quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Em jeito de conversa...

No meu último post não foi minha intenção lançar uma polémica sobre o conceito de livre-arbítrio. Sei que as correntes filosóficas sobre o tema são várias e foram discutidas por imensos pensadores e filosofos. A minha ideia de base era focar a nossa dependência consciente, e sobretudo inconsciente, do ambiente em que vivemos. Mostrar que a parte cultural da nossa consciência, é o resultado da interacção do nosso eu com o mundo exterior. (Eu vejo a consciência como um todo constituído de duas partes distintas e indissociáveis: a biológica, herança da espécie, sobre a qual o nosso poder de acção é quase nulo; a cultural que construimos a cada instante da nossa vida.) O que eu queria trazer à luz é o facto de, em relação ao meio em que vivemos, não passarmos de um pião das nicas, puxados, empurrados, sacudidos pelos ventos interesseiros e interessados dos vários agentes que nesse meio pululam. Sendo nós próprios um componente desse meio, não nos é dado ignorar nem rejeitar tudo o que dele nos vem, mas cabe-nos o direito de questionar, seleccionar e guardar unicamente o que julgarmos útil ou agradável.

Acho este ponto importantíssimo na construção da consciência de cada ser humano. Quando nascemos somos um livro branco, nem os registos da herança biológica são legíveis. A qualidade de toda a nossa vida vai estar sujeita à pertinência do que aí será escrito. Estarão aí os mandamentos, as leis e os preceitos que vão fazer de nós o que seremos.

No meu ultimo comentário permiti-me, de certa forma “julgar” o Mário e o Luis. Acreditem que o fiz pela simpatia que me transmitem os vossos “taco a taco”. Em resposta o Luis não hesita em resumir-se numa quadra, que não rima é certo, mas que contêm com certeza a “poesia” da sua vida.

Quanto a mim, confesso, prefiro o espectador ao actor, e o ”eu” emprego-o mais a discutir comigo próprio do que a falar com os outros. Aqui vai uma amostra que me aconteceu aqui há uns tempos. Não é uma queixa, é uma constatação.



VIDA


Corri, escorreguei, caí,

Rachei um dedo, gritei.

Foi assim que comecei

A vida que não escolhi.


Porta aberta, eis-me lançado

No pantanal da existência.

Sonhos, loucura, inocência...

Tudo levei num braçado.


Ela está onde, a verdade?

Quem socorre um vagabundo...?

Era a manhã deste mundo,

Princípio da eternidade.


Alguém chamou, deu um grito

Que tudo estremeceu.

-Anda, pega, o tempo é teu,

Ouro, glória... o infinito!


Prometeu coisas sem fim!

Fiz contrato e assinei.

Dei mãos à obra, lutei

Até dar cabo de mim.


Vida sacana, canalha.

Que pesadelo medonho !

Se não acabo este sonho

Não há santo que me valha!


17 comentários:

