"...Todos os átomos são infinitamente grandes, o que contrasta vivamente com a perspectiva de os átomos serem pequenos" (Peter Atkins, in O Dedo de Galileu).
Dá vontade de esfregar os olhos para verificar se estamos a ler bem. Peguemos no átomo com a estrutura mais simples de todas, o átomo de hidrogénio. O núcleo tem apenas um protão e para neutralizar a sua carga positiva existe apenas (e sempre) um electrão. Por terem cargas eléctricas opostas, namoram mas nunca se beijam. E também nunca se largam, por mais que o electrão se afaste do protão-núcleo. E pode fazê-lo até ao infinito. Porém, nem se pode dizer que se afasta porque, na realidade quântica, tudo acontece como se o tempo e o espaço não existissem "a priori", como um palco de eventos. De facto, Peter Atkins recorda que as soluções da equação de Erwin Schrodinger para dar conta do comportamento do electrão "prevêem a probabilidade de encontrar o electrão em cada ponto do espaço e não a localização precisa do electrão em cada instante, como na física clássica". Bem, mas isto é como se o tempo começasse a contar só quando tropeçamos no electrão, num espaço que também só começou a existir depois do encontro.
Então é assim: se eu não encontrar o electrão ele não está nem "aqui" nem "agora".
E no entanto eu não posso dizer que não existe, porque do namoro entre protões e electrões nascem todas as macroestruturas. A começar por esta que eu sou.
Eu queria ler o "Dedo de Galileu" até ao fim.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
quarta-feira, 11 de maio de 2011
O Outro Lado de Deus
Recebo muitos videos sobre Deus na minha caixa de correio-e, remetidos pelos meus amigos. Invariavelmente, nesses videos Deus é associado a belissimas paisagens, deslumbrantes exemplares da vida animal e gestos de amor e carinho de homens, mulheres e crianças.
Diriamos que a natureza em todo o seu esplendor nos aponta o verdadeiro "rosto de Deus".
Porém, não posso deixar de pensar no rasto de destruição e morte deixado por um terramoto, tsunami, vulcão ou furacão; no estertor da morte de uma presa nas garras do leão e na luta de morte pelo acasalamento que garante a vida futura.
Nunca ninguém associa Deus a estas realidades tão intensas e verdadeiras quanto a beleza do voo do condor no céu azul.
Este simples facto tão comum e, aparentemente, inócuo, pode ser suficiente para conduzir a um pensamento distorcido do que possa ser a Divindade.
Os nossos antepassados politeistas resolveram o problema imaginando um Deus diferente para cada situação. Havia o "Deus da guerra" e o "Deus da paz". Como havia o "Deus do bem" e o "Deus do mal".
Até que chegaram ao "Deus único" que tudo cria e a tudo preside. E será este o Deus que subsiste nestes nossos dias.
Apesar de "único" e transcendendo toda a nossa realidade, continuamos a associá-lo à vida do nosso mundo. E continuamos politeistas como os nossos longinquos antepassados, dando-lhe uma forma, de acordo com os nossos sentimentos e pensamentos.
Nos videos que recebo, dá-se-lhe o rosto da sabedoria e da beleza.
Não está mal, se pensarmos que Deus-é-tudo, mas nunca esqueçamos que falta "o outro lado", que consideramos "feio, destruidor e mau". Se quisermos ser tão honestos e verdadeiros como os nossos antepassados devemos aceitar que Deus também tem esse rosto terrivel...
Diriamos que a natureza em todo o seu esplendor nos aponta o verdadeiro "rosto de Deus".
Porém, não posso deixar de pensar no rasto de destruição e morte deixado por um terramoto, tsunami, vulcão ou furacão; no estertor da morte de uma presa nas garras do leão e na luta de morte pelo acasalamento que garante a vida futura.
Nunca ninguém associa Deus a estas realidades tão intensas e verdadeiras quanto a beleza do voo do condor no céu azul.
