Vou pegar num dos temas mais controversos da actualidade e que opõe os filósofos ditos ateus aos filósofos teístas e teólogos. É a questão de saber se há ou não um desígnio para o universo que somos.
Será que por este caminho conseguirei dar alguma consistência às formas-modelos voláteis e irrequietas da Realidade do Luis? Não sei, mas uma coisa é certa: vou ter de lhe partir a cabeça por uma segunda vez desde que viemos para este sitio conversar…
“Tudo é composto de mudança”, como diz o poeta, mas em progressão criativa, digo eu. Neste sentido, aquilo que nós percebemos como mudança ou movimento é, fundamentalmente, uma realidade nova. Isto equivale a dizer que as coisas não mudam para ficar tudo como dantes, num bailado incessante , repetitivo e sem sentido. Porém, fique claro que o “sentido” da mudança está na nova realidade criada e não numa qualquer pre-determinação ou desígnio…mas só até que surja um observador interveniente. Penso eu.
Quando a força do vento derruba um vaso da varanda e cai, por acaso, em cima da cabeça do Luis que ia, também por acaso, a passar naquele preciso instante, não existe aqui qualquer desígnio, apesar de haver um nexo inquestionável entre causa e efeito e uma cabeça partida por cauda evidente.
Tudo se altera se for o malandro do Lima a atirar o vaso à cabeça do Luis. O nexo causal é precisamente o mesmo, mas agora há um tenebroso desígnio por detrás…
Esta pequena paródia coloca-nos , de certo modo, perante aquilo que os físicos designam pelos principios copernicano e antrópico. Claro que o vento que derruba o vaso sem qualquer desígnio pode sempre ser transformado no Deus Eólo, mas todos sabemos que tem tanto de verdade como o Pai Natal a descer pela chaminé e colocar as prendas no sapatinho.
Por outro lado, o tenebroso desígnio do Lima, tão real e eficaz como o Deus Eólo, quero dizer, o vento, é uma urdidura bem montada pelo Lima, que calculou a distancia e imprimeiu a força necessária ao gesto para realizar o intento. Esquema. Modelo. Forma. Ideia. Tudo nascido daquela cabecinha malandra.
O que não podemos fazer, em tempo algum, é esquecer a dupla face da realidade que contem nas suas entranhas tanto o desígnio (do Lima)como o não desígnio (do vento). A não ser que o Lima e a sua cabecinha pensadora tenta tanta consistência como o Pai Natal da chaminé!
Esta aparente ou real contradição do senhor “Real”foi percebida pelo Luis budista, o que faz prova da sua inteligência e de que não anda neste mundo por ver andar os outros. Apesar disso, não me dispenso de lhe partir a cabeça, porque fico sempre com a impressão que ficou parado a contemplar a sua fantástica descoberta. Não me admiraria nada que o Luis budista ao ver o Lima a apontar o vaso à sua cabeça, acompanhando o gesto com insultos à sua honrada mãe, lhe dissesse calmamente como o outro: então não sabes que está aqui um homem que não se importa que lhe partas a cabeça?
Assim também eu, Luis! Depois da anestesia da iluminação, aquilo não dói nada…
(E o Lima esfalfou-se em vã glória de exibição de poder).
Já perceberam a conclusão de que o “fundo das coisas”, bem real e bem duro, que eu disse que apalpava, é um paradoxo dos diabos. Ser ou não ser. Com desígnio, sem desígnio. Tudo à molhada!
Ajudem um bocadinho a descalçar esta bota. Seja lá o caminho que tomarem, nunca se vão livrar da contradição.
E cá para nós: que piada tem um jogo depois de chegar ao fim?
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
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O desígnio do Lima também podia ser outro. Em lugar de empurrar o vaso para a cabeça do Luis podia pegar nele e pô-lo ao abrigo do vento, para que, se por acaso, o Luis passa-se por lá não lhe caísse na cabeça “por acaso”.
ResponderEliminarEsta noção de acaso tem muito que se lhe diga. Nós mesmos somos filhos do acaso. Ou somos o que somos por desígnio de alguém?
Mas esta história do vaso é um exemplo de como o homem com capacidade de reflexão pode intervir em fenómenos que só acontecem porque, num dado momento, todas as condições estão reunidas para que aconteçam. Determinismo fatalista? Não creio. Se o vento empurrou o vaso para a cabeça do Luis é porque alguém lá o pôs sem pensar no vento. E a vitima foi o Luis. Mas há é o arguido! O vento, o vaso, a pedra onde ele estava, ou quem lá o pôs?