  1. É uma queixa, sim senhor, mas também mais alguma coisa. Vejo ali inconformismo e até revolta. Não te conhecia poeta e gostei da amostra. Manda mais.
    Não te preocupes com a minha disputa com o Luis, que somos gente boa.
    O teu post fez-me pensar no que disseste sobre mim, que eu era um «idealista mas tinha os pés bem assentes no chão». Agora leio no teu post a afirmação de que «quando nascemos somos um livro em branco». Não sei exactamente a que te referes, mas terás oportunidade de especificar.
    O que tenho para te dizer acerca dos "pés bem assentes na terra" é que, bem mais que «assentes» eles estão mergulhados na terra e com raízes bem profundas. A «terra» me deu tudo o que fui à "nascença". Uma vez gerado, começou para mim a aventura do que sou hoje.
    Às vezes fico a pensar que as pessoas ainda não interiorizaram bem o significado de ter-se conseguido sintetizar a vida em laboratório. Quando a ciência perspectivar a reprodução da vida tal como ela chegou até nós, mesmo que lhe falte ainda a tecnologia para a concretização, isso quer dizer que todos os elementos necessários à vida como nós a conhecemos estão aqui na Terra e nós somos o produto "acabado" da sua fabulosa combinação e re-combinação.
    Quem defende, como António Damásio, a unidade intrínseca do ser humano, tal «construção da vida» só vem confirmar as suas teses. Mas será dramático para aqueles que sempre acreditaram no dualismo corpo-espirito, como duas substâncias diferentes. O caso não é para menos, pois se no homem existirem duas realidades distintas, o mesmo homem terá dois destinos diferentes, sendo um para o espirito e outro para o corpo. E o nascimento e o destino da parte espiritual teriam sido projectados no …extra-cosmos, seja lá o que isso for.
    A revolução de Copérnico vai parecer uma brincadeirinha comparada com a «construção» da vida e da «vida consciente».
    Não sei como alguém vai convencer alguém a ir para a guerra, com altas possibilidades de morrer, quando desaparecer, claramente, do horizonte humano a esperança de alguma forma de sobrevivência. Nem quero pensar nisso.
    O lado positivo da questão é a valorização da vida, talvez como nunca terá ocorrido na história humana. O reconhecimento dos direitos do homem, da criança, do idoso e até dos animais e das plantas já é uma realidade. E veremos desaparecer o espectáculo medonho dos «mártires» que imolam o corpo, acreditando salvar a alma.
    O cristianismo, embora pregue na sua doutrina da ressurreição dos mortos que há um destino comum para o corpo e para a alma, embarcou na ideia da imortalidade da alma, ficando evidente que a filosofia da unidade do ser humano é bem mais fácil de ser pregada do que ser aceite. E, de facto, nem foi aceite, nem foi interiorizada na cultura, na ética e na moral cristãs. O dualismo entranhou-se até á medula dos ossos, aderindo-se a tudo o que é espiritualismo, chegando-se ao ponto de inventar as «alminhas do purgatório». “Galileu”, mais uma vez, fará prova da verdade.
    Estás a ver, Lima, o que eu entendo por ter os pés «assentes na terra»? Era nisto que estavas a pensar?

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  2. A frustração vem das expectativas irrealistas. Quem entra numa carpintaria, sabe que há farpas no chão. Não há por que protestar. A Lei da Causa e do Efeito é ditadora, não vale a pena gritar nem estrebuchar (agora caía-me o Mário em cima, chamando-me de passivo, não acrescentasse eu que:), a não ser os gritos e os estrebuchamentos que, implacavelmente, a mesma lei nos imponha. E com frequência fá-lo.

    É que essa lei dita tudo: dita o biológico, herança da espécie, sobre a qual o nosso poder de acção é quase nulo; e dito o cultural, que construimos a cada instante da nossa vida, sempre em cumprimento da lei.

    Pois foi o próprio Damásio, Mário, que (no seu recente livro que ainda agora vinha a ler) defendeu claramente a ideia de que aquilo "que julgarmos útil ou agradável", para depois podermos "questionar, seleccionar e guardar", está programado em nós em critérios de valor biológico que condicionam (absolutamente, digo eu) a vontade consciente - porque fazem parte da sua própria essência. Pés na terra.

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  3. E já reparaste, Luis, que tens consciencia de que estás programado ou condicionado? E, sabendo disso, não poderás fazer nada para alterar? E essa mesma consciencia não é uma novidade absoluta em relação ao «ser» programado ou condicionado?
    Para mim, esta «consciência de ser» é a novidade que faz de nós únicos entre os vivos e só a partir dela se pode exercer o livre arbitrio e transcender o determinismo biológico. Mas como pode a "chama" transcender a "candeia" que a torna possivel? Como é que Terra fez de mim o que sou e eu a confronto com a "natureza" da sua criação? Que mistérios, não revelados ainda, nos esconde a Terra ou o nosso Universo?

