O despertar da consciência humana, ao mesmo tempo que abriu ao homem o caminho do conhecimento, deixou-o face a uma cadeia de problemas sem solução, até chegar ao tal impasse que referi na postagem anterior.
O belíssima narrativa bíblica do mito de Adão e Eva são a velhinha e esclarecedora demonstração do que afirmo.
Vivia o Homem feliz sobre a Terra, autentico paraíso de harmonia entre todos os seres que nela habitavam, até ao dia em que os «pais» da Humanidade provaram do fruto proibido (que nada tem a ver com a sexualidade mas com a consciência) «da árvore do conhecimento do bem e do mal». Diz a narrativa que logo que cometeram o acto de desobediência os olhos dos nossos «pais» se abriram e «descobriram que estavam nus».
De uma forma expressiva, poética e profundamente inteligente o «escritor sagrado» põe em evidência o que é distintivo no ser humano: a auto-consciência. Só o Homem «descobre» que está nu ( o macaco não) e só o Homem tem consciência de que cometeu uma infracção.
Resumo desta linda história: o Homem tramou-se porque quis saber demais e sabe muito bem o disparate que fez....
Quando era menino, aprendi na catequese a declinar as virtudes «teologais» que são três: fé, esperança e caridade (amor). Qualquer cristão que vá à missa ao Domingo, se não for para lá dormir, ouve, todos os anos. S.Paulo afirmar, numa das suas epístolas, que com a morte cessam a fé e a esperança e «só o amor permanece». Lembro-me muito bem de que o sr abade aqui de Balugães ensinava, expressamente, isto mesmo às crianças da catequese, quando falava das «virtudes teologais».
Penso que quase todos os que aprenderam esta catequese nunca levaram muito a sério este ensinamento do sr abade porque, se o tivessem feito, ficariam muito intrigados. Então a fé e a esperança são algo de transitório? São «valores relativos»?
No entanto, é o que consta da catequese cristã.
E são valores tão “relativos”, que uma série de personalidades bíblicas foram, efectivamente, dispensadas destas virtudes ainda em vida. Com efeito, um punhado (largo) de privilegiados falaram com Deus e receberam, directamente e antecipadamente, a informação que o comum dos mortais só terá depois da morte. É o que a teologia cristã designa por «Revelação».
Estranhamente, aqueles que pregam a fé e a esperança aos crentes, foram dispensados dessas mesmas virtudes.
S.Paulo, o apóstolo dos apóstolos para os cristãos, é bem claro: «…o evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não o recebi nem aprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo» (carta aos Gálatas cap.I , 11-12).
O que diz S.Paulo de si mesmo acerca da autoridade com que fala com “conhecimento de causa”é extensivo a todos os autores sagrados, de todas as religiões. Todos, de uma forma ou de outra, falaram com Deus ou mensageiros divinos. O conteúdo das suas mensagens, que para os crentes passa a ser motivo de fé e de esperança, para os autores sagrados sempre foi o resultado final do jogo da vida.
Quem está «de fora», como eu, deste jogo das revelações divinas não pode deixar de reparar na situação estranhíssima de uns saberem o resultado final do jogo da vida e outros terem de esperar pelo “apito final” para saber se acertaram no prognóstico ou, no caso de uma fé total e cega, confirmar que os “reveladores” falaram a verdade.
Porém, o que ainda para mim é mais estranho nesta questão das «revelações divinas» é a ideia que se faz passar de que a vida é um jogo já jogado, de que alguns conhecem todas as peripécias desde o primeiro instante e os outros todos são mantidos na ignorância. Vá-se lá saber porquê.
Para mim, a vida, em vez de um jogo visto como que em diferido na esperança e na fé, aparece-me, antes, como uma epopeia grandiosa, como um jogo a ser jogado, no qual lutamos por um resultado final vitorioso. Imprevisível, é verdade, mas nisso consiste a beleza do jogo e o seu fascínio. E talvez radique aqui o verdadeiro sentido da liberdade humana.
A crença numa revelação divina feita a um punhado de privilegiados, essa sim, parece-me absurda, sem ponta por onde se lhe pegue.
Penso eu de que…
Mas será que os teólogos, especialmente os teólogos cristãos da actualidade, têm este «conceito» de revelação divina? Sei que estão, de facto, a ir por outro caminho, algo do género como «a revelação faz-se na História». Como a História não acabou, a «revelação» não pode estar completa. Mas a grande massa dos crentes não conhece esta deriva interessantíssima.
Quase herética.
Heterodoxa mesmo.
domingo, 6 de junho de 2010
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Vem este texto relembrar-me uma dúvida, desde sempre instalada na mente de muitas pessoas, inclusive na minha: temos ou não o nosso destino traçado?
ResponderEliminarPara muitos, como eu, o destino está traçado desde sempre. Se assim não fosse, poderia Maria, Judas, o teu Paulo de Tarso, etc, terem escolhido aquilo que os marcou?
E estaria a humanidade à espera que assim fosse?
Um bom Domingo, amigo Mário.
Acrescento uma variante: tanto faz se temos o destino traçado ou não, pois, seja como for, não é traçado por nós. Ou seja, ou temos o destino traçado, ou estamos numa tômbola. Qualquer das duas é pouco satisfatória, mas que remédio.
ResponderEliminarNão penso, Luis, que estejamos condenados a ser "contabilistas". Vejo mais que números à minha frente.( sem ofensa para o Zé Moreira, competentissimo TOC)
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