quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Fogo de Artifício
Em Barcelos o espectáculo foi montado mesmo no centro da cidade, a partir do lindo e bem tratado jardim, a poucos metros da formosa e surpreendente, na sua arquitectura, igreja do Senhor da Cruz. O fogo abria-se mesmo por cima da cabeça dos espectadores e nem eu nem a minha mulher tínhamos, alguma vez vivido tão por dentro um fogo assim. Quando se está de longe e já se viram muitas sessões de fogo, não custa desviar o olhar e conseguir algum distanciamento. Mergulhados no espectáculo como estávamos ali, ficamos presos ao encanto da obra dos artífices.
Tão longa introdução, para vos falar de um outro fogo, o fogo do nosso pensamento.
Num comentário ao psot anterior, do Limabar, expressei o meu espanto pelo facto de um «filho da Terra», o homem, confrontar a Mãe com o mistério do seu nascimento. Porque são cada cada vez menos as dúvidas de que nascemos aqui!Nem somos extra terrestres nem espíritos "desincarnados" escondidos em formas corporais. A ciência encaminha-nos com segurança para essa verdade e os cientistas são os primeiros a ficar atónitos perante a surpreendente realidade. Os «materialistas» apressados dos séculos dezoito e dezanove estão a ser, literalmente, cilindrados, tanto quanto o foram os criacionistas que recusaram, até à última, o evolucionismo.
Siderados perante a dimensão do macro e do microcosmos, os cientistas ganharam em humildade o que os «materialistas» haviam multiplicado em cagança.
Vai-se descobrindo que a nossa Terra-Mãe, e com ela nós próprios, estamos ligados umbilicalmente ao universo que nos cria e alimenta, como criança no ventre materno.
E o nosso pensamento consciente permite-nos acompanhar, em tempo real, o desenvolvimento da vida. E já não se trata de adivinhar um qualquer mistério transcendente e nele acreditar, mas de apalpar, ver, ouvir, cheirar, saborear e sentir e medir e pensar, este que nos é dado viver conscientemente.
Já não se fala mais em «fugir deste mundo» nem prever o seu Apocalipse, mas tomá-lo inteirinho nas mãos, simultâneamente como herança e como projecto.
E o mesmo fogo de brilho intenso do pensamento consciente haveria de esconder no seu íntimo a mais estranha sensação de incerteza. É que o pensamento consciente de cada um dura apenas o tempo de um fogo de vistas. Esgotada a "pólvora", acaba-se o fogo, o brilho, o espectáculo, a emoção, o sentimento, o pensamento, a consciência.
Saramago já não é mais que um punhado de cinzas de um intenso fogo que se extinguiu. Sobrou a lembrança na mente dos que o conheceram e leram e hão-de ler, e a saudade amorosa no coração de Pilar del Rio e dos amigos.
É muito pouco, para quem tem sonhos de eternidade.
E a verdade é que nós não desistimos desse sonho, enfrentando heroicamente a desesperança.
O ser humano é fantástico! Nós somos mesmo bons! E dos «maus» também reza a história, mas não me apetece falar deles.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Em jeito de conversa...
No meu último post não foi minha intenção lançar uma polémica sobre o conceito de livre-arbítrio. Sei que as correntes filosóficas sobre o tema são várias e foram discutidas por imensos pensadores e filosofos. A minha ideia de base era focar a nossa dependência consciente, e sobretudo inconsciente, do ambiente em que vivemos. Mostrar que a parte cultural da nossa consciência, é o resultado da interacção do nosso eu com o mundo exterior. (Eu vejo a consciência como um todo constituído de duas partes distintas e indissociáveis: a biológica, herança da espécie, sobre a qual o nosso poder de acção é quase nulo; a cultural que construimos a cada instante da nossa vida.) O que eu queria trazer à luz é o facto de, em relação ao meio em que vivemos, não passarmos de um pião das nicas, puxados, empurrados, sacudidos pelos ventos interesseiros e interessados dos vários agentes que nesse meio pululam. Sendo nós próprios um componente desse meio, não nos é dado ignorar nem rejeitar tudo o que dele nos vem, mas cabe-nos o direito de questionar, seleccionar e guardar unicamente o que julgarmos útil ou agradável.
