domingo, 6 de março de 2011

A Filosofia Está Morta (II)

No post anterior limitei-me a contrariar Stephen Hawking e a sua afirmação de que a filosofia estava morta, mas não posso deixar de concordar com ele quando diz que os filósofos não foram capazes de acompanhar a evolução da ciência. Não há contradição no que estou a dizer porque tem de ser feita uma clara distinção entre a filosofia e as "filosofias" ou sistemas filosóficos deste ou daquele pensador, por mais brilhante que seja. Apetece recordar aqui as palavras de Aristóteles acerca do seu mestre e gigante da filosofia, Platão: "Sou amigo de Platão, mas gosto mais da verdade".
Posso estar enganado mas fico sempre com a impressão de que a maior parte dos filósofos, nomeadamente os filósofos crentes, nunca foram capazes de se libertar de uma mundividência centrada no homem e pensando o homem como uma entidade separada da Terra Mãe e, consequentemente ,do próprio Cosmos.
Quando era muito jovem fiquei profundamente impressionado com uma sucessão de imagens que pretendiam mostrar as diversas fases da formação da Terra ao longo de biliões de anos de evolução. Habituado, desde a catequese cristã, a pensar num mundo criado em sete dias, aquelas imagens elaboradas pela ciência surgiam-me como uma revelação espantosa. Esse facto marcou-me o pensamento para sempre. Quando revia aquelas imagens de uma “bola de fogo” que foi arrefecendo até se tornar o Planeta Azul maravilhoso que conhecemos, espantava-me como do fogo surgira a vida. Depois foi só acompanhar, pela ciência, a evolução da vida até à surpresa extraordinária da mente humana. Também esta, naturalmente, com origem naquela Terra de fogo original.
“Naturalmente”, insiste a ciência, porque muitos crentes e filósofos recusam a maternidade genuína da Terra, fazendo do homem um filho bastardo, fruto da “ligação” a uma entidade divina, transcendente, sobrenatural, imutável, imortal. E então era como se o “corpo” viesse da Terra e a “alma” procedesse da Entidade.
Repugna a estes filósofos, e aos crentes, que da “não-vida” proceda a vida ou da “física” proceda a “metafísica”. Claro que o problema é complexo e nós não podemos julgar-nos senhores da última palavra, da última revelação, do último pensamento.
Aos filósofos pode parecer uma humilhação depender das ciências para avançar na busca da verdade. E não devia ser, porque a ciência, mesmo quando era incipiente a observação e a medição, sempre foi o ponto de partida para a especulação filosófica, excepto quando a base era a crença nas Divindades. Mas, neste caso, começava a confundir-se com a teologia.
Era bom que fossem definitivamente separadas as águas porque, defender a “dupla substância” como a realidade humana, pode ser fonte de orgulho e consolo para esta vida, vivida entre a alegria e a tragédia, mas, em contrapartida, aceitar a Terra como a nossa mãe por inteiro , vai conduzir-nos a investir tudo nesta nossa vida aqui e agora, como bons filhos da casa.
No plano do conhecimento científico e filosófico, ficará a certeza de que avançando no conhecimento das mais profundas leis que regem a Terra e o Cosmos, avançaremos, seguros, no conhecimento da nossa humanidade.
Já sabemos, pela ciência, que somos irmãos das estrelas, das orquídeas e das borboletas e eu, posso confessar, gosto muito de todos esses “irmãos de sangue”.

4 comentários:

  1. “Habituado, desde a catequese cristã, a pensar num mundo criado em sete dias...”

