Pois é, Lima, este poema que o Luís re-colocou na Laje Negra atirou-nos, em tempos, para uma disputa do caraças acerca do tema que propões. O poema do António Gedeão é muito lindo mas conta a história da nossa liberdade de escolha de uma forma tão..."metafísica" que nós ficamos sem saber se está a falar de gente de carne e osso ou de espíritos encarnados, que muito boa gente confunde com o ser humano.
É isso aí. O «dualismo» imbricou-se de tal forma no pensamento dos homens, que Damásio & Cª vão ter muito que suar para convencer as pessoas a descer à terra.
Somos uns ingratos! Sempre a voltar as costas à Terra-Mãe que nos deu tudo.
Estava aqui a pensar, a propósito da publicidade e todas as outras armadilhas que fazem gato-sapato do nosso livre arbítrio, nas séries televisivas sobre a vida selvagem na Nacional Geographic. Há animaizinhos que conseguem aumentar o seu tamanho para o dobro, inchando por todos os lados, para fazer crer ao seu predador que é bem maior e mais forte do que ele pensa. Outros há que fazem trinta por uma linha para seduzir a fêmea, armando-se em "bons". No reino das plantas, a arte de enganar é também requintadissima.
A nossa publicidade sedutora, enganosa e enganadora, não lhe fica atrás. O que significa que nós, humanos, filhos da mesma «cepa», não negamos a mãe-natureza! E eu prefiro-me assim, a um espírito feito alma-penada que não se engana nem se deixa enganar.
Nunca sentiste, meu caro Lima, um sentimento de vitória, quando descobriste a "marosca" de um "trapaceiro"? Já pensaste na comoção sentida por aqueles nossos antepassados quando desmascararam a mentirosa Lua? Tão pequenina, parece ela; ora cresce ora minga e vai-se a ver, é tudo um faz-de-conta. Como o Pai Natal.
Nós não nascemos "ensinados" e muito menos com uma «alma-feita», isto, claro, se não formos dualistas como Platão ou Descartes ou António Gedeão (estou a brincar com o Gedeão, porque ele fez poesia e não filosofia).
Aprendemos a fazer e desfazer enganos, a decidir bem ou mal e a escolher bem ou mal.
Tudo em nós é uma "capacidade" em desenvolvimento, como a primitiva célula que se replica até criar a estrutura de um ser humano fabulosamente complicada.
Não se pode chegar ao livre arbítrio como Descartes chegou à «Res Divina»: temos a «ideia» de perfeição; mas nós não somos perfeitos; logo tem de haver um ser onde a perfeição se torne real. Esse ser é Deus.
Assim é fácil chegar a Deus ou ao livre arbítrio. Ou não chegar coisíssima nenhuma!
Platão dizia que nenhum circulo desenhado ou esculpido é perfeito e só a «ideia» de circulo é perfeita. É como dizer que a «maqueta» de uma cidade é perfeita mas a cidade propriamente dita é um amontoado imperfeitíssimo de elementos. Vai-se fazer a "prova dos nove" e lá temos a ideia perfeita de Platão no projecto matematicamente impecável do arquitecto, a comparar com a "grosseira" realidade dos maus cheiros e dos gases tóxicos por todo o lado, sem contar com os mil e um defeitos, detectáveis a olho nu, por imperícia dos «trolhas».
Certamente que a mãe natureza é bem mais perfeita naquilo que faz e a prova disso está no projecto matematicamente perfeito do arquitecto. Só que os senhores dualistas dizem que o autor do projecto da cidade é outra «substancia», a «res cogitans», que não tem nada a ver com a cidade propriamente dita, e que Descartes chama de «res extensa».
Pois é, cá temos uma alma acoplada a um corpo, que é tudo o que António Damásio nega: um homem, duas substancias. No limite, duas naturezas.
E a partir daqui nascem as intermináveis discussões bizantinas, como esta sobre o livre arbítrio. Com efeito, se ficarmos presos aos conceitos de liberdade, de escolha, de fatalidade, estamos a confundir «maqueta» com a «cidade», como quem diz, o conceito abstracto com a realidade. E esta é incomensuravelmente mais rica do que tudo aquilo que vamos podendo "miniaturizar" pelo nosso nosso génio.
Eu já afirmei e volto a repetir: 2+2=4. Dois Limabar mais dois Limabar, não são quatro condiscipulos da minha adolescencia, porque Limabar só há um, o de Geraz do Lima e mais nenhum.
É a distancia entre o conceito e a realidade e nós sabemos calculá-la bem. Por isso é que conseguimos construir as cidades que sonhamos.