Olha, o Lima é que não foi! E se o Luis aparecer com um galo na cabeça, que procure o culpado, porque o Lima é boa pessoa e fará tudo o que estiver ao seu alcance para que isso não lhe aconteça.
Até já!
Esta conversa fez-me lembrar uma citação do Woody Allen:
ResponderEliminar"Não só Deus não existe, como vá-se lá tentar encontrar um canalizador ao fim-de-semana!"
De igual forma, também o ratinho na gaiola poderá sentir-se um bocado incomodado se pensar um pouco no desígnio do seu comportamento. Mas é vê-lo a correr animadamente, para nosso gáudio e contentamento.
No meu caso, a tijolada poderia levar a uma acção recíproca ou até a uma escalada de violência, mas isso é porque eu não gosto de perder nem a feijões e, mesmo vendo a futilidade da coisa, teria dificuldade em reagir de outra maneira. Mas eu chego lá! Eu chego lá!
(já tinha escrito isto antes do comentário do Limabar que vi agora aparecer, de forma que não vou ficar por aqui...)
Tudo verdades, tudo verdades, e no entanto... que pode o Lima fazer para mudar o comportamento dos seus próprios neuroniozinhos e alterar a decisão que, inexoravelmente, se prepara? Ou melhor, que raio de Lima é esse que está fora dos neuroniozinhos a tentá-lo? Nem sequer existe!
ResponderEliminarPortanto, inverto os termos do problema. Já não "o Lima é boa pessoa e fará tudo o que estiver ao seu alcance para que isso não lhe aconteça".
Antes, "o Lima é boa pessoa PORQUE fez COM QUE isso não lhe aconteça" e "o Lima não é boa pessoa PORQUE não fez COM QUE isso não lhe aconteça". E de que vale esta bela análise sobre o comportamento do amigo Lima, em termos absolutos? Nem um chavo.
Exactamente! Por isso, em primeiro lugar aceitar os factos tal como nos «aparecem» e «parecem» e em seguida tentar perceber o que é tudo isto que nos intriga tanto, sem nunca perder de vista que estamos a lidar não com a Verdade mas "segmentos" de verdade, que é o mesmo que dizer com a «nossa verdade». Não tenhamos ilusões!
ResponderEliminarA maior parte das vezes nós agimos de acrodo com aquilo que jà fomos quando eramos como o ratinho na gaiola. Evoluimos para uma mente consciente única, mas conservando como que em remeniscencia todo o historial passado. E a nossa realidade presente é que nós queremos um pouco mais que encher o papinho e divertir-nos na gaiola maravilhosa que é a Terra. Ou o Universo. Ou tudo aquilo que ainda não descobrimos.
Fique claro, porém, que não é minha intenção desfazer em quem não deseja mais que encher o papinho e brincar às casinhas. Ou casarões. Cada um chega a onde pode. Quanto a mim, juro que não vou deixar estiolar o desejo incontido de verdade possivel, mesmo que vendo apenas um palmo à frente do nariz. Porque o vislumbre desse simples palmo bastou para que o homem fosse mais que um rato e voasse até ao infinito das galáxias.
Eu começo o discurso sobre o universo a partir não daquilo que eu não sou -um rato- mas a partir do ser vivo que sou, estranhissima e surpreendentemente dotado de mente consciente. Seja lá como for que ela funciona e como ela emergiu (anda-se a tentar saber isso desde que nos descobrimos como tal), constato o facto, aceito-o e ajo em conformidade. E essa conformidade significa também pensar que se o universo não é um designio também a nossa vida não o é, e nós não seremos mais que a parte consciencia de um imenso «sem sentido». Mas é isso que falta demonstrar.
A vida parece apontar no sentido de um designio e, no fundo de cada um, é isso mesmo com que a gente sonha. A verdade, porém, é que é tão dificil demonstar o sentido da existencia como demonstrar que ela não seja um total absurdo.
Na hora de morrer, sou capaz de estar a pensar como o "Luis budista": sou rato, mas não sou rato.
O máximo que poderei dizer, e com isso me consolo, é que nunca vivi como um rato e deixei uma "história" que nenhum rato consegue "contar".
Não haverá maneira de fugir ao paradoxo?
Pedi uma ajudinha e vocês ainda complicaram mais...
Que tentação citar mais uma história do Buda. Não que ele resolva o problema, pois isso equivaleria a admitir que há um problema a resolver. A história a seguir trata do renascimento, mas poderia da mesmíssima forma tratar do eventual desígnio de que aqui falamos, ou não? Ei-la:
ResponderEliminar"Mas," perguntou Vaccha persistentemente, "quando alguém que tem essa emancipação da mente (liberta de si mesmo) morre, para onde vai, onde é que renasce?