    Pois é isso mesmo Mário! Os nossos filhos, e muito mais os nossos netos já não dizem a mesma coisa. Nós, tu e eu, somos de um tempo que já não se usa, onde a nação era una e indivisível e a divisa : “Deus, Pátria e Família”. Tempos de infância, tempos de juventude, período de formatação dos cérebros para uma vida inteira. Cérebros virgens, carentes de verdades e dogmas para se estruturarem, prontos a receber tudo o que o meio ambiente, social e natural tenha para lhes oferecer.
    Sempre me interessou este facto tão evidente na vida das pessoas. Somos um fruto do meio ambiente onde nascemos. Primeiro o familiar, depois o social, o regional, o nacional. Compreende-se que nos seja, na pratica, impossível renegar as nossas origens. E consequentemente reformular as verdades e dogmas da nossa infância e juventude. Está aqui patente a origem das maiores desigualdades que os seres humanos têm de suportar.
    Recentemente tenho estado a traduzir do velho francês de 1770 uns textos antigos que relatam a história verídica de uma menina selvagem capturada numa aldeia de província, e que, na altura e mais tarde, interessou vários científicos da época. ( ver em http://a.lima.b.online.fr ). Acho que o fundo desta história ainda hoje dá matéria para reflexão. Faz-me lembrar uma pergunta que varias vezes tenho formulado, sem conseguir uma resposta satisfatória: que espécie de ser seria o filho de um doutor da nossa sociedade, vinte anos depois de, à nascença ter sido abandonado numa floresta do Zaire, no meio de uma família de Bonobos?

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  2. Os nossos cérebros são, como dizes, formatados pelo meio onde nascemos, pela época em que nascemos, pela cultura que recebemos. Não dá para fugir a essa realidade. E porque eu referi a visão religiosa cristã da criação do mundo, lembrei-me que há dias li uma citaçao do grande teologo católico, Hans Kung, em que ele afirmava que as pessoas assumem a religião do meio religioso em que nascem e crescem. As que são crentes, naturalmente. E diz mesmo que ele, católico dos quatro costados, seria mulçulmano ou indu se tivesse nascido noutras paragens.
    Tudo isto é verdade, meu caro Lima, mas também é verdade que o ambiente de liberdade, pluralismo, comunicabilidade universal, informação crescente, tende a tornar as pessoas capazes de suplantar uma "formatação" definitiva. A liberdade de escolha aprimora-se perante a abundancia da oferta. As civilizações "formatadoras" entraram numa espécie de concorrencia e o homem, como sempre, vai querer o melhor, que será o mais verdadeiro. Afinal, nunca o homem desistiu de procurar a verdade e não vejo, actualmente, o minimo sinal de que tenha mudado nesse aspecto. Antes pelo contrário, a ciência transformou-se numa verdadeira caça ao tesouro da verdade em todas as direcções. Fico maravilhado ver a dedicação apaixonada daqueles homens e mulheres, por exemplo na série National Geographic, na descoberta dos segredos do nosso planeta e do nosso cosmos.
    Claro que a imensa maioria dos cinco biliões que somos luta apenas pelo pão de cada dia ou para sobreviver à peste e à guerra. No seu desespero, tanto se lhes dá que sejam formatados desta ou daquela maneira. Querem é ver uma saída, por minima que seja, para a sua sobrevivencia e que alivie o seu desespero. E se lhes garantirem que essa saída vem do "céu", nem vão discutir.
    Apetecia-me concluir assim: gigantes são aqueles que superaram a formatação dos seus cérebros e criaram novos "programas".

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  3. Desde que o meu filho era pequenino (agora tem 9 anos) que o enganei com partidas e respostas falsas. Ele cedo se habituou a olhar duas vezes para mim e a interrogar-se se eu estava mesmo a falar a sério, se as coisas eram mesmo assim, ou se era mais uma aldrabice credível (ou perfeitamente disparatada, conforme a minha inspiração no momento). Achei que, a ter de formatá-lo, essa era uma boa opção. :-D

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  4. Mário, essa visão dos "irmãos de sangue" está mesmo nos antípodas da outra (mais popular) em que o mundo existe para nos servir. Comoveu-me um bocadinho (só - não sou um chorão, caraças!).

    O Limabar presenteou-nos com outro blog. Vocês querem acabar com a minha vida social!!!! Há aí um livro que me aconselharam em que se explicam as razões de sucesso ou não de uns quantos tipos, Bill Gates, etc. e, entre eles, a pessoa com Q.I. mais elevado do mundo (julgo eu), que não passou da cepa torta e está para aí numa quinta perdida dos EUA, porque a mãe se esqueceu de meter os papéis para ma bolsa, e outros problemas do género. Realmente os genes não preparam a viagem toda...

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