quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Fogo de Artifício

Aconteceu-me, em 2010, assistir a duas sessões de fogo de artifício. Primeiro nas festas da Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, e, agora, em Barcelos, na passagem de ano. Na minha aldeia de Balugães (Barcelos) diz-se ou dizia-se, quando era garoto, «fogo de vistas». E, bem vistas as coisas, a fórmula popular é mais expressiva e explicativa que a erudita «fogo de artificio». Artificio há, de certeza, nos dois fogos. Mas o de «vistas» "explica" que é espectáculo para os olhos (vistas, como estar "cego de uma vista") que distingue do espectáculo barulhento feito para os ouvidos, no vulgar foguete. Preciosismos da linguagem.
Em Barcelos o espectáculo foi montado mesmo no centro da cidade, a partir do lindo e bem tratado jardim, a poucos metros da formosa e surpreendente, na sua arquitectura, igreja do Senhor da Cruz. O fogo abria-se mesmo por cima da cabeça dos espectadores e nem eu nem a minha mulher tínhamos, alguma vez vivido tão por dentro um fogo assim. Quando se está de longe e já se viram muitas sessões de fogo, não custa desviar o olhar e conseguir algum distanciamento. Mergulhados no espectáculo como estávamos ali, ficamos presos ao encanto da obra dos artífices.
Tão longa introdução, para vos falar de um outro fogo, o fogo do nosso pensamento.
Num comentário ao psot anterior, do Limabar, expressei o meu espanto pelo facto de um «filho da Terra», o homem, confrontar a Mãe com o mistério do seu nascimento. Porque são cada cada vez menos as dúvidas de que nascemos aqui!Nem somos extra terrestres nem espíritos "desincarnados" escondidos em formas corporais. A ciência encaminha-nos com segurança para essa verdade e os cientistas são os primeiros a ficar atónitos perante a surpreendente realidade. Os «materialistas» apressados dos séculos dezoito e dezanove estão a ser, literalmente, cilindrados, tanto quanto o foram os criacionistas que recusaram, até à última, o evolucionismo.
Siderados perante a dimensão do macro e do microcosmos, os cientistas ganharam em humildade o que os «materialistas» haviam multiplicado em cagança.
Vai-se descobrindo que a nossa Terra-Mãe, e com ela nós próprios, estamos ligados umbilicalmente ao universo que nos cria e alimenta, como criança no ventre materno.
E o nosso pensamento consciente permite-nos acompanhar, em tempo real, o desenvolvimento da vida. E já não se trata de adivinhar um qualquer mistério transcendente e nele acreditar, mas de apalpar, ver, ouvir, cheirar, saborear e sentir e medir e pensar, este que nos é dado viver conscientemente.
Já não se fala mais em «fugir deste mundo» nem prever o seu Apocalipse, mas tomá-lo inteirinho nas mãos, simultâneamente como herança e como projecto.
E o mesmo fogo de brilho intenso do pensamento consciente haveria de esconder no seu íntimo a mais estranha sensação de incerteza. É que o pensamento consciente de cada um dura apenas o tempo de um fogo de vistas. Esgotada a "pólvora", acaba-se o fogo, o brilho, o espectáculo, a emoção, o sentimento, o pensamento, a consciência.
Saramago já não é mais que um punhado de cinzas de um intenso fogo que se extinguiu. Sobrou a lembrança na mente dos que o conheceram e leram e hão-de ler, e a saudade amorosa no coração de Pilar del Rio e dos amigos.
É muito pouco, para quem tem sonhos de eternidade.
E a verdade é que nós não desistimos desse sonho, enfrentando heroicamente a desesperança.
O ser humano é fantástico! Nós somos mesmo bons! E dos «maus» também reza a história, mas não me apetece falar deles.

7 comentários:

  1. Às vezes, farto do absoluto, gosto de mergulhar na fantasia, e não há - para mim - como o Senhor dos Anéis. Lá também há "fogo de vistas":

    http://www.youtube.com/watch?v=hudnsbDbOJY

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  2. Tenho de estar de acordo contigo Mário. Tanto no teu comentário abaixo, como neste teu post. Aliás surpreende-me o facto de quase sempre ter de estar de acordo contigo. E digo ter de estar, porque estou e não queria estar. Sobretudo neste tema do Ser e Destino do homem. E então, para completar o suplício, dás-me uma facada que me atingiu certeira no sítio onde dói: “É muito pouco, para quem tem sonhos de eternidade.”. Ora aí está! Aí tens o que se esconde nas quadras do meu último post. Para mim não é uma queixa nem é frustração, é um grito de inconformismo, embora, de certa maneira, se possa considerar uma e outra coisa. Eu considero mais propriamente o inconformismo como um questionamento do eu consigo mesmo. E é isso que me acontece. Dizer que sou uma pessoa inconformada? Não! Não me conheço assim como pessoa. O meu inconformismo é transcendente e metafísico, é uma insatisfação do eu profundo, talvez um medo insuspeito, protesto não.