O Buda respondeu:
"A palavra 'renasce' não se aplica ao caso."
"Então ele não renasce?"
"Dizer que ele não renasce, não se aplica ao caso. Também não se deve dizer que ele ao mesmo tempo renasce e não renasce, ou, mesmo, que ele nem renasce nem não renasce."
"Estou totalmente desnorteado, Buda, e a minha fé em ti desapareceu."
"Não importa que estejas desnorteado. Esta é uma doutrina profunda e difícil de compreender.
Imagina que há um incêndio à tua frente. Vês que arde e sabes que só pode arder, se tiver combustível.
E então vês que se apagou. Agora, alguém te pergunta, para onde foi o fogo - leste, oeste, norte ou sul? O que dirias?
"Eu diria que essa questão não se aplica ao caso, Buda. Pois o fogo depende de combustível, e quando não há mais combustível, diz-se que o fogo se apagou por falta de alimento. "
"Da mesma maneira, Vaccha, o corpo a partir do qual se pode ver a verdade vai morrer, como uma palmeira de leque, sem qualquer futuro. Mas aquilo que é a verdade, aquilo que é a própria existência, está lá embora seja profunda e infinitamente difícil de entender. Como o grande oceano, não se pode compreendê-lo. E por isso não se aplica ao caso dizer que vou renascer ou que não vou renascer. "
De Nikaya Digha do Buda
Editado por Anne Bancroft
Esta história vem mesmo a calhar, a propósito de eu afirmar que "na hora da verdade", que é a nossa morte individual, tanto faz ser rato como ser homem, ressalvando, no entanto, a única e grande diferença que é a história que se construiu.
ResponderEliminarNão sabemos como nascemos. Apenas podemos constatar o facto sem o explicar. E se não sabemos explicar o facto do nosso nascimento, muito menos saberemos explicar o "não-facto" do renascimento.
A pergunta de Vaccha não é estúpida mas é inútil porque não tem resposta possivel
Parece que a Buda faltou a humildade e a frontalidade de Sócrates (o grego), que era reconhecer a sua completa ignorancia acerca do misterio que nos envolve e dizer simplesmente: "Sei que nada sei". Em vez disso entreteve-se com o que me parece ser um jogo de conceitos para afirmar uma coisa e o seu contrário.
Não será assim, Luis?
(salta o advogado de defesa do Buda!)
ResponderEliminarNão exactamente, não exactamente. O papel do Buda, com frequência, é análogo ao de alguém que pretende ensinar outras pessoas a apreciar uma anedota. Uma estratégia pode ser ler anedotas às pessoas e ir-lhes explicando onde é que está a piada. Mas se else não percebem ou percebem mas não se riem, a coisa não está a correr bem. Outra estratégia é ler a cada um a anedota que ele está mais preparado para compreender, e ver se ele se ri ou não, e ir afinando a estratégia. Quando ele se rir, é porque percebeu.
Da mesma forma, para o Buda, a preocupação com os detalhes do renascimento do Vaccha revelam que ele não está bem direccionado para aprender o ensinamento. É que o Vaccha estava lá para perceber o ensinamento do Buda - estas perguntas iam no sentido de explorar a posição do Buda sobre alguns assuntos. O objectivo final não era aquela questão em particular.
No final Vaccha compreendeu bem a ideia, e juntou-se aos seguidores de Buda: "Mestre Gotama [Buda] [...] Tal como [...] se estivesse a mostrar o caminho a quem está perdido, [...] da mesma forma Mestre Gotama - através de muitas linhas de raciocínio - tornou o Dharma [ensinamento] claro. Procuro refúgio no Mestre Gotama, no Dharma e na Sangha [comunidade] de monges. Possa o Mestre Gotama lembrar-se de mim como um leigo que procurou refúgio nele, deste dia em diante, para toda a vida."
Há uma série de questões relativamente às quais o Buda se silencia: se o eu ou o Universo são eternos, finitos, se o eu persiste após a morte, se o corpo e o eu são a mesma entidade...
Isso pode querer dizer que não sabe, que não considera relevantes para a sua mensagem ou que as próprias perguntas estão corruptas em si mesmas, ou seja, contêm preconceitos na sua formulação que as invalida. Não me ou arrogar saber as suas razões, mas tenho os meus palpites.