O Luís vai-se ir aos arames, mas vou escrever, mesmo assim: a distancia entre o fatalismo do livre arbítrio e a verdade (possível) da livre escolha é a mesma que existe entre a fantasia e a realidade.
As consequencias da aceitação de uma «verdade possível» e de uma «liberdade possível» são demolidoras para a ética e para a moral. Quem faz as leis e quem zela pelo seu cumprimento (os juízes) vão ser obrigados a legislar e a julgar tendo em conta a «cidade» imperfeita ou inacabada (cheira a relativismo, mas que hei-de fazer!) e não a «maqueta» idealizada, para o mundo único e irrepetivel que é cada ser humano.
Seria caso para dizer: não queria estar na sua pele. Mas eles desenrascam-se bem, improvisando que se fartam!!! E é o que vale, se não isto não atava nem desatava. O caminho é longo, sinuoso, barulhento e confuso. Não é assim, Dalai Lama? Acho bem que medites profundamente nestas coisas e acho mal que pares na borda do caminho, à espera que os outros construam a cidade barulhenta e malcheirosa que vai sendo possivel.
(Juro que esta não foi para o Luis!)
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
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Este assunto há-de me pôr sempre maluco! :-)
ResponderEliminarEntão mas o Gedeão é dualista? E eu que não vejo nele ponta de dualismo! A "fatalidade" dele é, tão somente, a coerência interna das leis que se comprovam no Universo (ou não fosse ele um espírito científico), a sua universal (e "intemporal" ?... ai o tempo!) aplicabilidade.
Nele não há margem para dualidade: um corpo de mãos dadas com Newton e Einstein, e outro a jogar aos dados. Não, nada disso é possível. Três vivas ao Gedeão, portanto!
Que eu também não sou dualista. Xiça, que se há coisa que o Budismo é, é não-Dual. Explicitamente. Absolutamente. Inumanamente, até. Fanaticamente, por fim!
Agora onde o meu pensamento descarrilou mesmo (O Mário bem que adivinhou!) foi nas expressões "o fatalismo do livre arbítrio" e "a verdade (possível) da livre escolha". Há aqui um problema danado, eu sei, que é o da definição dos conceitos. E daí a minha ausência prolongada deste fórum: mal tive tempo para iniciar a (minha pessoal) travessia do Deserto. Mas logo no primeiro Oásis, as coisas tinham ficado assim:
1) Liberdade Total: Uma entidade E diz-se totalmente livre se o seu estado no instante t+1 se produzir, a partir do seu estado no instante t, por um processo totalmente influenciado por si própria. Ou seja, se não sofre interferência de coisa alguma que lhe seja exterior.
2) Liberdade Parcial: Uma entidade E diz-se parcialmente livre se o seu estado no instante t+1 se produzir, a partir do seu estado no instante t, por um processo influenciado, em parte, por si própria.
3) Autonomia de Decisão: Uma entidade E diz-se de decisão autónoma se o seu estado no instante t+1 se produzir, a partir do seu estado no instante t, por um processo influenciado, em parte, pela sua componente decisional. A componente decisional pode, para o efeito, ter liberdade parcial ou total.
Estamos então a falar de qual destas liberdades? Isto fica complicado à brava...
Já agora, se quiserem mesmo fritar o cérebro com estas questões, há um site a que nem é preciso juntar óleo: http://pcp.vub.ac.be
ResponderEliminarÓ Luis, eu não tenho prazer nenhum em chamar-te dualista e sou testemunha de que nem queres ouvir falar nisso. Mas então, desafio-te, deixa de ver a liberdade pendurada num cabide e devidamente etiquetada, pronta a ser vestida por um qualquer espirito digno, porque um corpo não veste tão etérea e metafísica «substancia»!
ResponderEliminarEu sei que é muito pouco ortodoxo dizer que que o meu "corpo" em interacção com o teu mundo e o dele e o dela se pode acender em chama de liberdade ou, mais precisamente, em chama daquilo que nós etiquetamos de liberdade. Era tão lindo, não era, Platão? ver ali diante de mim, brilhante e sedutora a (ideia)luminosa e perfeita de liberdade! E depois, é muitissimo mais fácil vestir uma camisa do que fazê-la. Muito mais fácil acender a candeia do que condruir uma e providenciar o óleo para que a chama não esmoreça.
Coube-nos em sorte uma «vida de trabalhos» em que temos de construir cada parcela da liberdade que sonharmos. Porque não nascemos já vestidos dela? Se fossemos «duas substancias», até podia ser que numa viesse a prisão determinista e noutra a proclamada liberdade. Era só haver um pouco de «osmose» entre elas e podia acontecer.
Mas o António Damásio & Cª tinham de vir complicar tudo...
