domingo, 20 de março de 2011

O Livre Arbitrio E Uma Sinfonia

Meu caro Lima, não referi, no post anterior, o livre arbítrio, mas já que trouxeste o tema para o debate, vamos a ele. Não tarda nada tenho o Luís em cima, a não ser que ande tão mergulhado na física quântica, que nem dê pela nossa conversa.
Os gregos criadores de uma fabulosa mitologia arranjaram um Deus para cada emoção e sentimento humano, materializando-os na pintura, na escultura ou na literatura. Aquilo que começou emoção e sentimento do homem acabou por ser considerado tão real ou mais, quanto a fonte dessas emoções e sentimentos que é o mesmo homem.
Assim se fez a religião para uma alma imaginada dentro do corpo da gente, tão independente deste que pôde ser pensada como pré-existente ao corpo e sobrevivendo-lhe. A ideia da dupla natureza ou substância do homem subsistiu até ao presente. Esta convicção, porque se trata apenas de uma convicção ou fé, esteve na origem da divisão do mundo em duas realidades distintas, uma de ordem material e outra de ordem espiritual.
E estava tudo mais ou menos pacificado com este “pano de fundo” filosófico e teológico, até que os decisivos avanços da ciência sobre a biologia humana puseram seriamente em causa o antiquíssimo mito da "alma separada” e a física concluiu por uma única “substância” a partir de um “big bang” tão remoto quanto a existência do próprio universo. Energia e matéria são comuns ao todo universal e as leis que as regem são as mesmas, sem quebra da “solidariedade" universal .
Outra coisa é saber quando conheceremos todas essas leis, dizem os homens da física.
Nos últimos tempos coube à ciência genética e à neurociência um papel destacado na desmontagem do mito da “alma separada”. Entre nós, António Damásio demonstrou a conexão essencial entre emoção, sentimento e pensamento, não deixando margem nem espaço para uma entidade capaz de um "puro pensamento", originada na pureza e subtileza de um puro espirito. Por mais brilhante que seja uma ideia, diz Damásio, ela tem as raízes todas no cérebro humano, que forma um conjunto indissociável (para a elaboração das ideias) com todo o corpo. Para Damásio, o nosso pensamento será sempre emocionado e sentido na sua génese. Numa bela expressão literária, o nosso prémio Nobel da literatura diz, acerca da relação da alma e do corpo, que "os sentidos são as pernas da alma". Podemos especificar: e do pensamento.
Toda a nossa actividade mental está imersa nesta realidade e só recorrendo ao mito podemos imaginar que transcendemos os limites da condição humana.
Assim, eu penso que o “livre arbítrio “ é um mito quando considerado um absoluto, esquecendo-se as limitações da mente onde se concebe o livre arbitrio. Porque uma coisa é estarmos conscientes da nossa abertura ao infinito e ao absoluto e outra coisa é apresentar o absoluto ou a liberdade absoluta na palma da mão. Seremos sempre a liberdade que conseguirmos concretizar e não aquela que sonhamos, porque esta é um mito.
A citação que fazes de Espinosa sugere-me que este grande pensador rejeita o mito do livre arbítrio daqueles que pretendem conhecer todas as causas e a causa primeira de todas . E, claro, um mito pode ser facilmente “desconstruído”. Tão fácil como desmontar o mito da Deusa Atena ou do Gigante Adamastor.
Se colocarmos a questão do livre arbítrio em termos absolutos, estaremos a extrapolar da nossa realidade humana. Podemos fazê-lo, mas tendo a consciência de que estamos a construir um mito e a revelar mais uma das extraordinárias capacidades do nosso cérebro: a capacidade de olhar o infinito. Porém, olhar é uma coisa; concretizar ou materializar é outra bem diferente. Como quem diz: pensar no livre arbítrio está ao nosso alcance; concretizá-lo é tão impossível como viajar até ao Big-Bang.
Uma janela aberta para o livre arbítrio é apenas poder pensá-lo. Sei que não é tudo nem é muito, mas o homem pode envaidecer-se por ser o único a conseguir a proeza desse pensamento.
Não é drama nenhum reconhecer a nossa falta de liberdade ao nascer e é deveras estimulante saber que podemos fazer escolhas, pensar e sonhar, como se viesse do futuro a liberdade que não existiu no passado.
Assim como se o livre arbítrio fosse algo a conquistar, em vez de uma condição com que nascemos.
E foi a pensar nisto que me lembrei da sinfonia.
Bethoven sonhou, pensou e compôs uma sinfonia. Mas a sinfonia não existe, de facto, enquanto permanece apenas na mente de Bethoven. E também não existe nem na partitura, nem nos músicos, nem nos instrumentos, nem nos gestos do maestro. Só acontece mesmo quando muitos se organizaram para executar o” projecto” musical.
Não vale a pena procurar os responsáveis (os “culpados”) pelos factos. O que interessa mesmo é que os factos sejam como uma sinfonia.

