...!)
"É preciso valermo-nos dos conceitos para, inclusivaente, os negar".
ResponderEliminarPenso que não se trata de negar os conceitos mas de lhe reconhecer o seu relativismo. Mesmo quando falamos de um círculo desenhado no quadro negro. O que torna a mente do homem tão sublime é a sua capacidade de se avaliar a si própria continuamente. Mesmo percebendo que não terá no horizonte de uma vida ou de muitas a resposta que procura; mesmo que que já tenha concluído que nem resposta há; mesmo que tenha diante de si respostas respostas variadas e muito tentadoras, como essa do budismo, por exemplo.
E não me digas, Luis, que o budismo não é uma resposta à "pergunta filosófica"! Porque se o afirmares, estaremos perante um fenómeno de "geração espontânea", uma revelação celeste ou uma magia qualquer. Se não foi da "pergunta filosófica" que ele se encaminhou para a iluminação, então foi a partir de quê?
Conheço pouco do primeiro Buda mas sei que ele tem uma história bem real por detrás da sua "conversão". Fez um percurso de vida de enganos e desenganos, como qualquer humano. Fez-se a si mesmo mil interrogações como qualquer filósofo e chegou à sua conclusão, exactamente aquela que ditou a atitude que tomou perante a vida.
Não me parece “boa prática” falar da experiência budista sem levar em conta os seus pressupostos. E fico sempre com a impressão que consideras apenas a iluminação budista “em si mesma” e as suas realizações concretas nos “budas”, isoladas do contexto histórico. Como se abstraísses do pressuposto filosófico, que é a marca distintiva da nossa humanidade, como a capacidade de nos admirarmos, interrogarmos, raciocinar e duvidar.
Eu sei que é o reconhecimento destes pressupostos que mina os fundamentos de qualquer “doutrina”. Por isso nenhuma resposta concreta, seja filosófica, religiosa ou não religiosa satisfaz a sede humana pela sabedoria. Claro que os “convertidos” dizem que esta insatisfação resulta da falta de fé ou de iluminação.
Respeito a vivências profundas de quem as vive e admiro as realizações espantosas que deixaram marcas na história da arte e da cultura e que hoje nos encantam. Outra coisa é busca incessante da verdade. Mesmo sem saber se há alguma e se teremos de ser nós a construí-la.
Devemos estar mais próximos do que parece...
ResponderEliminarBem, eu não ueria de forma alguma negar que o budismo tem uma base filosófica. Nem que nasceu de um inconformismo de Siddartha Gautama com a triste sorte e sofrimento da maior parte dos seus concidadãos. Todas as coisas têm a sua causa. Um caminho de salvação está, por definição, ligado ao sofrimento humano. Este meu enfoque no relativismo está tão ligado ao budismo como ao existencialismo (não sou um grande perito das escolas filosóficas, mas arrisco esta). O budismo é uma espécie de existencialismo com uma prática.
Já agora, insatisfeito fico eu com a minha própria constatação de que "a verdadeira iluminação é difícil de atingir exclusivamente pela lógica convencional.". Sou por natureza avesso a coisas que só se entendem abandonando a loǵica (!). Mas não se trata em rigor de abandonar a lógica para entender. Lá entender, a coisa entende-se, pela lógica e conceptualização. Trata-se de abandonar a lógica/conceptualização para vivenciar.
Pode-se ler sobre natação, mas é difícil nadar enquanto se lê esse mesmo livro.
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
ResponderEliminarÉ curioso este teu "sobressalto" perante a fricção iminente entre lógica e vivência. Mas para mim não é novidade, já que trilhei o mesmo difícil percurso quando militei na fé cristã. Também aí, a experiência da fé supria as lacunas da razão. Porque é disso que se trata. Mas se há lacunas a preencher, porquê o recurso às alternativas em lugar de persistir, até ao fim da vida, na busca da solução racional? Simplesmente porque o homem não pode estar à espera de "ter razão" para começar a viver. Tem que fazer opções, em cada dia, para tudo e mais alguma coisa. Os mais "sensíveis", porém, não querem tomar opções, que considerem fundamentais, sem "uma boa razão" e procuram-na, incansavelmente. Quando julgam que encontraram a "boa razão" passam à prática. A isto parece que chamas "dar o salto": a razão foi o instrumento utilíssimo e indispensável para "chegar até aqui" e permanece intacta a sua validade, mas a "vivência" proporciona uma realidade nova e para além da razão, que é o "estado de iluminação".