    “Era a manhã deste mundo, Princípio da eternidade.”, dizem os versos. Verdade é, que, durante muitos anos, alimentei “sonhos de eternidade”. Quem os não têm? Além de serem uma parte da nossa herança biológica, também se encontram com frequência na educação que recebemos. O ser humano é assim feito. Se assim não fosse, para quê inventar Deuses, almas e religiões? E não podemos dizer que se trata de ideias novas, saídas do progresso ou da cultura.

    Desde que o homem teve consciência da sua existência, sentiu a angústia no abandono em que se achava, sozinho face à natureza inóspita, e ao perigo permanente dos outros animais contra os quais era forçoso defender-se. Logo a seguir teve um pressentimento, um horror inconcebível, que não cabia no seu entendimento: à sua volta, tudo o que era vivo, deixava um dia de viver.
    Depois, era uma voz que firmemente repetia: e tu terás a mesma sorte!
    Inconcebível!
    Inaceitável!

    Era o princípio da longa história do homem consciente. Para suavizar os medos interiores era preciso encontrar alguém mais forte e mais inteligente, capaz de o ajudar a suplantar a dura realidade: inconcebível, inaceitável!
    O homem desejou, imaginou, e apareceu o sonho. E o sonho era bom, acolhedor e quente como a luz do sol, perfeitamente concebível, perfeitamente aceitável. E o homem acreditou.

    Assim viveu feliz e em paz, pois afinal havia alguém, mais forte e inteligente, que no momento próprio se ocuparia de superar o inconcebível, o inaceitável!
    Porém, o homem crente e sonhador, foi-se tornando a pouco e pouco inteligente e curioso. Pôs-se a fazer perguntas a si mesmo, e quis saber porquê, como e quando. Interrogou os astros e o infinito do universo, partiu protões e dividiu partículas. Quis saber mais, quis saber tudo. Pôs em equação, experimentou, classificou, tudo anotou: certezas e incertezas.
    E interrogou-se.
    E reflectiu.
    E, inconformado gritou: “Se não acabo este sonho Não há santo que me valha!”

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  3. O interesse é grande, mas o tempo curto. Deixo aqui uma nota. A crença em Deus não está sempre associada à busca da imortalidade. Os primeiros judeus diziam abertamente que, depois da morte, "só fica o bom nome". O seu Deus era um Deus prático, interveniente no dia-a-dia, o Senhor dos Exércitos. E um dia morria-se, e pronto.

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  4. Certo Luis. Crer num Deus não implica forçosamente pedir a eternidade. Mas a ideia não deixa de fazer parte do desejo de qualquer crente. O Deus do crente é um Ser que engloba todos os poderes. No seu acto de entrega, o crente deseja e espera que o seu Deus não o abandone, nem neste mundo nem no outro.
    A minha ideia acima refere-se ao impulso primordial do ser humano na sua procura interior de apaziguamento consigo mesmo e de protecção em relação ao exterior. O homem metafisico é um ser solitário, inquieto e incompleto para atingir as suas aspirações.
    E não hesitaria em acrescentar: e um inconformado.

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  5. Sem dúvida, o instinto de sobrevivência impele-nos a rejeitar a morte por todas as vias, sempre que esta está associada a um "desequilíbro homeostático" (o Mário já adivinhou onde fui beber...). Para alguns, no entanto, há mais esperança de homeostase na morte do que na vida. Esses tomam medidas drásticas.

    A mim também me dava um jeitão a vida eterna, sobretudo atendendo a que o meu empréstimo de habitação estaria pago nos primeiros 35 anos (!). No entanto, caro Limabar, embora não esteja aqui com intenção de converter ninguém (*tosse seca nervosa*), devo relembrar que a perturbação gerada pela perspectiva e antecipação da morte pessoal pode ser apaziguada por outro método que não seja a negação do inevitável. É justamente a aceitação do inevitável que, ao conduzir à compreensão da transitoriedade de todos os fenómenos, permite identificar como verdade única a falta de "existência intrínseca" dos mesmos. Assim, a nossa existência não é senão uma concepção utilitarista e pragmática com vista à prossecução de determinados comportamentos de sobrevivência transitória de uns padrões curiosos (a vida!), sobreviventes a curto prazo de um processo a que convencionámos chamar "selecção natural". A concepção de um "eu" só existe por produzir benefícios pragmáticos na auto-preservação. Mas não é mais que isso.

    Quem compreende isto compreende que existe a morte, mas não quem morra.

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  6. "E agora, ó monges, retiro-me da vossa companhia; todas as coisas compostas são transitórias; continuem a esforçar-se diligentemente."

    E estas foram as últimas palavras do Tathagata [Buda].

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  7. Só peço para mim a coragem de Carl Sagan, aqui expressa no relato da sua mulher, e bastar-me-á:

    "Ao contrário das fantasias dos fundamentalistas, não houve conversão no leito de morte, nenhum refúgio de última hora numa visão consoladora do céu ou de uma vida após a morte. Para Carl, o que mais importava era a verdade, e não apenas aquilo que poderia fazer com que nos sentíssemos melhor. Mesmo nessa hora, quando qualquer um seria perdoado por se afastar da realidade de nossa situação, Carl foi inabalável. Quando olhamos profundamente nos olhos um do outro, foi com a convicção partilhada de que a nossa maravilhosa vida em conjunto estava terminando para sempre."

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