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  4. Se não posso fazer nada para alterar?! Posso! TENHO de o fazer. "O meu lívre arbítrio
    conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.".

    Raio de pescadinha de rabo na boca! :-)

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  5. E não ficas com a sensação de que estás sempre «um passo à frente» da fatalidade?

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  6. Bem, agora vais dizer-me que estás «fatalmente consciente»...

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  7. Bem previsto. Tentei dizer o contrário, mas não consegui... já não fui a tempo de me surpreender! ;-)

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  8. Entre o “fatalmente fatal” e a lei “absoluta” da “ Causa e do Efeito”; entre a programação e o condicionamento, deixem um pouco de liberdade e livre-arbítrio ao infeliz ser humano, porque de autómatos e robôs está ele a ser atacado. Se aceitamos o principio de que tudo esta determinado, sentemo-nos então a ver passar o navio, porque ele lá chegará a bom porto.

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  9. São bem poucos aqueles de nós para quem essa convicção levará à passividade. Uns porque não atingirão essa convicção. Outros porque, compreendendo que tudo está realmente determinado, não vêem qualquer razão para (nem hipótese de) alterarem o seu comportamento.

    Uns muito poucos, no entanto, tirarão a sua própria vida perante esta constatação. Outros alterarão o seu comportamento, aderindo efectivamente à passividade. Mas como culpá-los? Não tinham nenhuma outra hipótese. Que Leis teriam de quebrar, para o conseguir? As de Newton? As de Einstein?

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  10. O ”meu” determinismo não é nem fatalista nem necessarista.

    O principio de causalidade ligado ao determinismo supõe a identificação das causas, o que hoje só é possível em certos casos. A teoria do caos, Entre outras, deixa a porta aberta à possibilidade de causas pseudo-idênticas provocarem efeitos totalmente divergentes.

    Um programa informático pode ser não determinista.

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  11. Atenção: eu sou programador, e posso garantir que um programa informático é absolutamente determinista. Até as funções de geração de números aleatórios só geram números pseudo-aleatórios.

    Já agora, eu não sou 100% determinista, porque assumo a hipótese, que acaba de mencionar, de o indeterminismo quântico ser verdadeiro (e não apenas um reflexo do nosso desconhecimento). O que eu digo é que, se a minha vida é determinada, na sua base ultra-microscópica, por uma lotaria, e se daí para cima por sucessivas camadas de implacável determinismo, então eu em nada contribuo para o resultado final, razão pela qual não sou livre, mas escravo de ziliões de partículas sub-atómicas.

    Não que isso me tire o sono.

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  12. Acerca de algoritmos de geração de números aleatórios (só o facto de serem algoritmos já é suspeito quanto baste...):

    http://en.wikipedia.org/wiki/Random_number_generation

    http://en.wikipedia.org/wiki/Multiply-with-carry

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  13. Luis, vamos lá a ver! Quando diz que: “O que eu digo é que, … “ não me está a falar de um determinismo radical, ou o que outros chamam metafisico, quer dizer aquele que engloba toda a realidade... pensamentos, desejos etc.? Eu estou do lado do determinismo cientifico, aquele defendido pelos existencialistas. Esse deixa-nos um pouco de liberdade.

    Quanto ao determinismo de um programa informático, devo-lhe um complemento de informação.
    Primeiro: fico feliz quando me diz que pertence à casta de programadores. Fico feliz porque também eu pertenci à família. Segundo: confesso que a minha frase foi uma sorte de isca, pois pessoalmente estou perfeitamente de acordo com o seu ponto de vista. O caso é que esta frase encontrei-a tal qual há tempos, num artigo que tratava de determinismo, (não me lembro onde), mas não a esqueci pelo facto dela contradizer exactamente o meu pensamento. Ora, conhecendo o assunto, fiquei curioso: Um programa informático não é determinista. Porquê?