ResponderEliminarSe estou a ir bem, o "caminho do meio" será aceitar viver em paz entre a racionalidade e a irracionalidade de "ser", numa acomodação definitiva à ideia de que o mundo é incompreensível em si mesmo e é de todo inútil e fútil lutar contra esse facto. O melhor é não nos metermos com ele e dizer como os antigos: "o que não tem remédio, remediado está".
A porra toda é que os homens não se dão por vencidos. E agora que descobriram que serão capazes de reproduzir e recriar o mundo, servindo-se das suas próprias leis, então é que ninguém mais os atura!
Por isso adiantei no comentário anterior que se não existe uma verdade, a gente cria uma. Não estou a fazer a apologia da mentira. Estou antes a dizer que, se não existe um desígnio para o mundo, tratemos nós de o construir. Como quem diz: “querias a papinha toda feita, não é! Toca trabalhar para conseguires comer!”.
Por mais incrível que pareça, esta afirmação que tresanda a ateísmo por todos os poros, surge-me como o eco de uma verdade fundamental do meu cristianismo: eu sou o último responsável pela minha salvação ou perdição. Por isso me aguardam, depois da morte, ou o paraíso ou o inferno.
Alto, alto! Eu não pretendo preencher lacunas da razão. Acho as lacunas muito mais satisfatórias do que a "brita" oferecida pelas religiões. Quanto a isso, ponto assente. Claro está que também nem tudo o que as religiões oferecem são tapa-buracos. Por vezes, são opções, critérios, recomendações, etc. Tudo certo com isso.
ResponderEliminarNão sei se a tua explicação do "salto" é exacta. Não a compreendo com exactidão. E também não a consigo explicar suifcientemente bem.
Volto aos exemplos: uma coisa é saber nadar. Outra é estar a nadar. Até se pode aprender a nadar através da leitura de um livrinho, mas ninguém sabe realmente se sabe nadar ou não sem ter nadado. E é difícil nadar e ler ao mesmo tempo.
Da mesma forma, pode-se compreender logicamente no que consiste a transcendência dos conceitos. Mas só através de determinadas práticas se consegue vivenciar essa transcendência dos conceitos. Por fim, ser Buda é conseguir nadar e ler o livro ao mesmo tempo, ou quando adequado, sem esforço.
O "caminho do meio" não é o meio caminho entre a racionalidade e a irracionalidade. É o meio caminho entre o niilismo e o eternalismo. Ou seja, nem estar agarrado às formas, na crença de que elas *são* reais em si mesmas (quando na verdade as formas estão no olho de quem as vê), nem crer que absolutamente nada existe, o que contraria todas as evidências: "penso, logo existo" etc. Eu diria: "penso, logo não é verdade que nada exista".
O "caminho do meio" é tão somente isto. Nada de especial mais. Nada mais metafísico. Nada mais esquisito. Só isto, e já é bem importante.
Não há, portanto, aqui nenhuma acomodação nem passividade, de forma alguma.
Perguntas-me qual é então a motivação dos budistas para "andar para a frente"... Sei lá! Assim de repente não estou a ver. O objectivo do budismo é a cessação do sofrimento, as coisas servem para o que servem. Até pode ser que também tenha uma boa dica para isso. Mas aí se calhar também não concordo com eles. Eu sou, por assim dizer, um absurdista. Propósitos, missões e objectivos não é comigo. Se os tenho, é por feitio ou vício, não por convicção. Diabólico, hum? Enfim, vai-se vivendo.
ResponderEliminarBate certo! Ser "absurdista" e não "ter propósitos, missões e objectivos".
ResponderEliminarPor isso te atrai tanto o budismo. Pelo que me foi dado saber o budismo é, essencialmente, um não-objectivo, uma não-missão e uma não-existencia. O nirvana é, literalmente, "extinção" e no "caminho do meio" que conduz directamente à "iluminação" os próprios actos deixam de ser considerados bons ou maus, porque valorizá-los de alguma forma representa ainda "apego" ao que se faz ou se é!
Também compreendo porque dizes que o budismo não tem nada a ver com niilismo. Certo. Porque desprendimento ou "desapego" é um movimento interior do...do...Seja lá o que for. Ao passo que niilismo nega a realidade em si. De facto, "desapegar-se" e "negar" são coisas diferentes. O niilista aponta a barra de ouro que seguro na mão e diz "isso é nada". O "buda" dirá que tanto lhe faz que seja ouro, barro ou pau, querendo significar com isso que a indiferença entre ele e as coisas, entre ele e os acontecimentos, entre ele e as acções é mútua. É MUTUA!
Desconcertante!