Ah, agora apanhei a ideia: cada um construiria a sua liberdade. Da complexidade da mente orgânica, labirinto de neurónios, de moléculas. de átomos, nasceria, produzir-se-ia, gerar-se-ia uma nova propriedade: a do livre-arbírtrio (como acontece com a consciência, por exemplo, ou serão uma e a mesma?). Mas pode o indeterminado emanar daquilo que, na base, é determinístico? E se na base houver a indeterminação (quântica), pode chamar-se liberdade à lotaria resultante?
ResponderEliminarQuando se vai ao fundo das questões é inevitável o encontro do pensamento. Mais encontro que confronto, como está a acontecer connosco, Luis.
ResponderEliminarFace ao meu último comentário, fizeste as perguntas certas. Mas há que fazer alguns ajustes. A minha visão das coisas nunca me pode permitir falar de liberdade e livre arbitrio a não ser na medida da sua possivel construção ou realização. Retomando o exemplo do arquitecto, o seu projecto ou sonho de cidade pode nunca passar disso mesmo, se a construção não for concretizada.
Eu sei que é um perfeito murro no peito admitir que se queremos a liberdade ou o livre arbitrio temos de os fazer realidade, porque o máximo que poderemos dizer é que apenas existem em nós «potenciados» ou, como disse na postagem, como mera «capacidade».
Se continuares a perseguir um absoluto, terás pela frente um problema parecido com o encontro de duas rectas paralelas. É uma discussão que parte de uma premissa errada ou pelo menos completamente indefinida porque, de facto, só conhecemos segmentos de recta. O absoluto, neste caso a recta, é uma abstração. E como abstração até podemos falar em duas rectas paralelas ou numa infinidade delas. Como intrumenmto de trabalho até funciona. Aliás, como qualquer outro conceito.
Determinismo ou indeterminismo são apenas conceitos e, tal como o conceito de «recta», simples meio do trabalho mental. Mas nós estamos sempre a esquecer este facto porque nos recusamos a viver dentro dos nossos limites. E até é bom que isto aconteça, porque nos impede de adormecer sobre as conquistas alcançadas (realizadas).
Como canta o nosso António Gedeão, «O sonho comanda a vida»; e como dizias tu, Luis, «vivo com um olho no finito e outro no infinito».
E desta gente que eu gosto.
Começo a vislumbrar aquilo que nos distingue: parece-me que tu amas realmente a vida, enquanto eu sou só um viciado...
ResponderEliminarÉ verdade, Luis, eu amo a vida. Viciado, tu? Só se for no budismo...
ResponderEliminarAmo a vida com a mesma serenidade e realismo com que a penso. É por isso que a pessoa que mais me "prende" à vida e me faz descobri-la em mim e nela e nos outros todos é aquela com quem mais profundamente me encontro nos gestos do corpo e da alma: a "minha mulher". Talvez por eu ter sentido primeiro e pensado depois é que percebi que não há uma fronteira onde acaba o corpo e começa o espirito. Esta percepção transformou-me o pensamento e a vida. O gesto da minha mão ou o afecto confessado não são do corpo ou da alma, são de «mim». De «mim», que podia não "existir" ontem, me faço no momento do gesto e da palavra e desse modo manifesto a minha "presença".
E a "minha presença" é forte ou fraca ou praticamente indiferente, conforme a intensidade e verdade do gesto.
E o gesto pode ser também de morte.
Quando a "presença" foi experienciada pela mente consciente, na harmonia do encontro com outro alguém, desde sempre se chamou amor.
Como foi possivel aquela organização de átomos, moléculas e células conduzir a tão sublime resultado é o que Damásio & Cª andam a ver se descobrem. Realmente é de espantar que, não havendo um «suporte» especifico e autónomo para as coisas que dizemos serem do espirito, como o amor ou a razão, como é que das particulas de particulas se gerou tanta Vida...
É destes mistérios que eu gosto.
Podeis continuar. Estou a gostar, mas sinto uma certa dificuldade em vos acompanhar. Sou lento no arranque e em quinta canso-me depressa... mas sigo-vos de perto.
ResponderEliminarE aprecio: o Luis racional à procura do absoluto, (o absoluto chama-se Deus, não é Luis?), o Mário idealista, mas com os pés bem assentes na terra material.
Acho que é bom saber o que os outros pensam das interrogações que fazemos a nós próprios.
Claro que todos temos razão! Cada um a sua. O mundo é plural, o ser humano é plural.(E único e irrepetivel, como diz o Mário).
Até já!
Viciado na vida.
ResponderEliminarAteu como um cepo.
Racional idealizado.
Budista sonhado.
Na prática, nada de especial.
Em obras.