terça-feira, 8 de junho de 2010

Fatal Como O Destino

Vou responder à questão levantada pelo meu querido amigo Zé Moreira nesta “postagem” em vez de o fazer na “caixa de comentários”, porque o assunto merece ser destacado.
Para surpresa da generalidade das pessoas, a teologia cristã é contrária à ideia de fatalismo. Isto quer dizer que ninguém nasce com o destino traçado. Nem Judas, apesar de ter sido imprescindível a sua traição ao desígnio da Obra da Redenção.
O que surpreende ainda mais é que esta doutrina da teologia cristã (estou a referir-me, sempre, à teologia cristã-católica) penetrou no pensamento da generalidade dos crentes e cada um se sente senhor e responsável pelo seu destino. Se falhar o objectivo da sua realização e felicidade a culpa é inteiramente sua. E carrega toda a vida o peso dessa responsabilidade. É dramático e empolgante.
Estamos perante mais um dos muitos mistérios da fé cristã e este afronta directamente a nossa razão. Com efeito, se há um Criador, terá de haver um desígnio e nós fomos concebidos para realizar esse desígnio. Não há como fugir ao destino. Assim, Judas não podia deixar de trair o Redentor da Humanidade. Estava escrito.
E se assim é, onde está a liberdade de escolha? Como se pode culpar e condenar alguém predestinado à traição?
A teologia cristã concilia estes “contrários”, desígnio e liberdade, de uma forma que me parece brilhante. Literalmente, os teólogos cristãos resolvem a situação paradoxal, transcendendo a racionalidade e permanecendo com os pés bem assentes na terra. E matam dois coelhos com uma só cajadada: nem o Deus em que acreditam é uma entidade monolítica nem o homem, sua imagem e semelhança, é uma realidade individualizada. Esta verdade da doutrina cristã é afirmada na alteridade absoluta de Deus em relação ao Homem e deste em relação a Deus.
No discurso teológico dos cristãos, o monolitismo divino é rompido na proclamação de um conjunto de «pessoas divinas», no dogma da «Santíssima Trindade».
Embora não sendo crente cristão, aceitando e professando esta fé como «verdade revelada» a um grupo de homens privilegiados, considero, no entanto, espantosa esta teologia. Para mim é do mais belo e do mais profundo de tudo o que alguma vez o pensamento e o sentimento humano conceberam acerca da Divindade. E fizeram-no, conscientemente ou não, a partir da mais clara realidade do nosso dia a dia.
Quem é pai e mãe e filho ou filha, e somos todos, vive o mistério da alteridade absoluta. Pensa, meu caro Zé, que a vossa filha, sendo “genes dos vossos genes”, teus e da Romy, é uma personalidade totalmente outra. O seu destino será escolhido por ela, a não ser que, despoticamente interfiram e aniquilem a sua personalidade ou, no que vem a dar o mesmo, impeçam que ela se desenvolva.
O destino da vossa filha não está nas vossas mãos, apesar de tudo o que lhe deram desde o primeiro instante.
Também poderíamos dizer que matar alguém não é matar a personalidade desse alguém. Nesse sentido diríamos que Fernando Pessoa “está vivo” e que a imortalidade é um atributo da “pessoa”. Mas não vou por aí, agora.
Prefiro recordar o que dizia o Luís, aqui na Laje Negra: vivemos com um olho no finito e outro no infinito. O finito é a nossa indiscutível paternidade e filiação e o infinito é o universo novo que somos, saído dos genes dos nossos pais.
É claro que podemos especular, recuando até perguntar quem gerou «o pai do avô do bisavô da minha avó», prosseguindo até à derradeira pergunta «quem criou o Criador». Parece-me, no entanto, um exercício pouco profícuo e pouco mais vale que passar a vida a dizer 2+2=4. Conta certeira, em absoluto, mas sem que o persistente contador se tenha um dia lembrado de perguntar «2 quê?». Porque está-se mesmo a ver que dois Zé Moreira + dois nunca serão quatro porque só existe um, o de Marrancos de Braga e mais nenhum.
Como quem diz: a lógica da razão não serve para superar os paradoxos da vida e desvendar os seus mistérios.

