Em preâmbulo ao acontecimento, o conceituado semanário “Le Figaro Magazine”, publica um vasto dossier de oito páginas, onde vários autores, com autoridade nos meios científicos e religiosos franceses, afirmam a sua adesão, duvidas, ou contestação frontal às ideias base expressas pelo autor. O conjunto dos textos apresentados, põe em evidência as principais correntes de ideias que, actualmente coexistem nos meios científicos e religiosos.
Primeiro, os adeptos incondicionais das teorias de Hawking. Esta ala avançada da ciência moderna, abraça por inteiro a primeira ideia base da obra do astrofísico: “O universo não precisa de Deus para existir”. E o autor, talvez precisamente em atenção aos seus mais próximos seguidores, lança a pergunta, em jeito de desafio: “Qual a evolução do universo ?”. “Por que é que o universo existe ?”. E acrescenta: os cientistas devem dar uma resposta. E, para Hawking, é claro que a resposta não deve incluir agentes externos, sejam eles deístas ou filosóficos. Aliás, logo no segundo parágrafo do seu livro, ele adverte: “A filosofia está morta, porque não conseguiu acompanhar o desenvolvimento da ciência moderna, em particular da física”.
Em posição frontal a esta corrente, como bem demonstram vários artigos do dossier “Figaro Magazine”, encontra-se o poderoso flanco cientifico-religioso, onde os chamados movimentos criacionistas ocupam a frente de ataque às teorias “meramente hipotéticas” da auto-criaçao do universo. O movimento tem por assento fortes personalidades, como Arcebispos Anglicanos, Grandes Rabinos, Bispos católicos, Imames, e mesmo ateus de comportamento exemplar. E a primeira arma de arremesso utilizada, parte de uma pergunta relativa ao universo, não da autoria de Hawking, mas à qual ele tenta responder na sua obra, e que o filosofo e matemático G. W. Leibniz lançou há vários séculos: “Por que existe alguma coisa, em vez do nada ?”. A resposta de ataque é que: “A física sozinha, não é capaz de responder a esta pergunta”. E a carga continua sobre a fragilidade das teorias cientificas, apontando o facto de o próprio Hawking se contradizer agora, a respeito de certas hipóteses expressas no seu anterior livro:”Uma breve história do tempo”.
Entre estas duas colunas de seguidores e detractores, existe um certo numero de “amadores de teorias”, que concordam sem concordar e discordam sem discordar. Para estes, nem a ciência é “diabólica”, nem a crença em Deus é dogmática. Defendem que uma coexistência é possível entre a ciência e a religião. E argumentam: “Deus não é refutável pela ciência. Pois para demonstrar que Deus existe era preciso conhecê-lo. Como O podemos conhecer se não existe ?”. Outros confessam: “Não temos prova nenhuma da existência de Deus, mas também não temos prova da sua não existência. É vão procurar uma prova. A crença não é racional”.
O livro de Hawking tenta sugerir respostas para as descobertas cientificas recentes e os consequentes avanços teóricos. As previsões das teorias quânticas revelaram-se notavelmente exactas nas escalas atómica ou subatómica, deixando paralelamente espaço para as antigas teorias clássicas que repousam sobre concepções radicalmente diferentes da realidade física.
Resumindo: mais uma pedra no lago já agitado das ideias vanguardistas da actual cosmologia e astrofísica, que risca de provocar ondas incontroláveis, capazes de atingir outros espaços periféricos, em domínios ancestrais até hoje invioláveis.
No entanto, não esqueçamos: em ciência nada é definitivo.
In "The Grand Design" Hawking says that we are somewhat like goldfish in a curved fishbowl. Our perceptions are limited and warped by the kind of lenses we see through, “the interpretive structure of our human brains.” Albert Einstein rejected this subjective approach, common to much of quantum mechanics, but did admit that our view of reality is distorted.
ResponderEliminarEinstein’s Special Theory of Relativity has the surprising consequences that “the same event, when viewed from inertial systems in motion with respect to each other, will seem to occur at different times, bodies will measure out at different lengths, and clocks will run at different speeds.” Light does travel in a curve, due to the gravity of matter, thereby distorting views from each perspective in this Universe. Similarly, mystics’ experience in divine oneness, which might be considered the same "eternal" event, viewed from various historical, cultural and personal perspectives, have occurred with different frequencies, degrees of realization and durations. This might help to explain the diversity in the expressions or reports of that spiritual awareness. What is seen is the same; it is the "seeing" which differs.
