quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A Forma e o Fundo (2)

«O budismo é, antes de mais , a consciencia de que nada é permanente», dizes tu, Luis, não sei se por ti, se pelo «outro Buda».
Nesta afirmação desdizes tudo o que afirmas do budismo. Porque a «consciencia de que nada é permanente» pretende ser toda a realidade e a realidade toda. Ou não é assim? E não vale a pena jogar com as palavras-conceitos de «existe» ou «não existe», caindo no racionalismo cartesiano que faz depender a «existencia» da actividade do nosso pensamento. «Penso,logo existo». Para quem aceita o dualismo do ser humano, tal poderá ter alguma lógica e chegar ao ponto de afirmar, como já vi aos espiritualistas, de que não é o cerebro que gera a mente, mas a mente que gera o cérebro.
"Situar" a realidade do pensamento "antes" da "materialidade" do cérebro, que quatro biliões de anos se esforçaram por estruturar, é um modo de ver as coisas. Não é o meu nem o da ciência.
O budismo aparece-me, de facto, como um racionalismo puro encapotado, e o último parágrafo do teu comentário é lapidar.
A laboriosa construção do «eu» implica uma identidade que reproduz perfeitamente, no meu entender, a essencia da realidade, a saber, a perenidade de "ser", que no caso do homem «é consciente» e a permanente mudança ou movimento, materializado em «formas». "Fisicamente", eu, hoje, já não sou o que era ontem. Nem há um instante atrás (ai o tempo!!!). Lá regressamos à «forma e o fundo»! Poderiamos dizer, assim de uma forma um tanto grosseira, que as formas são o desdobramento do ser. E, assim sendo, não só não nos levam ao engano, como, bem pelo contrário, nos revelam as belezas do «fundo».
O génio humano não ficou passivo, aguardando que este «fundo» se revelasse nas «formas» e quer saber mais. Porque descobriu que existe um «fundo» e nós somos parte desse «fundo» acredita que conhecendo esse «fundo», conhecerá o seu destino.
Mas um novo problema se levanta. A «forma e o fundo» são as duas faces da mesmissima moeda e a realidade aparece-nos como uma espécie de obra inacabada e, nesse sentido, "inexistente" . (Talvez seja por isso, Luis, que passas a vida a dizer-me que «existes e não existes»). Olhamos a moeda da vida de um lado e vemo-la em perpétua mudança; olhamo-la do outro e vêmo-la tão dura e eterna como um diamante.
Ficamos baralhados. E o caso não é para menos!
Diz-me aí, Luis, tu que afinal sabes de dois Budas, qual a face da moeda do «ser» ou da vida que o budismo não está a ver?

9 comentários:

  1. «Quando insistes que as coisas são reais,
    escapa-te a sua verdadeira realidade.
    Quando insistes que as coisas são irreais,
    escapa-te a sua verdadeira realidade.»
    (Seng-ts'an, Terceiro Patriarca Zen)

    Não há nenhuma face da moeda do "ser" que o verdadeiro budismo escolha não ver. Qual é o som de uma mão a bater palmas?

    E prossegue o patriarca, mais adiante:

    «Fé e mente são "não dois". "Não dois" é fé e mente. Está para lá das palavras e pensamentos. Não há ontem, não há amanhã, não há hoje»

    (ai o tempo!)

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  2. Como não sou sabido nestas coisas, cheguei a ter a ideia de me instruir um pouco sobre as bases da “teologia” Budista, pois os meus conhecimentos nessa matéria são muito superficiais. Afinal vou desistir! Complicado demais para mim! Lá o “Caminho do Meio” ainda passa. Acho mesmo que é um sábio conceito, mas, mesmo aí, o Luis embaralha-me os miolos quando acrescenta que esse caminho existe mas não há quem o percorra. Perfeitamente inútil, então!
    Quanto ao resto, se aceitamos o conceito da “não existência”, de “Não há ontem, não há amanhã, não há hoje”, tudo se acaba aí, pois se abdicarmos da nossa própria existência, todo o resto não tem mais sentido.
    Que tudo é transitório, concordo. Que o passado e o futuro não existem, de acordo, mas o presente, mesmo fugitivo e efémero, temos que admitir a sua existência, caso contrario também nós não temos “tempo” para existir.

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  3. O tempo, esse, é um mistério danado. Não me meto por aí, que me escaldo.

    Quanto ao Caminho, quando se diz que não há quem o percorra, isso tem a ver com a não-dualidade. Ou seja, conceber que alguém percorre o caminho, individualizando-o, é "insistir que as coisas são reais". Isso só é válido no mundo convencionado em que nós, pragmaticamente, procuramos organizar as nossas ideias: uma pessoa aqui, uma cadeira acolá. Se pegamos num microscópio, as coisas não têm etiquetas: "o atómo 43956 da cadeira 38273", etc.; nada disso "realmente" existe. Embora tudo exista, concerteza. Tal como, a um certo nível, as constelações existem; mas a outro, o que existe são as estrelas, as constelações são ideias; e, a outro, os átomos é que existem, as estrelas são ideias; e, a outro, os quarks é que existem, os átomos são ideias... etc.

    É certo, não é o óbvio, mas também não é inatingível, de forma alguma. De qualquer forma, só um num milhão atinge a (passo o termo) "iluminação" por via da abstracção, diz-se. O caminho é a prática... excesso de racionalização também não encaixa bem no Caminho do Meio (mea culpa!). Depende das predisposições dos indivíduos...