Acho este ponto importantíssimo na construção da consciência de cada ser humano. Quando nascemos somos um livro branco, nem os registos da herança biológica são legíveis. A qualidade de toda a nossa vida vai estar sujeita à pertinência do que aí será escrito. Estarão aí os mandamentos, as leis e os preceitos que vão fazer de nós o que seremos.
No meu ultimo comentário permiti-me, de certa forma “julgar” o Mário e o Luis. Acreditem que o fiz pela simpatia que me transmitem os vossos “taco a taco”. Em resposta o Luis não hesita em resumir-se numa quadra, que não rima é certo, mas que contêm com certeza a “poesia” da sua vida.
Quanto a mim, confesso, prefiro o espectador ao actor, e o ”eu” emprego-o mais a discutir comigo próprio do que a falar com os outros. Aqui vai uma amostra que me aconteceu aqui há uns tempos. Não é uma queixa, é uma constatação.
VIDA
Corri, escorreguei, caí,
Rachei um dedo, gritei.
Foi assim que comecei
A vida que não escolhi.
Porta aberta, eis-me lançado
No pantanal da existência.
Sonhos, loucura, inocência...
Tudo levei num braçado.
Ela está onde, a verdade?
Quem socorre um vagabundo...?
Era a manhã deste mundo,
Princípio da eternidade.
Alguém chamou, deu um grito
Que tudo estremeceu.
-Anda, pega, o tempo é teu,
Ouro, glória... o infinito!
Prometeu coisas sem fim!
Fiz contrato e assinei.
Dei mãos à obra, lutei
Até dar cabo de mim.
Vida sacana, canalha.
Que pesadelo medonho !
Se não acabo este sonho
Não há santo que me valha!
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Do Livre Arbitrio
É isso aí. O «dualismo» imbricou-se de tal forma no pensamento dos homens, que Damásio & Cª vão ter muito que suar para convencer as pessoas a descer à terra.
Somos uns ingratos! Sempre a voltar as costas à Terra-Mãe que nos deu tudo.
Estava aqui a pensar, a propósito da publicidade e todas as outras armadilhas que fazem gato-sapato do nosso livre arbítrio, nas séries televisivas sobre a vida selvagem na Nacional Geographic. Há animaizinhos que conseguem aumentar o seu tamanho para o dobro, inchando por todos os lados, para fazer crer ao seu predador que é bem maior e mais forte do que ele pensa. Outros há que fazem trinta por uma linha para seduzir a fêmea, armando-se em "bons". No reino das plantas, a arte de enganar é também requintadissima.
A nossa publicidade sedutora, enganosa e enganadora, não lhe fica atrás. O que significa que nós, humanos, filhos da mesma «cepa», não negamos a mãe-natureza! E eu prefiro-me assim, a um espírito feito alma-penada que não se engana nem se deixa enganar.
Nunca sentiste, meu caro Lima, um sentimento de vitória, quando descobriste a "marosca" de um "trapaceiro"? Já pensaste na comoção sentida por aqueles nossos antepassados quando desmascararam a mentirosa Lua? Tão pequenina, parece ela; ora cresce ora minga e vai-se a ver, é tudo um faz-de-conta. Como o Pai Natal.
Nós não nascemos "ensinados" e muito menos com uma «alma-feita», isto, claro, se não formos dualistas como Platão ou Descartes ou António Gedeão (estou a brincar com o Gedeão, porque ele fez poesia e não filosofia).
Aprendemos a fazer e desfazer enganos, a decidir bem ou mal e a escolher bem ou mal.
Tudo em nós é uma "capacidade" em desenvolvimento, como a primitiva célula que se replica até criar a estrutura de um ser humano fabulosamente complicada.
Não se pode chegar ao livre arbítrio como Descartes chegou à «Res Divina»: temos a «ideia» de perfeição; mas nós não somos perfeitos; logo tem de haver um ser onde a perfeição se torne real. Esse ser é Deus.
Assim é fácil chegar a Deus ou ao livre arbítrio. Ou não chegar coisíssima nenhuma!