Este simples facto tão comum e, aparentemente, inócuo, pode ser suficiente para conduzir a um pensamento distorcido do que possa ser a Divindade.
Os nossos antepassados politeistas resolveram o problema imaginando um Deus diferente para cada situação. Havia o "Deus da guerra" e o "Deus da paz". Como havia o "Deus do bem" e o "Deus do mal".
Até que chegaram ao "Deus único" que tudo cria e a tudo preside. E será este o Deus que subsiste nestes nossos dias.
Apesar de "único" e transcendendo toda a nossa realidade, continuamos a associá-lo à vida do nosso mundo. E continuamos politeistas como os nossos longinquos antepassados, dando-lhe uma forma, de acordo com os nossos sentimentos e pensamentos.
Nos videos que recebo, dá-se-lhe o rosto da sabedoria e da beleza.
Não está mal, se pensarmos que Deus-é-tudo, mas nunca esqueçamos que falta "o outro lado", que consideramos "feio, destruidor e mau". Se quisermos ser tão honestos e verdadeiros como os nossos antepassados devemos aceitar que Deus também tem esse rosto terrivel...
terça-feira, 3 de maio de 2011
João Paulo II, Morto Ou Ressuscitado?
Está em curso o processo de canonização de João Paulo II. É impossível não associar este nome a S. Paulo. Depois de tudo o que aqui escrevi sobre a “ressurreição segundo S. Paulo”, impõe-se a pergunta: o Apóstolo, de acordo com tudo o que escreveu, “morreu na esperança da ressurreição” e permanece morto até ao “soar da trombeta” no Dia do Juízo Final ou está ressuscitado, como entende a Igreja, vivo e interventor junto de Deus em favor dos crentes e não crentes (porque não terá deixado de ser o “Apóstolo dos Gentios”)?
Como se vê neste processo de canonização e no culto das “almas do purgatório” a Igreja não aceitou a dureza ou loucura da morte integral do homem e da promessa de uma ressurreição futura, incessantemente anunciada por S. Paulo. Não suportou a demora de duzentos ou dois mil anos para a “Segunda Vinda de Cristo” e acomodou-se a uma fé diferente. No entanto, diferente apenas na pregação e nas práticas litúrgicas, porque a teologia não abriu mão da verdadeira fé e esperança de Paulo, mantendo o dogma da ressurreição da carne.
Seria muito importante que assumisse a divergência entre o que prega ou pratica e o que professa, reconhecendo corajosamente que, se Paulo não sabia nem a hora nem a forma de ressuscitar, a Igreja não sabe mais do que ele.
Não vale a pena fingir que do além vêm cartas ou milagres, remetendo para arquivo das velharias a loucura de S. Paulo, que prega a morte total do homem, feito cinza a aguardar o milagre de uma nova criação divina. E S. Paulo está a ser um homem não só de fé mas de inteligência. Com efeito, ele acreditou que se Deus realizou o prodígio da criação do “velho mundo” a partir do nada, porque não poderia realizar um outro ainda maior sobre as cinzas do “ velho homem”?
Voltando à “falta de fé” da Igreja, podemos perguntar: se a cura milagrosa de uma religiosa é “prova de vida” e de santidade de João Paulo II onde fica a fé e a esperança na ressurreição? Que espaço sobra para a fé, quando a razão é esmagada pelas provas irrefutáveis de uma ressurreição acontecida aqui e agora? Que espaço sobra para o “mistério da vida”, que enche a boca dos pregadores por tudo e por nada, para contrapor à descrença de um racionalismo redutor?
Com toda a justiça se poderá acusar os que ressuscitam mortos e os santificam de que andam a falar de um mistério “faz-de-conta” porque, na realidade, já ostentam orgulhosamente “as provas de vida” daqueles a quem o Apóstolo do Gentios apenas anunciou a esperança de uma ressurreição futura.
É gritante, neste caso de João Paulo II, como nos outros todos, o recurso aos milagres para substituir a fé e a esperança de Paulo de Tarso. Pudesse ele levantar-se do túmulo e gritar bem alto: não foi isto que anunciei!