Mais desconcertante, porém, é um dos mutuantes reconhecer a indiferença e não se conformar com ela. O cristianismo não se conformou e arranjou outra saída. E eu gostei mais dela.
Conheço mal a mistica budista mas conheço bastante bem a mistica cristã e um dos seus expoentes máximos, santa Teresa de Ávila. O meu próximo post vai tentar colocá-los lado a lado. Já agora levemos a coisa até onde pudermos e quisermos. O blog é nosso.
Só uma nota: eu não disse que os budistas são absurdistas. Disse que eu é que, aparentemente, sou.
ResponderEliminarNem tão pouco afirmei uma coisa dessas. Sugeri, isso sim, que o budismo pode desembocar no absurdo e no fatalismo, enquanto doutrina sem projecto, sem missão e sem objectivo. De facto tem tudo isso, mas é como se não tivesse, porque o ideal budista é pairar sobre a existencia, que é sofrimento, que é desapego de "mim", que é ausencia total de "mim", que é indiferença efectiva face à realidade em perpétuo devir.
ResponderEliminarQuase como o objectivo e sonho de um faquir: meter a mão no fogo sem se queimar!
E é absurdo que o fogo não queime, diz o racional Luis. E com toda a razão!
Lamento, mas essa reflexão não é correcta. Não podes criticar a Física porque não se preocupa com a História, ou a Medicina porque se está nas tintas para a Astronomia.
ResponderEliminarO objectivo do budismo é a redução do sofrimento, não é o avanço científico.
AO fim e ao cabo, as pessoas querem é ser mais felizes, o que não é propriamente uma conclusão budista, mas que o Dalai Lama apresenta neste artigo...
http://www.viewonbuddhism.org/resources/purpose_life_dalai_lama.html
...como sendo aquilo que *ele* acredita ser o sentido da vida. Ser feliz, portanto.
Mas o cerne do budismo é outro: é possibilitar a cessação do sofrimento (e a felicidade está muito ligada à cessação do sofrimento), em resposta coerente a uma determinada visão sobre a realidade, que é a visão da vacuidade dos fenómenos (das formas).
E tu dizes: "um tipo que liga tanto à Física tem de se estar a borrifar para a História". Não é necessariamente verdade. Essa capacidade para ver o mundo de forma não egocêntrica pode justamente criar o estado mental adequado à concentração e à frieza necessária às grandes conquistas e às grandes descobertas. Não é à toa qe o Zen está intimamente ligado a exercícios de concentração como o tiro com arco, por exemplo. Para quem já esteve na guerra, não é demais relembrar o eventual interesse prático de conseguir manter a mão firme mesmo debaixo de fogo. Ou meter a mão no fogo, ainda que queime.
Luis, eu não fiz confusão de conceitos. Limitei-me a "quase" comparar (quase como) o ideal do buda com o "sonho de um faquir". O buda procura eximir-se ao sofrimento apesar de ser "por natureza" uma realidade sofredora enquanto ser humano, assim como o faquir procura eximir-se à realidade do fogo que queima.
ResponderEliminarPortanto, segundo a minha analogia entre o ideal budista e o sonho do faquir, seria assim: o budismo nunca poderá evitar o sofrimento do homem porque o homem por natureza é sofrimento, do mesmo modo que o faquir não poderá evitar queimar-se ao meter a mão no fogo, porque será esse o resultado natural do seu gesto.
Estou a dizer-te, eufemisticamente, que o budismo é pouco mais que um exercício de ilusionismo do homem consigo mesmo. (Agora é que me rachas ao meio! O que vale é que estou longe).
E todos sabemos que não é qualquer um que consegue, por exemplo, a "performance" de um Luis de Matos, sem uma boa capacidade de concentração e sem um treino aturado.
Não conheço os métodos de treino dos monges budistas para se concentrarem, por forma a atingirem o objectivo que é, primeiro o nirvana e, depois, a iluminação, mas conheço os métodos dos monges cristãos para se transformarem em místicos.
Uma nota final. Dizes que "o objectivo do budismo não é o avanço científico". Penso que concordamos os dois em afirmar que o avanço científico nunca foi um objectivo para o homem mas um meio para conseguir a sobrevivência, o bem-estar e a felicidade. E sabes tão bem quanto eu como a descoberta científica enche de alegria o coração do homem. É daqueles casos em que se junta o útil ao agradável.
Resumindo e concluindo, Luis: nunca poderemos meter a mão no fogo sem a queimar, como nunca poderemos fugir do sofrimento enquanto permanecermos seres humanos.
É, simultaneamente, uma lei da física e uma lei da vida. Mesmo da vida autoconsciente.