Platão dizia que nenhum circulo desenhado ou esculpido é perfeito e só a «ideia» de circulo é perfeita. É como dizer que a «maqueta» de uma cidade é perfeita mas a cidade propriamente dita é um amontoado imperfeitíssimo de elementos. Vai-se fazer a "prova dos nove" e lá temos a ideia perfeita de Platão no projecto matematicamente impecável do arquitecto, a comparar com a "grosseira" realidade dos maus cheiros e dos gases tóxicos por todo o lado, sem contar com os mil e um defeitos, detectáveis a olho nu, por imperícia dos «trolhas».
Certamente que a mãe natureza é bem mais perfeita naquilo que faz e a prova disso está no projecto matematicamente perfeito do arquitecto. Só que os senhores dualistas dizem que o autor do projecto da cidade é outra «substancia», a «res cogitans», que não tem nada a ver com a cidade propriamente dita, e que Descartes chama de «res extensa».
Pois é, cá temos uma alma acoplada a um corpo, que é tudo o que António Damásio nega: um homem, duas substancias. No limite, duas naturezas.
E a partir daqui nascem as intermináveis discussões bizantinas, como esta sobre o livre arbítrio. Com efeito, se ficarmos presos aos conceitos de liberdade, de escolha, de fatalidade, estamos a confundir «maqueta» com a «cidade», como quem diz, o conceito abstracto com a realidade. E esta é incomensuravelmente mais rica do que tudo aquilo que vamos podendo "miniaturizar" pelo nosso nosso génio.
Eu já afirmei e volto a repetir: 2+2=4. Dois Limabar mais dois Limabar, não são quatro condiscipulos da minha adolescencia, porque Limabar só há um, o de Geraz do Lima e mais nenhum.
É a distancia entre o conceito e a realidade e nós sabemos calculá-la bem. Por isso é que conseguimos construir as cidades que sonhamos.
O Luís vai-se ir aos arames, mas vou escrever, mesmo assim: a distancia entre o fatalismo do livre arbítrio e a verdade (possível) da livre escolha é a mesma que existe entre a fantasia e a realidade.
As consequencias da aceitação de uma «verdade possível» e de uma «liberdade possível» são demolidoras para a ética e para a moral. Quem faz as leis e quem zela pelo seu cumprimento (os juízes) vão ser obrigados a legislar e a julgar tendo em conta a «cidade» imperfeita ou inacabada (cheira a relativismo, mas que hei-de fazer!) e não a «maqueta» idealizada, para o mundo único e irrepetivel que é cada ser humano.
Seria caso para dizer: não queria estar na sua pele. Mas eles desenrascam-se bem, improvisando que se fartam!!! E é o que vale, se não isto não atava nem desatava. O caminho é longo, sinuoso, barulhento e confuso. Não é assim, Dalai Lama? Acho bem que medites profundamente nestas coisas e acho mal que pares na borda do caminho, à espera que os outros construam a cidade barulhenta e malcheirosa que vai sendo possivel.
(Juro que esta não foi para o Luis!)
sábado, 1 de janeiro de 2011
Livres... sem livre-arbítrio
No meu ultimo comentário sugeri começar o ano com uma pequena mudança de assunto, nestas conversas de amigos, que, espero, são proveitosas para todos. O tema a que eu fazia alusão, é um fenómeno de sociedade, que nos invade quotidianamente, embora, à força do habito, poucos disso se apercebam. A mim não raro me faz vociferar... mas é tudo o que posso fazer!
Para melhor apreender as implicações desse fenómeno nas nossas vidas, começaria por relembrar algumas considerações sobre o funcionamento do nosso sistema decisional.
A qualidade da nossa vida depende, em boa parte, das decisões que tomamos, seja qual for a importância que lhes é dada. Ora essas decisões, se somos livres e conscientes, devem obedecer ao nosso bem-querer, ao nosso livre-arbítrio. É a condição primeira para nos sentirmos livres e senhores do nosso destino. Neste processo, o nossa mente utiliza a informação que lhe é disponibilizada pelos centros de armazenamento da memória, informação essa seleccionada pelos sistemas de aquisição de que dispomos. O circuito de armazenamento começa pela recolha da informação do exterior, através dos meios de percepção do nosso corpo, seleccionando e atribuindo de imediato a cada fragmento informativo, um certo valor qualitativo, em relação ao “eu” que nos habita. Assim, a pouco e pouco, a nossa mente, vai constituindo uma enorme base de dados, cujo conteúdo será utilizado, consciente ou inconscientemente, em cada tomada de decisão.