7 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Deixo um grãozinho de areia na máquina da liberdade:

    Eu crio programas de computador. Têm milhares de linhas. Muitas têm o seguinte aspecto:

    IF [CONDIÇÂO] THEN [ACCAO 1] ELSE [ACCAO 2]

    Não é preciso muito inglês para ver o que se está aqui a passar... há imensos pontos de decisão destes. E eu também não controlo os dados que o programa processa. Posso mesmo afirmar: os resultados são inesperados para quem desconheça na totalidade os dados introduzidos, e o programa.

    Mas... não o vejo mais livre por isso. E suspeito terrivelmente que ele diz o mesmo de mim.

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  3. Acaba com essa suspeição terrivel, Luis. Ele não suspeita mesmo! Neste mundão a perder de vista, os "programadores" são os únicos a «suspeitar». Desconfiados filhos da mãe, porque não se limitam a executar, diligentemente, o programa?

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  4. Bom, se não estamos condenados a ser contabilistas, não há a mínima dúvida que estamos condenados a ser desconfiados. Os homens da física teórica preferem dizer «observadores». Confessam, humildemente, que esta nossa condição de «observadores» do universo é o maior dos mistérios. E quem sou eu para fazer luz sobre a treva imensa?
    Ninguém dúvida que é preciso "ver" o TODO para compreender a PARTE. Aquela «pedra angular» que sustenta o edificio, examinada mil vezes, isoladamente, nunca nos dirá nada sobre a grandeza e beleza do edificio que sustenta. Só o exame do "conjunto" revelará o seu sentido, a sua função e a sua natureza fundamental. E que o seu "valor" é intrínseco".
    Mas quem vai ajuizar isso é o «observador».
    Por favor,Luis, não me perguntes, outra vez, quem observa o obesrvador! Em vez disso continua com um olho no "zero" que és e outro no infinito que vislumbras.

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  5. Gostei muito da maneira como explicaste parte da dúvida.
    Mas aquela pergunta que deixas: "...e quem criou o criador?" é fulcral.
    A mim apetecia-me poder dizer: foi alguém ou alguma coisa" mas, nesse caso, o criador deixava de o ser para passar a ser outro...
    Será que os dogmas são o caminho certo para resolver coisas... tão complexas?..
    Um abraço
    José Moreira

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  6. Pois é, meu caro Zé Moreira, «quem criou o Criador?» Os teólogos dizem que Deus é um «ser necessário» e com isto querem significar que está «fora» do nosso conceito de «criação» e existe por si mesmo.Mas, atenção, que isto são conceitos nossos, como quem diz, são os teólogos a falar em nome de Deus, como se conhecessem perfeitamente como «Ele é».
    Quando nem sabemos ao certo quem somos nós e o nosso mundo, parece-me suma presunção fazer afirmações sobre "quem criou a criatura que somos".
    E é aqui que entram os dogmas e é a partir daquela presunção de sabedoria suprema que devemos aquilatar do valor das propostas dogmáticas.
    Como muito bem sabes, os teólogos resolvem o problema da insuficiencia do nosso conhecimento acerca de nós e de Deus através do "expediente" que é a «revelação divina» de que já falei neste blog. Segundo eles, um punhado de privilegiados foram «ilumidados» por Deus ou falaram directamente com Ele ou com os seus mensageiros. E assim nasceram as verdades infalíveis, os dogmas.
    Porém, e como resulta das tuas imensas perguntas ou da Madre Teresa de Calcutá, continuamos mergulhados na ignorancia acerca de Deus, de nós e do nosso universo, sendo os crentes obrigados a viver na escuridão da fé e na esperança de que se cumpra a «palavra revelada». E as tuas perguntas ou da Madre Teresa acontecem porque tal «palavra» ainda não se cumpriu. É uma esperança...
    Eu sei que estás a pensar com os teus botões: «afinal, nada foi revelado e, se foi, eu não percebi».
    Com efeito.
    Por acaso sou amigo de um dos «reveladores», Paulo de Tarso. E vou defendê-lo dessa tua pouca fé...Porque ele merece ser defendido.
    Numa postagem, um dia destes.

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