13 comentários:

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  2. Eis-me aqui e agora, mas não posso dizer a que velocidade, senão o Heisenberg atiça-me o gato de Schrodinger...

    Só para dizer (para já) que para mim a sinfonia só existiu verdadeiramente na cabeça do Beethoven e, co algumas impefeições, na cabeça daqueles que a foram ouvindo.

    Não acertamos o compasso, Mário! :-D

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  3. Ó Luis, e será que tu exististe, apenas, na cabeça do teu pai?
    És a imperfeição do projecto dos teus progenitores...Ai se o teu pai vem aqui ler isto!
    Ainda vais a tempo de apanhar umas palmadas no rabinho...

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  4. Penso que não nos caem os pendentes no chão, por aceitar que a "realizada organizada" e complexa, desde a própria estrutura subatómica também tem consistencia. Ou até terá mais que as "bases iniciais". Assim como a consistencia de uma sinfonia é bem maior que a consistencia de uma simples nota musical. Porquê a averão ao multiplo? Assim nunca mais chegamos à "teoria de tudo".
    Como estudante da física quantica, diz-me lá: o que interessa mais, se o percurso percorrido pelas particulas drigidas a um objectivo ou o padrão que essas particulas acabam pode definir quando atingem o objectivo?
    Se falassemos a linguagem de Aristóteles faria a pergunta de outra forma: o que interessa mais a "potencia" (potencialidade) ou o "acto".
    Claro que interessam os dois, ligados como estão pelo laço inquebravel da causa-efeito. Mas hás-de convir que sem "acto" nunca verias a luz do dia.
    Pelo fruto conheceremos a àrvore, mas arvore tem de frutificar necessariamente

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  5. Como é natural, já que não vives dentro da minha cabeça, julgas as minhas frases pelas aparências e julgo que imaginas que não contemplo as objecções que colocas. Mas não é assim. E no entanto, mantenho a minha posição.

    Uma sinfonia, como um quadro, só é relevante quando reconhecida por uma mente adequadamente preconceituosa (no bom sentido!). Que quero eu dizer com isto? Conheces aqueles apitos para cães, que emitem numa frequência que não ouvimos? Imagina que um desses apitos toca a 3ª Sinfonia de Bobi. A generalidade dos cães estaria a deliciar-se com os acordes da autoria do genial rafeiro Bobi e tu e eu não ouviamos népia. Nem para amostra. Assim, não me fales de sinfonias como se elas existissem. Sabes lá as infinidades de sinfonias que estão agora a tocar, sem ninguém para as apreciar.

    Por isso digo e repito: há mais sinfonia na mente do Beethoven do que nas vibrações do ar à volta de uma orquestra que toca.

    Continuas a olhar para as constelações e a ver lá ursas, guerreiros, peixes e pégasos. Mas nota bem: só vês nelas coisas que conheces.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Se interpreto mal uma constelação ou se os músicos são imperfeitos a executar a partitura, isso não quer dizer que a sinfonia não tenha consistência. Haverá uma infinidade de sinfonias que não estão a ser escutadas, mas isso não quer dizer que elas não estejam lá, tal como o continente americano estava lá inteirinho antes de os "europeus" o verem.
    Penso que a polémica à volta do famoso gato de Schrodinger resulta da confusão entre "verdade matemática" e "verdade ontológica". Tão simples como a verdade absoluta de que dois mais dois são quatro mas dois Tiagos Neiva mais dois Tiagos Neiva não são quatro tiagos, porque só existe um.
    Pelo principio matemático da incerteza, de Eisenberg,há 50% de gato morto e 50% de gato vivo até (!) ao confronto com a verdade ontológica, que é o "facto" ou "acto" que acontece quando se observa.
    Diriamos, retomando Aristóteles, que o principio da incerteza só é válido enquanto a realidade está potenciada. Quando passa a acto acaba-se a incerteza.
    Penso que foi mais ou menos por pensar assim que Einstein afirmou que "Deus não joga aos dados".
    Mas olha que que estou pouco convencido com tudo o que acabo de dizer. Depois, há aquela estranha sensação de que estive a discutir o sexo dos anjos.
    Ajuda aí um pouco, se puderes, que eu arreio sempre, quando me ponho a pensar na teoria quantica. Cada vez percebo menos.