Então, perguntaria eu, por que será que tantas vezes somos as vítimas das nossas próprias decisões? Se somos livres de escolher, por que razão nos enganamos? Forçoso é de constatar que, ao menos uma parte do conteúdo de que dispõe a nossa mente, não é fiável, ou pelo menos não corresponde àquilo que o nosso “eu” desejaria.
É aqui que entra o tal fenómeno de que falei acima. Fenómeno esse, hoje universal, que eu considero uma verdadeira tara da nossa actual sociedade. Realidade omnipresente, disfarçada sob aparentes fins informativos, é hoje um poderoso actor que age sub-repticiamente sobre uma boa parte das nossas decisões, supostamente livres e consentidas. Estou a falar da Publicidade, de toda e qualquer forma de publicidade..
Acordo de manhã, ligo o programa de radio habitual, e ela aí está! É o começo de uma invasão descarada de meu espaço privativo, a minha casa. Entra sem autorização, por qualquer frincha aberta para o exterior. Passa pela televisão, pela Internet, por radio e telefone, pelos jornais, pelas revistas, pelo correio, até pelas janelas. É maçadora, repetitiva, impertinente. Se saio à rua, é o olhar que é atraído, em cada esquina, em cada praça, em cada muro. Sinais convidativos, mensagens multiformes de um subtil entendimento. Vou ao cinema, mas nem aí me livro dela. Tenho que a suportar se quero ver o filme inteiro. Entro no carro, faço quilómetros para desafogar... pura ilusão, ela está sempre há minha frente, no campo de visão, provocadora, instigadora. Estradas, vilas e cidades, por toda a parte onde houver povo, aí está ela, omnipresente, inevitável. Quando a informação é real e a mensagem honesta, pode ser aceitável, mesmo útil. Quando é agressiva, tendenciosa, desonesta, mentirosa, embora quase sempre bem vestida e aliciadora, torna-se prejudicial e potencialmente perigosa. A mensagem, trabalhada, embelezada, visando muitas vezes alvos escondidos, é enviada repetidamente em nossa direcção, através de artimanhas várias, de tal maneira e engenho que nos é quase impossível não a receber. Os espíritos suficientemente esclarecidos e alertados em relação ao perigo, podem acomodar-se e rejeitar o indesejável, embora saibamos que o inconsciente guardará sempre restos insuspeitos. Os distraídos, ou os incapazes de ordenar correctamente as suas percepções, correm o risco de aceitar informações menos claras, duvidosas ou mesmo erradas, sub-repticiamente intrusivas, sem que o sistema de controlo se aperceba de tal facto.
É assim que, inconscientemente, através da percepção que temos do meio que nos rodeia, vamos acumulando informações que, misturadas ao património cultural já adquirido, vão ajudar a consciência na hora da decisão.
A consciência guia a nossa vida através das opções por nós tomadas. Ela pode enganar-se na sua escolha, se o conteúdo informativo de que dispõe é desnaturado.
Somos assim livres de escolher, mas enganados ao exercer o nosso livre-arbítrio.
Limabar
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
Votos de um Bom Ano
Como sou um optimista por natureza, penso sempre que o próximo ano vai ser melhor que o anterior. Mas a verdade é que a História me empurra para esse optimismo.
Quando era miúdo, ouvia cantar as «janeiras» com versos que convidavam ao optimismo, comos estes:
Ano Velho deixa o Novo
Deixa o Novo governar
Enquanto tu governaste
Ninguém te pôde aturar.
Juro que não tem nada que ver com a política!