In some sciences, all existence is described as matter or energy. In some of mysticism, only consciousness exists. Dark matter is 25%, and dark energy about 70%, of the critical density of this Universe. Divine essence, also not visible, emanates and sustains universal matter (mass/energy: visible/dark) and cosmic consciousness (f(x) raised to its greatest power). During suprarational consciousness, and beyond, mystics share in that essence to varying extents. [quoted from "the greatest achievement in life" on comparative mysticism]
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ResponderEliminarAinda há pouco estava a dar a ração aos meus unicórnios invisíveis e a pensar nisto mesmo. Realmente, como podemos negar Deus, se não O conhecemos? E como podemos conhecê-LO, se não existir? Muito mais haveria a dizer, mas estão a tocar à porta. Devem ser os gnomos.
ResponderEliminarO Ron Krumpos recorda-nos a velha discussão acerca da objectividade ou subjectividade do nosso conhecimento. Conforme nota, uma boa parte da mecanica quantica propõe que toda a realidade que percepcionamos não é senão o produto dessa percepção.
ResponderEliminarSerá uma tentação afirmar, a seguir, que só existe essa realidade.
Não me custa aceitar que só conhecemos o universo que captamos com "as nossas lentes"
O que não posso é esquecer que nós e a nossa mente não somos uma realidade exterior a esse universo. Há um continuum de "substancia" entre a mente humana e o universo. Sendo assim, a nossa mente, necessariamente, faz uma leitura verdadeira, ainda que "personalizada", do "tecido do cosmos". Imaginemos que a nossa mente é um cálice, e o tecido do cosmos um delicioso vinho do porto. Ao encher o cálice, a subtstancia cosmica adquire a forma do cálice sem, no entanto, perder a sua essencia. E, claro, há muito mais vinho que aquele que enche o nosso cálice...
Resumindo: nós interagimos com a essencia do universo porque somos da mesma substancia cósmica. E, já agora, a sua consciencia.
"Há um continuum de "substancia" entre a mente humana e o universo. Sendo assim, a nossa mente, necessariamente, faz uma leitura verdadeira [...]"
ResponderEliminarO que é uma "leitura verdadeira"? Há para aí muita gente a fazer muitas leituras erradas de muita coisa... ai o significado!
Realmente o termo "verdadeira" leva a equivocos. Aqui, e no seguimento do que acabara de afirmar, quer dizer que nós interagimos com a realidade cosmica. Interagimos mesmo. Não é nem um sonho nem um faz-de-conta.
ResponderEliminarE já agora que se falou em existencia de Deus: se for uma realidade cosmica, também dá para aprofundar o estudo.
ResponderEliminarComo estamos a clarificar conceitos, aproveito para dizer que quando falo em realidade estou a falar do cosmos, nós e tudo. Exactamente este cosmos duro ou mole, cheio ou vazio, conhecido e desconhecido, enganador e sedutor. Quando nos enganamos ou iludimos, não "perdemos o pé"; estamos, simplesmente, a experimentar uma realidade pouco agradável. Assim como quem pisa um monte de esterco. E acontece tantas vezes!
ResponderEliminar"O Universo não precisa de Deus para existir". Esta afirmação de Stephen Hawking repete tudo o que se disse depois de conhecidas as leis da gravitação de Newton. Até Newton a generalidade do pensamento aceitava acriticamente que Deus era directamente responsável pela precisão extraordinária do movimento dos corpos celestes. Depois das leis da gravitação dispensava-se a acção divina nesse processo.
ResponderEliminarEstamos ainda nisto, como releva da afirmação de Hawking. O que mudou foi o "horizonte de eventos". Ou seja, comprovou-se a autonomia das leis da física a um nivel mais profundo. Deus continua "a mais" na física da relatividade geral e na fiísica da mecanica quantica.
E vai continuar a sobrar enquanto se pensar em Deus como "explicador de mistérios". Quando não houver mistérios Deus deixa de ter utilidade.