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  14. Meus caros programadores, penso que enquanto não for equacionada a «teoria de tudo», o indeterminismo e o determinismo não são mais que meras abstrações. No fundo estamos diante do mesmo problema da recta e do segmento de recta. Para "trabalhar" utilizamos o segmento de recta como se tivessemos apanhado a recta a meio do seu infinito percurso. Em relação ao determinismo, na relação necessária entre causas e efeitos, estamos a considerar as causas imediatas e não a infinita sequencia de causa/efeito que conduz a determinado facto. É como se também tivessemos apanhado a realidade a meio do seu desenvolvimento.
    Concluido: os conceitos de determinismo e indeterminismo são desesperantemente relativos.
    Tenhamos todos um pouco mais de paciencia. Os cientista até que seja equacionada a teoria de tudo e os filósofos até que seja conhecida a verdade toda. Palpita-me que hão-de chegar à meta lado-a-lado.
    Se os deuses deixarem, claro, porque os antigos gregos avisaram que a sabedoria é um privilégio divino...

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  15. Limabar, lamentavelmente eu sou realmente um determinista radical. Ou seja: para mim, as leis da Física funcionam *sempre*, sem margem para liberdades.

    Se, ao nível quântico, puder existir comportamentos *intrinsecamente* aleatórios, então concebo que o estado do Universo no instante t+1 não dependa exclusivamente do estado no instante t. Ou seja, não seria calculável nem mesmo por quem tivesse o poder "computacional" para o fazer.

    Se a teoria quântica for apenas reflexo da nossa ignorância actual e os comportamentos ditos aleatórios não o forem, então tudo é 100% absolutamente determinista.

    Não sabemos. Pode ser uma, ou a outra.

    Ao nível da liberdade humana, no entanto, Mário, estar num caso ou noutro não é especialmente relevante. Não há *verdadeira* liberdade no cumprimento implacável das leis da Física como, no outro caso, não há *verdadeira* liberdade em que a única variação no resultado, para além da aplicação das tais leis, seja motivada por lotarias.

    Duma forma ou doutra, tudo o que eu faço segue um comportamento determinista. Não sou eu que influencio o resultado. Eu faço o que tenho de fazer. Se querem que vos diga, de certo modo, orgulho-me disso. Da mesma forma que nos orgulhamos de um velho carro que com 40 anos ainda pega à primeira, ou que nos orgulhamos de um bom amigo, em cuja amizade inabalável podemos confiar.

    Que raios ganhava eu, afinal, em que o meu comportamento fosse incerto? Ou os outros, que ganhariam com isso? Para não me sentir tão "básico", chega que não seja facilmente previsível por ninguém, ou até por mim próprio... A propósito: até agora, na minha leitura do último livro Damásio, o que ele diz parece suportar esta posição. Vejamos com a continuação do livro.

    Quanto à questão técnica do programa... então (caro colega! eh eh) como é que um programa pode ser não determinista? Palpita-me que a resposta está mais na definição dos termos do que no sumo da questão...

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  16. Suponho, Luis, que não leste o Sentimento de Si, o livro anterior do Damásio, por isso admites que o pensamento expresso de Damásio suporta o «teu determinismo». Quando, porém, acabares a leitura do que tens em mão, vais ver que Damásio te deixa pendurado no «indeterminismo». O mistério da mente consciente, teimosamente resistente aos avanços da neurociência, é bem mais que a ausencia ou insuficiencia do conhecimento. Se fosse isto, bem podias ver Damásio alinhadinho no racionalismo cartesiano. Que ele denunciou!
    Porque sou teu amigo e como manifestação do meu apreço pela companhia que me fazes aqui na Laje Negra, vou deixar-te um pista aberta sobre este assunto, no novo post que agora vou colocar.
    Que pretensão!

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  17. Xi, agora deixou-me curioso com o Damásio. Vou aumentar a cadência de leitura (por minha decisão livre e arbitrária... náááá!). :-)

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