Um grande a fraterno abraço
Mário Neiva
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
A Forma e o Fundo (2)
Nesta afirmação desdizes tudo o que afirmas do budismo. Porque a «consciencia de que nada é permanente» pretende ser toda a realidade e a realidade toda. Ou não é assim? E não vale a pena jogar com as palavras-conceitos de «existe» ou «não existe», caindo no racionalismo cartesiano que faz depender a «existencia» da actividade do nosso pensamento. «Penso,logo existo». Para quem aceita o dualismo do ser humano, tal poderá ter alguma lógica e chegar ao ponto de afirmar, como já vi aos espiritualistas, de que não é o cerebro que gera a mente, mas a mente que gera o cérebro.
"Situar" a realidade do pensamento "antes" da "materialidade" do cérebro, que quatro biliões de anos se esforçaram por estruturar, é um modo de ver as coisas. Não é o meu nem o da ciência.
O budismo aparece-me, de facto, como um racionalismo puro encapotado, e o último parágrafo do teu comentário é lapidar.
A laboriosa construção do «eu» implica uma identidade que reproduz perfeitamente, no meu entender, a essencia da realidade, a saber, a perenidade de "ser", que no caso do homem «é consciente» e a permanente mudança ou movimento, materializado em «formas». "Fisicamente", eu, hoje, já não sou o que era ontem. Nem há um instante atrás (ai o tempo!!!). Lá regressamos à «forma e o fundo»! Poderiamos dizer, assim de uma forma um tanto grosseira, que as formas são o desdobramento do ser. E, assim sendo, não só não nos levam ao engano, como, bem pelo contrário, nos revelam as belezas do «fundo».
O génio humano não ficou passivo, aguardando que este «fundo» se revelasse nas «formas» e quer saber mais. Porque descobriu que existe um «fundo» e nós somos parte desse «fundo» acredita que conhecendo esse «fundo», conhecerá o seu destino.
Mas um novo problema se levanta. A «forma e o fundo» são as duas faces da mesmissima moeda e a realidade aparece-nos como uma espécie de obra inacabada e, nesse sentido, "inexistente" . (Talvez seja por isso, Luis, que passas a vida a dizer-me que «existes e não existes»). Olhamos a moeda da vida de um lado e vemo-la em perpétua mudança; olhamo-la do outro e vêmo-la tão dura e eterna como um diamante.
Ficamos baralhados. E o caso não é para menos!
Diz-me aí, Luis, tu que afinal sabes de dois Budas, qual a face da moeda do «ser» ou da vida que o budismo não está a ver?
domingo, 26 de dezembro de 2010
«O Caminho Do Meio»
Já vai sendo hábtito fazer um post a partir de um comentário a outro. Como se estivesse a comer cerejas de um cestinho, mesmo acabadinhas de apanhar, com os longos "pés" entrelaçados e, quando a gente pega uma, vêm três ou quatro de uma vez.
Está tudo muito certinho nos "conselhos" de Buda. São palavras sensatas e sábias para uma vida tranquila e feliz. Mas são também palavras que apelam ao conformismo com o «fado» que nos calhou em sorte. Neste sentido o Luís afirma, na citação acima, que «o caminho do Buda não é o ascetismo». A «perfeição» de Buda é a conformidade à nossa condição humana, ajustando a razão e a vontade ao que somos. E aquilo que somos está fixado como realidade no mais íntimo de nós. No fundo, a nossa tarefa será encontrar a realidade que já somos e da qual nos afastamos, vá-se lá saber porquê. Nesta perspectiva, se a «nossa vida» não é um regresso ao passado, parece.
Não é esta a perspectiva que nos oferecem os desenvolvimentos actuais da ciência, que nos fala de um universo em expansão e nos revela um longuíssimo processo evolutivo, até à emergência da mente consciente. A mesma mente que nos possibilita considerar diferentes perspectivas para a realidade do ser humano.
Não são poucos os cientistas a afirmar que a evolução continua o seu curso e isso significa que não existimos para reencontrar a nossa essência mas para criá-la. E portanto, meu caro Luís, «O Caminho do Meio» ou o caminho do perfeito equilíbrio é uma demanda inglória, como de alguém que procura o que já foi ou é. A perspectiva alternativa é a criatividade, esperando que seremos aquilo que nunca fomos.
Para mim é muito mais aliciante.