Pareces um tubarão à volta da verdade, a apertar o cerco, e a vantagem para os outros é que, assim um bocado reboque, também se vão aproximando... eh eh...
ResponderEliminarChegaste a um ponto extremamente importante, que também não me escapou completamente, mas vai-se resolvendo um problema de cada vez. Muitos problemas ficam no escuro, à espera de saltar para o palco.
Realço aqui o auge: "o budismo nunca poderá evitar o sofrimento do homem porque o homem por natureza é sofrimento".
Penso não estar errado ao afirmar que o objectivo do budismo é a cessação do sofrimento, para todos os seres, e nenhum, como imaginas, já que em última análise nenhum existe. Logo, "evitar o sofrimento do homem" pode não ser exactamente a questão.
O problema que eu vejo nisso tudo é justamente este: pode haver sofrimento sem sofredor (homem ou não)? Aí estou em linha contigo. Não quer dizer que os budistas que percebem alguma coisa de budismo não tenham uma boa resposta para isto tudo...
Para esclarecer: poderia (ou poderá) haver uma contradição no budismo, ao dizer que o sofrimento existe, se esta afirmação de existência for efectiva ("O sofrimento existe", Nobre Verdade 1; posso estar a ser influenciado por uma má tradução que me ficou na memória; ver vários enunciados das Quatro Nobres Verdades em http://en.wikipedia.org/wiki/Four_Noble_Truths , mais pobremente em http://pt.wikipedia.org/wiki/Quatro_Nobres_Verdades).
ResponderEliminarNestes conceitos base o rigor é crítico. Por outro lado, a afirmação dessa existência deve estar a ser feita ao nível convencional, o que é normal, pois é uma pedra base do método apontado, e esse dirige-se, naturalmente, a não-budas.
Isto é complicadito...
1. A Natureza do Sofrimento (Dukkha):
ResponderEliminar"Esta é a nobre verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimentos; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que queremos é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento."[7][8]
2. Origem do Sofrimento (Samudaya):
"Esta é a nobre verdade da origem do sofrimento: é este desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir."[7][8]
3. Cessação do Sofrimento (Nirodha):
"Esta é a nobre verdade da cessação do sofrimento: é o desaparecimento e cessação sem deixar vestígios daquele mesmo desejo, o abandono e renúncia a ele, a libertação dele, a independência dele."[7][8]
4. O Caminho (Magga) para a Cessação do Sofrimento:
"Esta é a nobre verdade do caminho que conduz à cessação do sofrimento: é este Nobre Caminho Óctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta."[9]
Já agora, uma vez que disseste "por forma a atingirem o objectivo que é, primeiro o nirvana e, depois, a iluminação", encontrei uma razoável definição de uma e outra coisa, e a ordem não é bem essa:
ResponderEliminarNirvana - Cessação do sofrimento
Iluminação - Sabedoria da Vacuidade
Parece-me mais normal que a iluminação preceda o Nirvana. Mas como dizia alguém, tudo isso é "nada de especial".
Nesta abordagem do budismo, para além das tuas numerosas "dicas", tenho seguido de perto um especialista alemão em história das religiões, Karl-Heinz Ohlig.
ResponderEliminarDas leituras pude concluir que o "não-buda" é o homem ainda sujeito ao sofrimento e apegado à existência mas ele é, também, a verdadeira raiz do "buda" e como que o seu progenitor.
Se não fosse ele, quem seria?
Sendo assim, a situação torna-se insuportavelmente desconfortável, pois está-se a afirmar que um "não-buda" traz em si as sementes do "buda", acabando por ser o seu "criador".
Insisto: e se não fosse, quem seria?
Felizmente, um mestre budista há-de ter a resposta para a situaçâo paradoxal, em que a excelencia procede da vulgaridade. E tem. Faz desaparecer o "pai" afirmando tudo e o seu contrário como a verdade das verdades. Assim, nascer e morrer ou ser e não ser é a mesma coisa.
Mas eu sou tão mauzinho como o tubarâo a apertar o cerco à verdade e dou mais um passinho para fechar o círculo do absurdo:
"buda" e "não-buda" são a mesma coisa.
Será, talvez, a inefável quinta nobre verdade!
Não estás tão longe quanto isso. Só os não-budas verdadeiramente distinguem entre budas e não-budas.
ResponderEliminarNaturalmente, a desilusão só pode cessar nos iludidos. Não há nenhuma criação, há é uma desmistificação.
Os iluminados não precisam de budismo para nada. Agora, se te apegas ao desapego, és um incurável.