Estava aqui a ler uma "sumidade" em História das religiões, o teologo alemão Kalr HeinZ Ohlig, que entre outras considerações, afirma acerca do sofrimento no budismo:"a consciencia de que toda a realidade historica está cheia de sofrimento constitui o fundamento do conhecimento;mesmo as experiencias aparentemente felizes, como o nascimento ou estar com uma pessoa amada, terminam inevitavelmente em sofrimento e, potanto, são-no desde o inicio".
ResponderEliminarO budismo faz aquilo que de que eu já tinha suspeitado e que é a pretensão de trasncender o tempo ou não considerar a sua realidade (Os sofrimentos futuros são-no desde o inicio...). Podemos realmente fazê-lo, em pensamneto, e em pensamento olhar-nos dentro do caixão. Se nos abstrairmos da nossa realidade temporal podemos afirmar "estou vivo, mas estou morto" ou "existo, mas não existo" etc, porque presente, passado e futuro fundem-se ...num pensamento.
Bem, se toda a realidade não for mais que um pensamento, até pode ser. Mas qual pensamento, o meu ou o teu?
Ai o tempo! Esta abençoada realidade permite-nos distinguir entre o nascimento e a morte, entre o dia e a noite, entre o ser e o não ser, entre uma jarra inteira e uma jarra partida, entre o principio de um jogo e o apito final (e o FCP perdeu, Lima!!!).
Entre mim e ti!
Dizem agora os fisicos teóricos que o tempo nasceu com o Big Bang e desde então faz parte intrinseca do tecido do Cosmos.
E com ele se mediram os oitenta anos do "Iluminado" (Buda).
Contraponho ao budismo que o sofrimento não é mais nem menos realidade que a felicidade. Há um tempo para cada coisa.Um tempo para chorar e um tempo para rir.
Nem tudo é triste, nem tudo é fado.
Ah Luis fadista!...
Há um tempo para chorar e um tempo para rir. Mas há bem mais gente a chorar que a rir. E no fim morre-se.
ResponderEliminarSem amigos e sem pão
Lá morreu a Mariquinhas
Dizem que foi no caixão
Feito só com tabuínhas
Caraças, serei assim tão pessimista? Nem por isso, estou a fazer a parte...
Mas busco a Verdade. E isto parece-me verdade.
Pois se é a verdade que procuramos, temos de fazer um esforço sério para reparar em todas as facetas da realidade. O sofrimento é uma delas, incontestavelmente, mas a alegria genuína também. A ausência da percepção de um desígnio para a nossa vida e para o nosso universo e é um facto, mas também é verdade que, no dia-a-dia, vamos construindo um desígnio para a nossa vida, ainda que no curto e médio prazo. Fazemos não o "máximo" mas o que podemos. E desta acção e luta resulta a história que somos.
ResponderEliminarSei que esbarramos com o paradoxo inultrapassável de não conhecermos um desígnio para o nosso Universo, e mesmo assim tudo fazemos para criar um destino para nós, alimentando, de mil e uma maneiras, o sonho do impossível. A fé dos crentes já lhes proporciona um desígnio claro. Mas eu chamo a essa fé apenas um sonho (quantas vezes povoado de terríveis pesadelos).
E a vida parece espicaçar-nos não só para a luta, que chega a ser heróica, mas também para o sonho do conhecimento total da verdade e que a fé pretendeu, sôfrega e até infantilmente, antecipar.
O autor alemão que citei no comentário anterior sugere que Buda compreendeu em toda a sua extensão e profundidade o sofrimento do homem e a total incapacidade para alterar uma realidade onde a morte e a vida se confundem, abstraindo o lapso de tempo-espaço que as separa. E observa que o "nirvana" consiste na anulação deste pesadelo que é a existência individual. (Em algumas tendências budistas).
Por isso o Luís disse que o objectivo da ascese budistas (de algumas correntes) não é renascer, porque seria, ainda e outra vez, nascer para o suplício da existência. Perfeito-perfeito, seria a pura extinção de mim...
Mais pessimismo não pode haver!
E a que nos leva o optimismo? Simplesmente às outras faces da realidade e da verdade, que são tão reais como a dor.
E era acerca desta contradição de uma existência simultaneamente dolorosa e prazerosa que eu queria que dessem uma ajudinha.
E vocês baldaram-se, amigos do caraças...
" Perfeito-perfeito, seria a pura extinção de mim..." - ná. Dizer isso não se aplica ao caso. Da mesma forma não se aplica dizer que o "mim" existe, etc.