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  8. Não se pode verdadeiramente interpretar mal uma contelação - ela não existe a não ser na cabeça que a concebe! Onde tu vês gaots, eu vejo cẽs. Onde vês capricórnios, eu vejo baleias. E quando alguém disser que só há estrelas, está no caminho certo. Mas aí eu direi: e as estrelas são como as constelações...

    A minha casa-de-banho tem azulejos de mármore. Lá onde eu vejo cabeças de cavalo e rostos retorcediso não verás tu nada, ou outras coisas. Dizer que essas coisas estão lá é absurdo. Negá-lo não o é menos. Estão para mim. Para ti não.

    O problema do gato é difícil demais para mim. Contudo, creio que a afirmação é que o gato está, efectivamente 50% vivo e 50% morto. Eque a observação do facto só força uma aparente concretização num dos valores. Força, não revela.

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  9. Mas falaste do livre-arbítrio e desviei-te. No final, não percebi em que acreditas. Percebo que a liberdade teria, sempre, de ser constrangida pelo possível, e não ilimitada, como o sonho.

    Mas mesmo essa liberdade constrangida... crês, como eu, que também nas questões da liberdade é preciso descer ao nível quântico para que nem tudo seja rigorosamente determinístico? E que, a esse nível, a liberdade já não é "nossa"?

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  10. O que afirmo, sem pestanejar, é uma total falta de liberdade absoluta. Por isso disse que o livre arbitrio é um mito, como é um mito a ideia de um "alma separada" (ou mente, ou espirito), na qual se produziria uma vontade e uma liberdade (absolutas) não sujeitas às precárias estruturas da matéria.
    A única janelinha aberta para o mito do livre arbitrio é precisamente a capacidade de construir o mito, o sonho do impossivel, a afirmação consciente do contraditório, a busca verdadeiramente louca de alguma imortalidade.
    Reconheço que nada disto tem sustentação, porque não há estrutura molecular que o sustente. E a ciência não conhece nem reconhece realidades que não sejam mensuradas e mensuráveis. Observáveis, portanto.
    Mas a ciência não se aquieta na observação espontânea. Se vês na parede um leão e eu vejo um dragão, a ciência vai tentar a harmonização da observação com a realidade. No limite, estamos a falar da tentativa da "teoria de tudo".
    Verdadeiramente não percebo grande diferença entre o mito do livre arbitrio e a tentativa da "teoria de tudo". A diferença está sobretudo no método de abordagem. A filosofia persegue-o pela especulação e a ciência pela matemática. Se o mundo é, como diz Einstein, "a racionalidade materializada", poderemos concluir, então, que filósofos e cientistas estão no caminho certo, pois uns e outros seguem a razão. E o sonho de absoluto funcionará tão somente como estímulo.
    Como todos aqueles que, honestamente, se debateram com o problema do livre arbitrio e do determinismo, sinto-me perdido num labirinto. Mas posso sonhar, não é?

    De resto, concordo com Espinosa, na citação que o Lima nos trouxe: "o homem tem consciencia das suas acções, mas não das suas causas".
    E assim sabemos que sonhamos e construimos mitos. Quando soubermos, absolutamente, porque o fazemos, ficamos deuses.

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  11. Três vivas ao Espinosa que lhe deu na mouche!!!

    Boa, Mário. Parece-me que desta feita estamos completamente alinhados, o que é raro, o que é raro, eh eh.

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  13. Mas ainda falta a história do gato de Schrodinger.
    Esta história intrigou-me desde a primeira vez que a li. Na física quantica, tal como é exposta, sugere-se que a observação de algo é simultaneamente o acto criativo desse algo, sem nunca podermos chegar, por assim dizer, à "matéria primordial", sobre a qual incidiu a observação. Aliás, em vez de "criação" dever-se-ia falar antes em "revelação", porque, de facto, o "gato" já lá está, aguardando a observação. E o "gato" estaria num estado neutro -nem morto, nem vivo- e só quando é observado adquire um ou outro dos estados possiveis.
    Seguindo esta lógica poderia pensar-se que a observação "cria" os estados da matéria. Mas fica ainda por explicar que matéria é essa que adquire formas ou estados mediante a observação e que leis a suportam.
    Será que a física lida com as formas observadas da matéria, mas não com a própria matéria em si? Será que os físicos lidam coma a matéria (primordial) como os filósofos com o "ser"? Só faltava mais esta...
    Parece que alguém propôs que para alem das "formas" fica a verdadeira realidade, "o gato no estado neutro", como quem diz, a fonte de probabilidades.
    Já me doi a cabeça.

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