Por isso penso que o debate entre Deus e Ciencia tem que ser colocado como sempre foi colocado, para se dizer alguma coisa de jeito.
Descartes é interprete do pensamento tradicional e passou-nos a batata quente para as mãos.
Para este filósofo e matemático existem três "substancias" que confrontam o pensamento do homem: a "res cogitans", a "res divina" e a "res extensa". Ou seja, o homem pensante, Deus e o mundo material.
O problema que se põe actualmente é entre a aceitação de uma "substancia" única e a aceitação de uma "substancia" dupla ou tripla.
A pergunta que se deve colocar é se a "realidade" é um continuum absoluto -única substancia- ou se estaremos em presença de uma realidade descontinua, admitindo por exemplo, o dualismo no homem e o sobrenatural.
Quem aceita a "realidade continua" da única substancia não tem de preocupar-se com "Deus" e vai investir todo o seu génio na descoberta dos mistérios da "subatancia única". E já terá mistério suficiente para se entreter...
Quem defende a "realidade descontinua" terá de ir à procura da tartaruga gigante que sustenta o universo. E depois ainda perguntar quem sustenta a "tartaruga fundamental". Um outro modo de fazer a pergunta de Einstein: "quem criou o Criador".
Como se eu estivesse a dizer que o problema de Deus nem se coloca quando partimos do pensamento e da lógica da "realidade continua".
Mas pode-se, sempre, continuar a discutir o sexo dos anjos ou o tamanho das barbas de "Deus Artifice" do relógio cósmico.
A minha falta de comentários reflecte apenas até que ponto a questão de deus está para mim encerrada.
ResponderEliminarO resto que eu ia dizer era uma graçola que censurei. Uma graçola não justifica o risco de magoar alguém.
O homem criou os deuses e depois disse que foram os deuses que criaram o homem. E assim chegamos a uma espécie de história do ovo e da galinha.
ResponderEliminarUm olhar distanciado sobre esta história ou debate releva da nossa exraordinária condição que evoluiu até ao pensamento consciente.
Dar este debate como um caso encerrado é opção válida para o "homem que eu sou sou", sem nunca esquecer que há pelo menos alguns biliões que me interpelam sobre esta humana questão.
Pois é: trata-se de uma questão eminentemente humana, como a filosofia, a criação artistica, a matemática e as ciências.
É tão ocioso parar diante de um quadro de Picasso para lhe descobrir e admirar o pensamento, as emoções e os sentimentos traduzidos nas formas e nas cores, como reflectir sobre o crente ajoelhado diante do altar dos templos ou do altar do universo.
Podemos, sempre, passar, indiferentes, frente a um "quadro" ou a outro. Até poderiamos afirmar, sem faltar à verdade histórica, que no principio era a indiferença. E também assim a modos como de "um boi a olhar para um palácio".
Devemos ter em conta que a nossa “fé”, qualquer que ela seja, é um sentimento estritamente pessoal, circunscrito ao nosso “ser”, e como tal de nenhuma forma deve invadir ou afectar a “fé do nosso vizinho. Todo o ser humano tem no seu íntimo um altar secreto, lugar onde pratica o culto ao seu “Deus”, lugar sagrado que defenderá até às ultimas consequências. E não nos iludamos, todos o temos.
ResponderEliminarMas não vale a pena ir mais longe, não tenho a pretensão de ensinar isso ao Luís e o Mário.
E a pergunta que se faz é porque tento impor a "minha fe" a outros, quando ela é assim tão pessoal e única. Chega-se até a matar por essa imposição, como numa luta de machos pela posse da fêmea.
ResponderEliminarSem querer parecer muito oco, não vislumbro onde esteja esse lugar sagrado em mim. Talvez alguma emoção primordial, que a música desperta em mim. Mas dizer que lhe presto culto... ó Lima, se calhar sou mesmo oco.
ResponderEliminarSe bem entendi o Lima, ele não tinha em mente, especificamente, qualquer crença religiosa, embora também possa ser isso, dependendo do "santo" que veneremos no altar interior. O Lima poderia estar a referir-se a algo como o "eu" de Damásio, meticulosa e laboriosamente construido, que define e "impõe" a nossa subjectividade. Por exemplo, Luis, esse teu pessoalissimo budismo preenche-te uma boa parte do "eu" e, assim, não chegaste até nós, oco como uma cabaça.