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  4. Meu caro Lima, estás embaralhado e tens razão para isso. Sem passado, presente e futuro não há "história" para ninguém.Dizem os físicos teóricos que o tempo é uma componente do universo e não uma realidade exterior e anterior ao universo. Não estou a referIr o tempo da consciencia, porque este nada tem a ver com o espaço-tempo do universo e, de facto, não me parece que seja outra coisa que um mero produto da mente consciente.Um conceito, apenas. A nossa mente (eu, Buda) pode, em verdade, falar de um «não-tempo», mas esta «iluminação» a que chegou começa e acaba no interior do seu cérebro.
    O Luis insiste que partindo a macro-matéria até reduzir as «formas» em que ela se manifesta a particulas de particulas de particulas, acabaremos por bater com a cabeça contra a não-realidade: estrelas que nada são, átomos que nada são, particulas que nada são. Enfim, nada! Como isto é demais, o Luis retoma o fôlego (eu diria a sensatezo discurso) para dizer que acredita (entra a fé) que, bem lá no fim de tudo, existe «algo duro».
    Eu diria, Luis, que não é apenas «algo» mas os tijolos ou semente da realidade. O que vemos e pesamos e medimos e pensamos são as estruturas que emergiram a partir desse algo muito consistente e básico.
    No acelerador de partculas procura-se o principio do processo de estruturação, para descobrir como aqui chegamos e, talvez, reproduzir o universo. Porque o homem sempre quer construir aquilo que compreende e vice- versa.
    O facto de o nosso pensamento ser mais rápido que a velocidade da luz e nos proporcionar a ideia do intemporal, tal não significa que a nossa mente seja uma realidade extracósmica ou sobrenatural.
    Mas se assim for, donde proveio? De um «realissimo nada»?

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  5. »Quando insistes que as coisas são reais,
    escapa-te a sua verdadeira realidade.
    Quando insistes que as coisas são irreais,
    escapa-te a sua verdadeira realidade.»
    (Seng-ts'an, Terceiro Patriarca Zen).

    Aqui está a face da «moeda da vida» que o budismo não vê, porque olha de um lado e essa é a inteira realidade e olha do outro e vê a irrealidade. De um lado o «fundo» perene e do outro a «forma» tão fugidia como o instante que passa.
    O budismo toma consciencia do paradoxo da existencia e chama a essa consciencia «iluminação». Mas será que existe mesmo paradoxo? O paradoxo não será resultado de uma visão "intermitente" da realidade, olhando alternada e separadamente uma face e a outra face da moeda?
    Mais do que saber eu sinto que há algo de profundamente incompleto no budismo, na sua forma de encarar a vida e o exemplo daquele conhecido investigador cientifico frances que abandona a ciencia para ir atrás da «iluminação» do Dalai Lama, dá que pensar.
    Para o Ano há mais...

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  6. Mário, vejo pelo seu primeiro comentário que compreendeu a minha maneira de ver as coisas, o "meu budismo". Parece-me que, no que toca à análise de "aquilo de que a realidade é feita", não divergimos nada de especial. Deixou-me agarrado à chucha de uma "fé" em "algo duro" como fundamente essencial da realidade, e é de facto exactamente isso: apenas fé. Mas não é uma fé cega. Ou seja, é uma hipótese de trabalho. Nada desabará se isso não se confirmar, estou habituado a construir a minha casa sobre os pântanos, ao contrário dos cristãos, que teimam no contrário ("construí a vossa casa sobre a rocha"). Resta saber se encontraram uma rocha assim tão "dura"...

    Por outro lado, detectou aquilo que, para mim, é a grande fragilidade do budismo. Infelizmente, não é apenas do budismo, parece-me que é da própria vida: a ausência de um sentido "absoluto" para as coisas. Ou seja, a partir do momento em que se olha para a realidade de uma forma relativizada, nos antípodas do antropocentrismo (e isso para mim é natural, é a minha predisposição intelectual), parece deixar de haver sentido numa série de coisas, inclusivamente naquelas em que o budismo se centra: o sofrimento, o apego, etc. O Buda até agora não me desiludiu, o seu pensamente tem sido, para mim, de grande coerência. Pode ser que ele ainda me dê um apoio para os pés.

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  7. Chegados a este ponto, e já com o champanhe de fim de ano ao fresco, (aproveito para desejar a todos que por ventura me leiam, um muito feliz ano 2011. E se ouvirem falar da existência de uma qualquer astúcia para parar os anos, digam, que eu estou interessado!), era talvez chegado o momento para uma pausa nesta nossa conversa, em fim de contas bem instrutiva, mas, penso eu, a acusar um certo cansaço. Vimos que o Luis, com fé ou sem ela, defende os “seus” pontos de vista, e nisso dou-lhe toda a razão. Por mim, posso agradecer-lhe um certo esclarecimento sobre alguns pontos básicos da filosofia Budista, que me eram um tanto estranhos. É sempre um prazer aprender ou reavivar coisas esquecidas. Um ponto, no entanto parece-me claro: O Luis vai ter de molhar a camisa para nos transformar em adeptos. Se bem que, muito amigável e sinceramente acho que não seja essa a sua intenção.
    E pronto, não me vou estender mais. Falava acima de uma pausa. Se me permitem propunha começar o novo ano com um tema um pouco diferente dos habitualmente aqui tratados. Qualquer coisa mais próxima da vida real, porque afinal é essa que, verdadeiramente sentimos na pele.
    Então, talvez até amanhã!

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  8. Ah, ficamos de água na boca?! Então cá esperamos o tema, eh, eh...

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  9. E eu sei bem como era proveitoso abordar o tema que o Lima sugeriu aí atrás acerca do conhecimento ou da falta dele: a ignorancia. Avanças com o poost, Lima?

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