Com a história dos milagres pretende-se subverter as leis da natureza e destruir o mistério da vida. E, ainda pior do que isso, a história dos milagres fabrica uma divindade que actua “a pedido”, arrasando a fé daquelas pessoas que depositavam a sua última esperança de amor e justiça num Deus-Pai, de verdade, que a todos haveria de tratar como filhos. A mensagem que a Igreja faz passar é a de uma divindade milagreira que, actuando “a pedido”, salva da morte a freira doente, ao mesmo tempo que deixa morrer afogados num tsunami trinta mil japoneses de uma vez só.
Não me impressionam as duzentas mil almas na Praça de S. Pedro. Dois biliões acompanharam um casamento real e facilmente duzentas mil pessoas se juntam dentro de um estádio de futebol.
Custa-me ver a Igreja onde me criei abandonar a fé dos seus fundadores, substituindo- a por uma corruptela que deixa indiferente uma juventude predisposta a ser despertada para o mistério da vida, servindo-lhe um espectáculo de milagres em vez de lhe sinalizar o milagre da vida e do universo. Deixou de entender e de pregar que é no mistério que o ser humano encontra espaço para “respirar”. Mistério mesmo, e não um jogo do faz-de-conta-que- não- sabe, mas sabe tudo sobre o que está para lá da morte.
Até sabe que ninguém morre, pensando a morte como se ela fosse um faz-de-conta. E apresenta as provas: os milagres que os mortos fazem!
Como se vê neste processo de canonização e no culto das “almas do purgatório” a Igreja não aceitou a dureza ou loucura da morte integral do homem e da promessa de uma ressurreição futura, incessantemente anunciada por S. Paulo. Não suportou a demora de duzentos ou dois mil anos para a “Segunda Vinda de Cristo” e acomodou-se a uma fé diferente. No entanto, diferente apenas na pregação e nas práticas litúrgicas, porque a teologia não abriu mão da verdadeira fé e esperança de Paulo, mantendo o dogma da ressurreição da carne.
Seria muito importante que assumisse a divergência entre o que prega ou pratica e o que professa, reconhecendo corajosamente que, se Paulo não sabia nem a hora nem a forma de ressuscitar, a Igreja não sabe mais do que ele.
Não vale a pena fingir que do além vêm cartas ou milagres, remetendo para arquivo das velharias a loucura de S. Paulo, que prega a morte total do homem, feito cinza a aguardar o milagre de uma nova criação divina. E S. Paulo está a ser um homem não só de fé mas de inteligência. Com efeito, ele acreditou que se Deus realizou o prodígio da criação do “velho mundo” a partir do nada, porque não poderia realizar um outro ainda maior sobre as cinzas do “ velho homem”?
Voltando à “falta de fé” da Igreja, podemos perguntar: se a cura milagrosa de uma religiosa é “prova de vida” e de santidade de João Paulo II onde fica a fé e a esperança na ressurreição? Que espaço sobra para a fé, quando a razão é esmagada pelas provas irrefutáveis de uma ressurreição acontecida aqui e agora? Que espaço sobra para o “mistério da vida”, que enche a boca dos pregadores por tudo e por nada, para contrapor à descrença de um racionalismo redutor?
Com toda a justiça se poderá acusar os que ressuscitam mortos e os santificam de que andam a falar de um mistério “faz-de-conta” porque, na realidade, já ostentam orgulhosamente “as provas de vida” daqueles a quem o Apóstolo do Gentios apenas anunciou a esperança de uma ressurreição futura.
É gritante, neste caso de João Paulo II, como nos outros todos, o recurso aos milagres para substituir a fé e a esperança de Paulo de Tarso. Pudesse ele levantar-se do túmulo e gritar bem alto: não foi isto que anunciei!