ResponderEliminar:-)
Eu, sinceramente, não vejo contradição nenhuma nesta existência ser prazerosa e dolorosa ao mesmo tempo. Nas carpintarias há farpas no chão. São mesmo assim. Não há razão para espanto, nem sombra de contradição. Eis outra consequência da iluminação budista: os opostos desaparecem. Nem bem, nem mal, nem cima, nem baixo, etc. Onde tudo é relativo, nada é absoluto. Termina aqui a dualidade. E termina a não-dualidade. E, por fim, termina o discurso. Pois o discurso destina-se a fixar algo, a circunscrever algo, e nada é fixo, nada é circunscrito. Após ver de frente a verdadeira natureza da realidade, que as montanhas não são montanhas, que os rios não são rios, é já sem ilusão que se pode voltar a ver as montanhas como montanhas, os rios como rios.
ResponderEliminarhttp://macroscopio.blogspot.com/2005/03/10-touros-de-kakuan.html
ResponderEliminar«Há bem mais gente a chorar que a rir. E depois morre-se». Diz o Luís.
ResponderEliminarO prazer e a dor não são meros conceitos, mas pessoas incarnando a dor e a alegria, com o mesmo realismo com que chegam à conclusão de que as montanhas e os rios "são aquilo que parecem e não são aquilo que parecem". Ao atingir o «nirvana» o budista continua a ser um pedacinho de Terra, tanto quanto o rio, a montanha ou eu próprio. A «iluminação» não altera senão o curso de uma "história individual". O monge que escolhe realizar esse seu desígnio de iluminação, ignorando tudo o mais, acabará prisioneiro do que pensa ser o seu próprio desígnio, isolado num convento, amortalhado numa túnica amarelo torrado. Entretanto, os «apegados» à ilusão das coisas, que «são e não são» aquilo que parecem, "forçam" o destino, apesar da consciência de que caminham em direcção ao desconhecido. E os homens da ciência estão na linha da frente.
Sei que «vou aos ombros desses gigantes» e o primeiro tributo que lhes presto é reconhecer o seu talento e a sua ousadia de «remar contra a corrente».
A fé dos nossos antepassados deu-lhes alento para caminhada e agora estamos numa espécie de "passagem do testemunho" em que a ciência continua a esperança da fé antiga. Quem adoece corre para o médico e não para o altar dos Deuses. E estes já só são invocados onde a "medicina" falha e a pouca instrução campeia.
Há um motivo que, mais que qualquer outro, me afasta do budismo. É a sensação de que tudo se passa como se os homens não tivessem nada a ver uns com os outros, dentro da sua lógica de que «ser ou não ser» vai tudo dar ao mesmo. Eu penso que a vida nos “impõe” a solidariedade. Todos dependemos de todos e de tudo e os nossos actos têm consequência sobre tudo e todos. Quando assumimos a consciência desta interdependência e interactividade, não há nada que justifique o isolamento monástico como «modus vivendi».
Digo eu, que já fui monge.
(continuação)
ResponderEliminarHistoricamente, porém, o papel da vida monástica meditativa serviu como alerta e como verdadeira «carta às nações» sobre a extraordinária condição do ser humano. Era a hora de arrancar o homem, definitivamente, à sua animalidade profunda e verdadeira, fazendo-o descobrir as potencialidades para ir muito mais além.
Essa mensagem está, hoje, interiorizada numa Humanidade que proclama os direitos universais da pessoa humana e o monaquismo deve ser preservado na sua historicidade como mais uma das preciosidades herdadas dos nossos avós.
Cuidadosamente arquivado.
Neste inicio do século XXI já todos sabemos que a estrutura basilar de tudo o que somos não assenta em duros e pequenos blocos de «matéria» ou «espirito» mas num tecido mil vezes mais subtil que o mais subtil e invisivel dos fantasmas. O «milagre» de Jesus entrar na sala onde se reuniam os apóstolos, através das paredes ou portas fechadas, é uma brincadeira de ilusionistas, quando comparado com a «perfomance» dos neutrinos provenientes da radiação solar que atravessam o diametro da Terra com a facilidade do sol através da vidraça...
"Todos dependemos de todos e de tudo e os nossos actos têm consequência sobre tudo e todos. Quando assumimos a consciência desta interdependência e interactividade, não há nada que justifique o isolamento monástico como «modus vivendi»."
ResponderEliminarAhahah. Não há frase mais budista do que esta, curiosamente! Com toda a certeza, quando já se assumiu *verdadeiramente* "a consciência desta interdependência", para quê ser budista? É como estar curado e continuar a tomar os remédios - só se pode piorar.