«O caminho do Buda não é o do ascetismo, nem o da luxúria. É o Caminho do Meio. Rejeitar as privações e os excessos. O apego é excesso. Jogar um joguinho é bom, mas ter mau perder não é bom. A diferença está no apego. O egoísmo, o orgulho, o desejo desmedido, resultam duma sobrevalorização do eu». ( do Luis)
Já vai sendo hábtito fazer um post a partir de um comentário a outro. Como se estivesse a comer cerejas de um cestinho, mesmo acabadinhas de apanhar, com os longos "pés" entrelaçados e, quando a gente pega uma, vêm três ou quatro de uma vez.
Está tudo muito certinho nos "conselhos" de Buda. São palavras sensatas e sábias para uma vida tranquila e feliz. Mas são também palavras que apelam ao conformismo com o «fado» que nos calhou em sorte. Neste sentido o Luís afirma, na citação acima, que «o caminho do Buda não é o ascetismo». A «perfeição» de Buda é a conformidade à nossa condição humana, ajustando a razão e a vontade ao que somos. E aquilo que somos está fixado como realidade no mais íntimo de nós. No fundo, a nossa tarefa será encontrar a realidade que já somos e da qual nos afastamos, vá-se lá saber porquê. Nesta perspectiva, se a «nossa vida» não é um regresso ao passado, parece.
Não é esta a perspectiva que nos oferecem os desenvolvimentos actuais da ciência, que nos fala de um universo em expansão e nos revela um longuíssimo processo evolutivo, até à emergência da mente consciente. A mesma mente que nos possibilita considerar diferentes perspectivas para a realidade do ser humano.
Não são poucos os cientistas a afirmar que a evolução continua o seu curso e isso significa que não existimos para reencontrar a nossa essência mas para criá-la. E portanto, meu caro Luís, «O Caminho do Meio» ou o caminho do perfeito equilíbrio é uma demanda inglória, como de alguém que procura o que já foi ou é. A perspectiva alternativa é a criatividade, esperando que seremos aquilo que nunca fomos.
Para mim é muito mais aliciante.
domingo, 26 de dezembro de 2010
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Vejo-me aqui numa situação meio complicada, que é tentar clarificar as posições do outro (Buda) sem perder de vista as minhas próprias...
ResponderEliminarCom efeito, não tenho conhecimento de que a doutrina de Buda suporte as seguintes afirmações:
"conformismo com o fado que nos calhou em sorte"
"a conformidade à nossa condição humana, ajustando a razão e a vontade ao que somos"
"a nossa tarefa será encontrar a realidade que já somos e da qual nos afastamos"
Sem prejuízo de que eu considere (mas isso sou eu, não Buda) que o "fado que nos calhou em sorte" seja mesmo inescapável ou (pelo menos uma das duas) não influenciável por nós - enquanto entidade decisória - posto e reafirmado, para mais, que "nós" nem sequer existimos.
Quanto a ir ao encontro da realidade que somos, etc., e uma vez que o sublinhar dessa identidade individualizada é, justamente, contrariado pelo budismo, também não estou a ver.
Logo, a "nossa vida" não é um regresso ao passado, nem é (absolutamente ao invés) uma tentativa de congelar o progresso ou a evolução. O budismo é, antes de mais, a consciência de que nada é permanente.
Assim, não há contradição entre a doutrina budista - tal como eu a entendo!, budistas há muitos - e a ciência, antes pelo contrário. Foi uma visão absolutamente científica do mundo que me levou a encontrar nos princípios budistas um caminho de pacificação interior que parte de uma análise objectiva dos factos. O Caminho do Meio não é um destino. É um Caminho. E só existe o caminho, não quem o percorra.
ResponderEliminar(citação como se fosse a despropósito)
ResponderEliminarDois monges discutiam por causa de uma bandeira. Um disse, "A bandeira está a mover-se".
O outro disse, "O vento está a mover-se".
O Sexto Patriarca calhou a passar por ali. Disse-lhes, "Não o vento, não a bandeira; a mente está a mover-se."
Sem os dois monges, sem a bandeira, sem o vento e sem o Sexto Patriarca este "quadro" não teria sido pintado. Escrito. Desenhado. Agora, saber se é o vento ou a bandeira ou a mente que se move, teremos de averiguar. É a tarefa da razão.
ResponderEliminarRepito o que já afirmei: não sei se é a melhor,mas a prova de que lidamos com a realiadde é que nos podemos enganar facilmente acerca dela e com a mesma faciliadde constatar o erro.
Se o nosso pensamento fosse absolutamente coincidente com a realidade nunca saberiamos se estavamos errados ou certos.No limite, nem saberiamos que existiamos, como acontece com um pinheiro bravo.
O episódio dos monges seria um bom exemplo de como acontece a nossa aproximação à realidade, se não acabasse no pronunciamento dogmático do patriarca. Com efeito, poderia e deveria perguntar-se o que é a mente, o vento e o movimento.
A história cima era um koan, objecto de estudo dos monges Zen. Mas há uma história sobre ele:
ResponderEliminarEnquanto os monges debatiam o koan, a monja Miaoxin ouvia, na outra sala. "Que lamentável, dezassete burros cegos!" disse ela. "Quantas sandálias de palha desperdiçaram? O dharma (ensinamento) de Buda não vos apareceu nem em sonhos!"
Quando disseram aos monges o que Miaoxin tinha dito, foram ter com ela, fizeram uma vénia, e perguntaram sobre o dharma.
Miaoxin então disse "Venham cá!"
Enquanto os dezassete monges caminhavam para ela, Miaoxin disse, "não é o vento que se move, não é a bandeira que se move, não é a mente que se move."
Todos os monges realizaram a iluminação e agradeceram a Miaoxin.
O Sexto Patriarca disse que "é a mente que se move".
ResponderEliminarA monja Miaoxin disse que "não é a mente que se move".
O Sexto Patriarca e a monja Miaoxin são dogmáticos. Não há mente, nem há movimento.