Com a história dos milagres pretende-se subverter as leis da natureza e destruir o mistério da vida. E, ainda pior do que isso, a história dos milagres fabrica uma divindade que actua “a pedido”, arrasando a fé daquelas pessoas que depositavam a sua última esperança de amor e justiça num Deus-Pai, de verdade, que a todos haveria de tratar como filhos. A mensagem que a Igreja faz passar é a de uma divindade milagreira que, actuando “a pedido”, salva da morte a freira doente, ao mesmo tempo que deixa morrer afogados num tsunami trinta mil japoneses de uma vez só.
Não me impressionam as duzentas mil almas na Praça de S. Pedro. Dois biliões acompanharam um casamento real e facilmente duzentas mil pessoas se juntam dentro de um estádio de futebol.
Custa-me ver a Igreja onde me criei abandonar a fé dos seus fundadores, substituindo- a por uma corruptela que deixa indiferente uma juventude predisposta a ser despertada para o mistério da vida, servindo-lhe um espectáculo de milagres em vez de lhe sinalizar o milagre da vida e do universo. Deixou de entender e de pregar que é no mistério que o ser humano encontra espaço para “respirar”. Mistério mesmo, e não um jogo do faz-de-conta-que- não- sabe, mas sabe tudo sobre o que está para lá da morte.
Até sabe que ninguém morre, pensando a morte como se ela fosse um faz-de-conta. E apresenta as provas: os milagres que os mortos fazem!
quinta-feira, 28 de abril de 2011
O Primado da Incerteza
Não tenho em mente a física de Heisenberg, mas algo tão perto de mim e de todos, que está mesmo dentro de cada um, fazendo de nós o que somos.
Pus-me a imaginar como seria, se todas as horas seguintes e os dias e os anos estivessem programados "ao milímetro", em resultado de uma planificação soberba e indefectível e estivesse assegurada, previamente, a sua execução também sem falhas. Imagine-se, ainda, que sou possuidor de uma clarividência total sobre as horas e dias e anos futuros de um tal desígnio. Concluiria que estava dotado do dom da certeza e da infalibilidade efectiva. E também concluiria por uma vida assim inútil, onde tudo já estaria certinho e feito.
Porém, esta não é a nossa condição e realidade.
A vida desenrola-se sob o primado da incerteza e a nossa victoria e a alegria de viver são também sofrimento e incerteza persistentes.
Postas as coisas nesta perspectiva, não se vislumbra como o conhecimento perfeito possa proporcionar a alegria da perfeita liberdade e realização. Bem pelo contrário, constata-se que são a incerteza e o desconhecimento do futuro o alimento fecundo dos sonhos da humanidade e a raiz da liberdade e da felicidade possíveis. Estou a lembrar-me da citação que Einstein faz de Lessing , de que "a busca da verdade é mais preciosa que a sua posse". Não será, com certeza, o elogio da ignorância mas a afirmação da nossa verdadeira condição.
Confrontando este pensamento com as propostas das religiões, ocorre dizer que, no limite, o primado da incerteza nos torna mais humanos que as certezas dos dogmas da fé religiosa.
Mas nada impede que o crente percorra o calvário da sua natural condição. Basta que aceite que não pode antecipar o futuro e comece por incluir a sua fé no próprio sonho da humanidade. Mais do que isto seria negar o primado da incerteza e, com isso, negar a real condição humana.
Não estou a dizer novidade nenhuma. Os cristãos, mesmo os “santos”, "partem" sob o primado da incerteza. Alguns, corajosamente, como Teresa deCalcutá, chegam a confessar o verdadeiro estado do seu espírito.
Pus-me a imaginar como seria, se todas as horas seguintes e os dias e os anos estivessem programados "ao milímetro", em resultado de uma planificação soberba e indefectível e estivesse assegurada, previamente, a sua execução também sem falhas. Imagine-se, ainda, que sou possuidor de uma clarividência total sobre as horas e dias e anos futuros de um tal desígnio. Concluiria que estava dotado do dom da certeza e da infalibilidade efectiva. E também concluiria por uma vida assim inútil, onde tudo já estaria certinho e feito.