Isto não é assim tão incompreensível. Isto não é ilógico. Mas a tua taça está cheia, por mais que eu verta sai sempre por fora.
Estás muito agarrado aos conceitos. Estás a precisar de ler uns koans para "ires ao sítio"... :-D
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarUm conselho... (não precisas deles, mas deixo-o à mesma). Em vez de te interrogares:
ResponderEliminar"Porque é que os budistas são tão burros em acreditarem no que acreditam?"
...dá-lhes o benefício da dúvida por um instante e tenta encontrar resposta para o seguinte:
"Que lógica poderiam estes tipos encontrar num absurdo aparentemente tão evidente? O que me estão eles a querer transmitir com isto? Porque não dizem simplesmente o que pensam e têm de se esconder atrás de histórias enigmáticas? E se eles não forem realmente burros e houver aqui realmente algo para aprender?"
Mumon ficou famoso pela sua compilação de koans, seguidos de comentários e verso final.
Deixo-te com o...
Caso 27: Não é Mente, não é Buda, Não são Coisas
Um monge perguntou a Nansen:
“Existe algum ensinamento que nenhum mestre tenha pregado antes?”
Nansen respondeu:
“Sim, existe."
O monge perguntou:
“O que é?”
Nansen respondeu:
“Não é mente, não é Buda, não são coisas.”
Comentário de Mumon:
O velho Nansen desbaratou as suas palavras-tesouro. Devia estar muito perturbado.
Nansen foi demasiado atencioso e perdeu o seu tesouro.
Verdadeiramente, as palavras não têm poder.
Ainda que a montanha se torne mar,
As palavras não podem abrir a mente de outrem.
"Verdadeiramente, as palavras não têm poder.
ResponderEliminarAinda que a montanha se torne mar,
As palavras não podem abrir a mente de outrem".
O velho Nansen sabe muito bem que as palavras têm poder e que podem abrir as mentes. Mas sabe ainda melhor que esse é um poder tão relativo, que acaba por valer tanto como nada.
Porque o velho Nansem sabe que a mente, buda e as coisas, tudo desaparece na morte.
Para os seguidores do budismo, como para todos os homens, o derradeiro sofrimento é a morte.
A proposta do budismo contra esse facto inelutável é a superação do sofrimento em todas as suas formas, através de um estado de "indiferença consciente" crescente até à plenitude: o nirvana (será, como dizes, a quarta nobre verdade).
Pensar que o budismo esconde um qualquer mistério da alma ou da mente humana é devaneio de quem anda um tanto perdido e procura uma saída.
E todos andamos perdidos, uns mais que outros.
Dizias-me, Luis, para eu me colocar esta pergunta: "Porque é que os budistas são tão burros em acreditarem no que acreditam?"
ResponderEliminarEles não são burros, como não são burros todos os crentes de ontem e de hoje. O ser humano nunca se conformou com o seu trágico destino desde que a sua mente consciente despertou para a realidade. Começou a sonhar com a "salvação". Para as três religiões universais monoteístas (judaismo, cristianismo e islamismo) essa "salvação" virá por uma intervenção directa de Deus-Único e Pessoal na história humana. Para o budismo esse Deus não existe e toda a realidade é Una, Indivisivel e Impessoal. Morrer é dissolver-se nessa realidade universal. A "salvação" possível é que a dissolução aconteça sem sofrimento, no "nirvana".
Não há segredo nem há mistério. Mas para aceitar uma "brutalidade" destas é preciso um treino intenso. Sobretudo quando esse treino passa por renunciar às coisas agradáveis da vida.
No fundo o ideal budista consiste em saber morrer.
Ha! O velho Nansen tinha razão!
ResponderEliminarE tenho a impressão de que um tipo chamado Thomas Metzinger também é capaz de ter... eis aqui um livro a comprar...
ResponderEliminarhttp://psicologiarg.blogspot.com/2009/03/no-one.html
Com efeito. Metzinger trabalha no grande vazio deixado, entre outros, por Damásio. 57 extraordinários minutos de intervenção. Aqui ficam duas conclusões pertinentes para a nossa questão, mesmo em inglês.
ResponderEliminar"There is nobody who could have an illusion in this system. So if you really wanted to stay with the idea that the self is an illusion, you would have to say that it is an illusion that is no one's illusion."
"If it is true that the self is not a thing but a process as I've described it, then it is also true that the tragedy of the ego dissolves because strictly speaking nobody is ever born and nobody ever dies."
Perdoem. O vídeo é este: http://www.youtube.com/watch?v=mthDxnFXs9k
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