ResponderEliminarBoa leitura Mário! Era por aí que andava o meu pensamento. E acho que o Luís também aí chegou. Talvez o seu pragmatismo existencialista lhe dificulte o acesso ao seu altar secreto. Em todo o caso duvido que ele o não tenha, como todos nós. De outra forma como justificar o interesse filosófico e humanista que tão eficientemente nos tem demonstrado. Porque os “Deuses” do nosso altar secreto nem sempre são divindades ou entidades super-cósmicas, supostamente omnipotentes. O Mário chegou lá. O nosso “EU” profundo, o superego inconsciente e tão presente na nossa componente humana e metafisica. Refúgio inconfessável nas horas de tormenta, lugar de reencontro e de confronto de “SI” consigo mesmo. É esse o altar secreto a que me referia. Sagrado, talvez nem sempre, mas intrinsecamente deísta, por natureza.
ResponderEliminarE quase ia dizer que o Luís estará de acordo!
Deista em que sentido, Lima? Pergunto, porque o meu "eu" está mais próximo do "egoista"- egocentrista. Assim como se passasse a vida, desde o útero materno, a construir um pequeno pedestal aonde subir para aparecer diantes dos outros.
ResponderEliminarE "os outros" também é o universo donde procedo e onde cresço.
Pensando bem, é como se tudo começasse em mim e girasse à minha volta. Tu "interessas-me" porque um dia entraste na minha vida. E o Luis, porque há uns tempos atrás tropecei nele na blogosfera...
Porém, tenho plena consciência de que as coisas não são nada assim. Porque,quando "cá" cheguei, já existia uma imensidão de mundo que não era este recem chegado "eu". Mas há muitos "eus" que esquecem esse facto e acabam isolados no seu insignificante pedestal.
Desci do meu para vos abraçar e estou todo contente.
Até parece que era isto que "eu" procurava, como que sentindo necessidade de vocês confirmarem que "eu" existo.
Não se importam de ser minhas "testemunhas vitais"? Posso retribuir-vos o jeito que me fazem...
Deísta precisamente nesse sentido que apontas. Não é o nosso “EU” profundo, visto do nosso altar secreto, uma entidade “toda poderosa”, centro do “nosso” mundo, pedestal de onde abrangemos o resto do universo, como bem dizes? Uno e indivisível. Único e irrepetível. Tudo atributos a consonância deísta! E egoísta! Monstruosamente egoísta! Mas... o egoísmo não é também um atributo de deuses?
ResponderEliminarLembro-me de um pequeno livro de James Redfiel, que li aqui há tempos e cujo titulo é “Et les hommes deviendront des Dieus!”. O autor realça aí as enormes potencialidades do ser humano, a nível individual, como uma força extraordinária empurrando a humanidade para progressos insuspeitos.
Força extraordinária digna de deuses...
Entendi, meu caro Lima. Deistas, deuses mesmo, mas...de calças na mão. Deuses que esperam, não o incenso ou os sacrificios de animais, mas a afirmação dita e repetida: tu existes! tu és! nós te reconhecemos!
ResponderEliminarDeuses que parecem precisar desesperadamente de nós para que lhe reconheçamos a existencia.
Também é isso que esperamos uns dos outros. Que reparem em nós, que nos reconheçam e afirmem a identidade.
Será um exagero de "egoismo", mas o que queremos mesmo é que nos amem acima de tudo e como únicos!
E os dez mandamentos se resumem em um só, tal como aprendemos na catequese da infancia: "adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos".
E nunca pensamos, nós que fomos criados no cristianismo, que o nosso Deus precisava tanto do nosso amor como nós do seu. Que Deus tão carente de amor é esse? E eu respondo: um Deus feito à nossa imagem e semelhança. E nem podia ser de outra forma, porque foi assim que construimos a nossa maravilhosa cultura milenar.
Apetece dizer que somos mais que deuses porque fomos capazes de os criar...
Subscrevo na totalidade! Até parece que tivemos os mesmos professores!
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