Porém, esta não é a nossa condição e realidade.
A vida desenrola-se sob o primado da incerteza e a nossa victoria e a alegria de viver são também sofrimento e incerteza persistentes.
Postas as coisas nesta perspectiva, não se vislumbra como o conhecimento perfeito possa proporcionar a alegria da perfeita liberdade e realização. Bem pelo contrário, constata-se que são a incerteza e o desconhecimento do futuro o alimento fecundo dos sonhos da humanidade e a raiz da liberdade e da felicidade possíveis. Estou a lembrar-me da citação que Einstein faz de Lessing , de que "a busca da verdade é mais preciosa que a sua posse". Não será, com certeza, o elogio da ignorância mas a afirmação da nossa verdadeira condição.
Confrontando este pensamento com as propostas das religiões, ocorre dizer que, no limite, o primado da incerteza nos torna mais humanos que as certezas dos dogmas da fé religiosa.
Mas nada impede que o crente percorra o calvário da sua natural condição. Basta que aceite que não pode antecipar o futuro e comece por incluir a sua fé no próprio sonho da humanidade. Mais do que isto seria negar o primado da incerteza e, com isso, negar a real condição humana.
Não estou a dizer novidade nenhuma. Os cristãos, mesmo os “santos”, "partem" sob o primado da incerteza. Alguns, corajosamente, como Teresa deCalcutá, chegam a confessar o verdadeiro estado do seu espírito.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Fatal Dependencia
Quem seguiu aqui neste blog o debate que ensaiei com o Luís acerca do livre arbítrio e da fatalidade que nos atinge, desde o nascimento até à morte, ao ler este título começa a pensar que estou a dar a volta ao texto. Literalmente. E daí talvez não porque normalmente procuro, quando sou capaz, descer à raiz de um pensamento. Outras tantas vezes, encostado às cordas, atiro com generalidades tão grandes que cabe lá tudo e o seu contrário. É o meu momento glorioso de tarólogo e intérprete dos signos do zodíaco…
Independentemente das descobertas extraordinárias de António Damásio e seus pares da neurociência, sempre me descobri dependente das poderosas raízes do meu corpo. Desde muito pequeno me perdi em monólogos intermináveis, onde confrontava os meus sonhos de menino, de jovem e de homem maduro, com as limitações impostas por este corpo que me sustenta e que me possibilita dizer "eu", conscientemente. "EU" comparo-me a uma pomba (não seria melhor dizer melro?) presa nas mãos de quem a cuida e à espera de que este a solte, para poder voar, imaginando que ganhou a liberdade num espaço a perder de vista e de todas as direcções.
É tão real o sentimento que empolga, inebria e "convence" a razão! Mas Damásio, desmancha-prazeres, vem dizer que a emoção e o sentimento se fizeram pensamento. E que não vale este pensamento final sem considerar a emoção de quando levantamos voo.
E a verdade é que vou ter de voltar ao pombal para me alimentar e ganhar forças para um novo voo e com a certeza de que não dá para contornar a dependência.
Apetecia dizer que a liberdade sentida e pensada deste jeito é uma intermitência na vida de cada um. E acrescentar, depois, que é genuína enquanto sentimento e se converte em fatalidade quando pensamento.
Acredito que alguém, muito cioso da sua inteira liberdade, acabe por desejar não ser mais que pomba ou melro.
Por mim, vou continuar a disfrutar aquela surpreendente intermitência da vida, mesmo sabendo que este corpo que sou tem de regressar, dia após dia, ao pombal onde nasceu.
Sei, de antemão, que um dia já não conseguirei partir ou não poderei regressar. Fatalmente?
Sei lá! Inventa-se e descobre-se tanta coisa…
Independentemente das descobertas extraordinárias de António Damásio e seus pares da neurociência, sempre me descobri dependente das poderosas raízes do meu corpo. Desde muito pequeno me perdi em monólogos intermináveis, onde confrontava os meus sonhos de menino, de jovem e de homem maduro, com as limitações impostas por este corpo que me sustenta e que me possibilita dizer "eu", conscientemente. "EU" comparo-me a uma pomba (não seria melhor dizer melro?) presa nas mãos de quem a cuida e à espera de que este a solte, para poder voar, imaginando que ganhou a liberdade num espaço a perder de vista e de todas as direcções.
É tão real o sentimento que empolga, inebria e "convence" a razão! Mas Damásio, desmancha-prazeres, vem dizer que a emoção e o sentimento se fizeram pensamento. E que não vale este pensamento final sem considerar a emoção de quando levantamos voo.
E a verdade é que vou ter de voltar ao pombal para me alimentar e ganhar forças para um novo voo e com a certeza de que não dá para contornar a dependência.
Apetecia dizer que a liberdade sentida e pensada deste jeito é uma intermitência na vida de cada um. E acrescentar, depois, que é genuína enquanto sentimento e se converte em fatalidade quando pensamento.
Acredito que alguém, muito cioso da sua inteira liberdade, acabe por desejar não ser mais que pomba ou melro.
Por mim, vou continuar a disfrutar aquela surpreendente intermitência da vida, mesmo sabendo que este corpo que sou tem de regressar, dia após dia, ao pombal onde nasceu.
Sei, de antemão, que um dia já não conseguirei partir ou não poderei regressar. Fatalmente?
Sei lá! Inventa-se e descobre-se tanta coisa…
segunda-feira, 25 de abril de 2011
ABRIL
Abril, sempre?
Isso é que era bom!
Também há Agosto escaldante
Outubro macilento
E Fevereiro tormentoso.
É a vida, pá...
Isso é que era bom!
Também há Agosto escaldante
Outubro macilento
E Fevereiro tormentoso.
É a vida, pá...
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Da Polis
Esta noticia preocupa-me, vinda de quem vem.
As reuniões de Primavera do Banco Mundial e do FMI terminaram ontem em Washington com um alerta de que o planeta pode estar à beira de uma grande crise.
Segundo Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, a economia global está a "apenas um choque de uma crise completa", que poderá ser despoletada pelo aumento dos preços dos alimentos, que são "a principal ameaça às nações mais pobres".
Este responsável também manifestou o seu apoio à decisão dos ministros das Finanças do G20 na sexta-feira de dar apoio financeiro aos novos governos no Norte de África. "Se esperarmos que a situação estabilize, vamos perder oportunidades. Em termos revolucionários, lutar pelo ‘status quo' não é uma boa opção". Na mesma ocasião, o director-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse estar particularmente preocupado com os elevados níveis de desemprego entre os jovens. "Esta é certamente uma retoma onde não são criados empregos suficientes", afirmou. Para o líder do FMI, para a juventude "existe um risco de que o desemprego se transforme numa sentença perpétua, havendo a possibilidade real de uma geração perdida".
As reuniões de Primavera do Banco Mundial e do FMI terminaram ontem em Washington com um alerta de que o planeta pode estar à beira de uma grande crise.
Segundo Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, a economia global está a "apenas um choque de uma crise completa", que poderá ser despoletada pelo aumento dos preços dos alimentos, que são "a principal ameaça às nações mais pobres".
Este responsável também manifestou o seu apoio à decisão dos ministros das Finanças do G20 na sexta-feira de dar apoio financeiro aos novos governos no Norte de África. "Se esperarmos que a situação estabilize, vamos perder oportunidades. Em termos revolucionários, lutar pelo ‘status quo' não é uma boa opção". Na mesma ocasião, o director-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, disse estar particularmente preocupado com os elevados níveis de desemprego entre os jovens. "Esta é certamente uma retoma onde não são criados empregos suficientes", afirmou. Para o líder do FMI, para a juventude "existe um risco de que o desemprego se transforme numa sentença perpétua, havendo a possibilidade real de uma geração perdida".
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